Uma feiticeira certa vez me disse que o corpo é a marca do tempo que vivemos. Nunca me esqueci disso. Talvez suas palavras tenham de fato me enfeitiçado a tal ponto de crer que as feiticeiras são mais sábias que os filósofos e que suas palavras são mais verdadeiras e fieis do que as dos grandes escritores. Vá e segue o teu sangue, disse-me ela quando partia. Eu disse que não entendia o que ela queria dizer, ela me disse que era só seguir o rastro, que o caminho só é feito da dor dos passos no espaço e que o tempo é só uma ilusão da consciência na tentativa de organizar os nossos pensamentos.

 

Tentei seguir o caminho das pedras, certo de que iria encontrar o meu sangue em pegadas no chão desse asfalto sem fé e sem Deus. Ela disse que Deus é uma invenção humana e eu lhe  perguntei como fui e voltei várias vezes. Ela disse que alguns destinos estão protegidos pela força que rege a esperança de cada um; Deus só é Deus e potente em sua máxima onipotência porque nós fizemos e fazemos dele o rei  do ocidente. Tudo só existe se acreditamos  que existe, isso é mais potente do que qualquer verdade a ser revelada. A cultura é feita de mentiras, medos, espinhos e sonhos; em meio às pegadas pela areia desse deserto infértil de amor e paz se encontra o germe do desejo que nos faz suportar o calor que faz escorrer a alma e o frio que congela o espírito. A vida e o mundo não é o mesmo para todos e nisso reside toda a nossa desgraça. A vida e a morte são sinônimos numa civilização que administra os nossos pensamentos e sentimentos. O antagonismo só serve ao biopoder que sustenta o tanatopoder extracorpo e intracorpo; o resultado disso é a guerra contra nós mesmos na direção da lança de fogo do outro que acredita que ao me matar, ganhará o céu como tesouro. Disse a ela que a noção de valor que temos sobre a vida e a morte parece mudar de acordo com os interesses políticos que são sempre interesses bioeconômicos. Os significados ganham outros sentidos quando o poder assume outros jogos de dominação que é sempre um jogo de xadrez em que o mais rápido e esperto brinda a vitória da derrota alheia. Lembro-me dela dizendo que os significados mudam com a nossa percepção, e que transgredir essa nossa noção de realidade era a nossa missão na Terra.  Quando enxergamos de fato como as coisas realmente são e da ilusão que pagamos caro para sobreviver, talvez tenhamos um desejo de mudar essa grande narrativa mentirosa que nos vendem todos os dias o tempo todo. Paguei por uma previsão sem chance de um futuro certo. Ela leu os meus pensamentos e disse que o certo é o incerto daquilo que o espírito tem que sobreviver ao adquirir a percepção da grande máquina que sustentamos. Ela me disse frases soltas com múltiplos sentidos enquanto eu lhe lançava dúvida e medo, pânico e segredo em forma de perguntas. Ela pegava a minha mão complacente, me transmitia calor, afeto bom sem agressão posterior, e por fim, me deu um colo. Você sente falta da sua mãe. Eu chorei por dentro e sangrei em suor. Lembrei-me de meu pai que morrera tão cedo trabalhando como carpinteiro. Nunca viu a beleza do sol sem se sentir esmagado pela falta de vento. Minha mãe nunca me amou, respondia a ela. É por isso que você sente tanta falta dela.

 

Perguntei se meus sonhos iriam se realizar, se meus desejos incontroláveis iriam cessar ou se o mundo haveria de mudar com um pouco de tempo. Eu chorava na tremulidade das pálpebras enquanto ela me olhava ternamente e me lançava enigmas pela existência. Você procura prazer por desespero e angústia, aceite o seu envenenamento e crie seu antítodo contra si mesmo. Noites e mais noites eu caminhei em silêncio, buscando calar o terror dos meus pensamentos. Ela tinha razão.

 

Já se passaram trinta anos e eu não a reencontrei. Ou foi tudo uma alucinação? Dissestes que eu encontraria a minha doença para além de sentir e eu dei gargalhadas. A imaturidade é a irmã da prepotência, disse-me ela sorrindo como uma bela mãe diz um conselho ao filho primogênito. Eu nunca fui o primeiro nem o último: nem estava no meio. Não encontrei um lugar nem o meu tempo, descobri que a minha doença é acreditar que tudo seria possível se nós acreditássemos que tudo é possível mudar. Descobri isso desde cedo, porém me faltava perguntas que me dividissem a alma em pedaços de carnes vazias sem nome e endereço.

