Manhã

 

Tinha nascido com muitas asas. Sonhava em voar por todos os lugares. Longe, beem longe. Suas asas fizeram-no acreditar que tudo seria possível de mudar, transformar. Mas no jogo da vida sempre dançamos no ritmo da nossa própria morte, e aos poucos, Chronos ia lhe tirando as penas já sujas de percorrer a estrada onde deixava seus rastros com lágrimas salgadas em um mundo onde a doçura morre no momento em que aprendemos a olhar tudo de um único jeito. Penas que faziam o seu caminho solitário e perdido em si mesmo numa fuga imperfeita e sempre inacabada. O suor que cai na estrada se confunde com a dor que se liquefaz.

Ele sempre tentou fugir da realidade. Enxergar a vida é abrir os olhos para o jogo perverso da morte. A imaginação era o seu lugar sagrado, sonhar era a sua oração em meio às trevas que o rodeava. A razão demasiada entorpece a alma, cria espinhos que só perfuram os mais sensíveis, e esses morrem cedo demais. Aprendeu que para sobreviver era preciso pensar muito mais do que haviam lhe ensinado, e que se descobrir era escavar de dentro da própria escuridão alguma luz para se salvar temporariamente. E sentiu que filosofar é ressuscitar os mortos do umbral do esquecimento em que foram jogados.

 

Tarde

 

O passado não lhe trazia boas lembranças. O passado já não existia, mas permanecia em forma de uma coroa de espinhos em sua memória. E a cada vez que se lembrava das brigas, sentia o seu coração contrair-se em perfuração sem anestesia. Poetizar a vida é lavar a alma com o próprio sangue. Escrever é auto-sacrifício sem salvação, é ressentir sem perdão, é ressignificar a própria história sem redenção, é acreditar na força da palavra que não há, pois a escrita jamais irá ilustrar perfeitamente o que sentimos e a forma fidedigna de como sentimos as dores do apocalipse deste mundo. Acreditar na palavra é crer na utopia que nunca se realizará. Os homens com suas vaidades e ganância conseguiram destruir o espírito da expressividade humana em troca de terrenos privados sem taxação de impostos. A poesia morreu e os poetas estão tentando se matar.

Ele, que nunca havia lido nada, nem escrito nada, sentia a vida passar como um papel em branco voando levemente entre uma dor e outra rumo a um destino sem futuro. O que ele sentia voava com os sonhos que aprendeu a sonhar vendo comerciais de tevê numa loja esquecida da cidade em cinzas. O presente era angústia, dor de existir sem fim ou final feliz. Felicidade, ele ouviu essa palavra num outdoor e jamais conseguiu alcançá-la. A sombra do que restou dela o pesava e ele a carregava como um tesouro pesado e perdido há milênios antes de os humanos invadirem a Terra. A sensação que tinha às vezes era de pura vertigem e raiva. Raiva de enxergar, tristeza por sentir e ódio por existir. Existir dói como a dor do parto, uma dança letal entre o fôlego e o castigo. A superfície era inalcançável. A libertação da alma dependia de sua força em acreditar que um dia haveria um momento em que jamais se lembrasse de quem ele realmente era.

 

 

 

Crepúsculo

 

Da esperança em mudar e transformar o mundo ele tinha dúvida: ou torturava a criança que ainda resistia dentro dele até a morte ou se conformava com o estado de coisas que sempre existiu: mas isso também sufocava os sonhos da criança que ainda insistia em respirar mesmo a pancadas cada vez mais fortes dos adultos que sabiam de tudo e que não se importava com as perguntas que existiam dentro do universo particular dele. O mundo é dos burros, entendeu. Mas a burrice é mortífera, venenosa e contagiosa. Dose a dose, dia após dia as pessoas acordam e tomam um gole até se anestesiarem por completo e diante do vazio desesperador delas, procurariam logo um remédio, um terapeuta para saber o que está acontecendo dentro de si, pois o que resta de nós quando nos matamos subjetivamente é a escuridão habitada por demônios que jamais nos deixa dormir em paz. O travesseiro ganha voz e mais vozes e a consciência cria perna e vive a nos assombrar como quem exige uma pequena esmola para continuar sobrevivendo.