 

Eu era o vazio e copo cheio. A alegria disfarçada de medo. A depressão transformada em riso, em escárnio de si mesmo. A tragédia é o outro lado que sustenta a comédia assim como a comédia é triste por nos fazer lembrar quem realmente somos. Ela me disse num sonho: você não terá filhos nem deus. Palavras te reconfortarão em dias e noites de tormentas que lhe arrancarão o chão frágil de suas crenças. Descobri que sangro quando sinto o cheiro de dor exalada em cada palavra que escrevo. Que o meu lugar não existe e que tudo que existe, esconde seu verdadeiro sentido em segredo. A vida é mistério assim como a morte é medo, e o medo é o filho do mundo assim como o mundo é o pai de todos os medos. Busca-te a poesia que lhe falta nesse cativeiro, retornou sua voz em outro pesadelo. Eu sou a maldição e a benção dos que sonham sozinhos e choram debaixo dos viadutos acompanhado daqueles abandonados pelo governo. A vida é triste como a poesia é bela porque resiste. E tudo que resiste só resiste porque ainda buscamos enxergar a beleza onde permanece o caos, a tortura das nossas utopias transformadas em mercadorias que nos transformam em viciados por produtos que prometem a felicidade que não existe e assim somos transformados em parasitas cheios de fetiches por produtos que nos preenchem com mais vazios, esse eterno inimigo da consciência humana; essa, nosso eterno labirinto de inseguranças. Estamos presos dentro de nós mesmos e recusamos a salvação por medo de quebrar a matrix e sua pseudo-salvação em outro mundo, de onde ninguém veio para dar alguma explicação.

 

Sentei-me ao lado dela pedindo primeiro que me respondesse se eu era digno de ser amado. Ela disse risonha, que eu era estúpido e que sim, um dia alguém encontraria em mim a beleza perdida nos meus olhos cansados de tanto ver imensas tristezas. Almas gêmeas não existem, o que existem são almas irmãs que se casam e se amam como os irmãos se amam: cheios de conflitos e desejos, brigas e remorsos, culpas e julgamentos, sexo e silêncio. Disse que não entendia, e ela me disse para não tentar entender tudo ao mesmo tempo, que algumas coisas só se revelam para a gente quando estamos abertos o suficiente para encararmos as verdades que nos rasgam ao meio depois de termos apanhado o bastante do mundo e refletido muito sobre esse tempo que estamos ganhando e perdendo nessa vida que se caminha para a morte como um animal caminha para o matadouro no inverno.  Eu lhe disse que ela era louca, que não falava coisa com coisa, e ela me disse que sempre foi chamada assim, desde o começo. Antes era não-humana, depois escrava e feiticeira, depois mãe e dona de casa, depois prostituta e santa e agora louca e deusa. Eu sou o peso que as pessoas atribuem a eles mesmos quando me enxergam com os olhos alheios acreditando serem seus próprios pensamentos e sentimentos. Eu disse que ela estava sendo profunda para um garoto de vinte e cinco anos, ela me disse para ser forte, pois a fraqueza reside em todo ser que se eleva a um bom pensamento. Mas eu sempre me senti fraco, respondi. A sua fortaleza estar em resistir e criar significados para essa ilusão que todos acreditam viver. Você enxerga para além do seu corpo e sua consciência lhe pesa tanto que você não consegue às vezes se mover e isso não é fraqueza, é resistência. Mas resistência sem resiliência não é força é penitência.

 

Disse que sentia dores de cabeça muito fortes e que por vezes conversava com a natureza. Sem loucura não há beleza nem arte, nem filosofia e poesia, nem sonhos e utopias. Você tem resposta para tudo? Perguntei. Não, eu sou a resposta que a passagem do tempo traz para cada um que reflita com insistência. Eu sou dor e sossego, promessa e descumprimento quando você entender que tudo é um grande paradoxo enquanto a linguagem é falsa e contraditória em si mesma. O cinismo mantém o grande circo das aparências. Eu disse que ela estava sendo amarga, ela me respondeu que eu estava sendo inocente. Eu saí da sala batendo a porta, como qualquer jovem prepotente. Ela não disse nada, apenas levantou-se e disse-me adeus com um sorriso verdadeiramente contente. Senti raiva, medo e alegria. Como pode alguém ser assim e sobrevivente?

 

Eu não quis entender e percebi que por tentar entender tudo eu não vivia contente e sempre sofri de insônia por achar a alegria sempre ausente nesse tudo-todos que ainda me devora tudo e todo. E quando quero conversar com alguém igual a mim, recorro aos meus delírios e encontro ela, a feiticeira que sempre me espera e suporta todo o meu sofrimento em forma de pensamentos que se traduzem em palavras perdidas no vento de um tempo sem tempo, mas cheio de pesados sentimentos que não enriquecem a poesia nem o ego, mas encontra sua forma de conviver com todo esse mundo de estranhamento que sempre transborda em meu pequeno e imenso, efêmero e intenso ser em desconstrução em forma de descontentamento.

 

 

 

Anúncios