Ele só queria voar como acreditava antes de crescer um pouco. Quem ele era? Um resquício da poesia da infância ou uma serra elétrica que a tudo devasta onde passa? Ele não aprendeu a se defender, jamais conseguiu bater e por isso acaba-se autoflagelando e se autodestruindo quando tudo parece estar de cabeça para baixo. Ele era aflição, caos, depressão e desespero. Uma flor que tenta encontrar um jardim em um mundo cheio de prédios gigantes e cinzentos. A cidade reflete o estado de espírito das pessoas que passam sem perceber as frases que gritam de dor nas paredes pixadas. As vozes que falam na calada da noite revelam a verdadeira farsa na qual todos alucinadamente acreditam viver. A morte do espírito se funde com a debilidade da mente que já não reage à tortura da grande máquina de moer coração, pulmão, cérebro e sonhos. Estamos enlatados para o grande comércio das almas.

      A sua glória e a sua desgraça era mera questão de memória. Juntar todas as peças do quebra-cabeça era sentenciar sua morte prévia. A cada rua que morava ele se esvaziava; deixava um pouco de sua mágoa, de seu rancor, de sua melancolia, de si mesmo. Juntar todos os cacos de vidros é pior que quebrar o próprio reflexo diante do espelho escuro da existência. Retalhos de um eu não jamais constituído.

 

 

 

Noite

 

 

Na UTI se encontra a nossa liberdade; entubada de razão tecnicista com doses de servidão voluntária. Ele achava que as pessoas no fundo gostariam de serem autônomas, mas percebeu que a submissão, a escravidão e a subserviência os tornam seres cristãos, pois é sofrendo que se chega ao céu e conquistam sua glória paradisíaca. Os acéfolos negam a vida física acreditando numa vida metafísica da qual os profetas-publicitários prometem sucesso com o deus que sempre os maltrata. Nesse jogo sadomasoquista encontram-se a fé, a esperança e a ação vazia recheada de ódio, burrice e estupidezes que somente os animais pensantes conseguiriam ser e exercer. O fim do mundo se confunde com o fim da subjetividade. A era dos zumbis buzinando de dentro de seus carros se confunde com a marcha fúnebre em que todos os idiotas de mãos dadas como manda o sentimentalismo debiloide se entregam ao fundo do abismo que voluntariamente construíram a fim de convencer a si mesmos que são capazes de pensar e agir. A morte está desempregada.

       Viver como sombra daquilo que nunca foi e nunca será era como sangrar sem ter mãos para estancar o sangue e cuidar da própria ferida. Existir é uma ferida para qual não há remédio que anestesie, nem droga que nos acalente, nem atadura que cubra a carne esvaecentemente coisificada em números contabilizados para o teatro em que o fingimento é a regra do espetáculo e a mentira sustentam reinos, montanhas e pirâmides. Os deuses gregos teriam inveja de nós diante de tanta maldade e tragédia. Os santos não saberiam medir o tamanho da indiferença em rezas, jejuns e promessas. Viver é um ato de desespero como resistir é tentar acreditar que há cura para o nosso sofrimento nesse mundo inteiro. O corpo é passageiro, a infelicidade não.

 

 

Insônia

 

 

Do amor ele tinha medo, pois tememos aquilo que não conhecemos. A sua consciência era como uma navalha que reparte o nosso corpo em dois, três, quatro, cinco, intermináveis pensamentos que se organizavam e se uniam contra ele. A quem confiar se a nossa própria consciência é quem nos derruba? Sua mente era o reflexo de seus sentimentos perdidos, confusos entre si mesmos: caos-ciente e inconsciente, implosão que sempre vence a razão, catástrofe interna que o afunda no abismo de suas incontáveis perdas: ele sempre perdia essa batalha: a alma, surrada e maltrapilha, cansada e esquecida, esquecia-se de tentar salvá-lo de si mesmo, pois o pior inimigo dos seres humanos são os seus próprios pensamentos; e pensamentos são ações que se refletem em forças que depois se cristalizam no tempo e se naturalizam no espaço modificando o nosso modo de pensar e perceber a vida e a realidade,  deformando e esvaziando as nossas subjetividades, assaltando as nossas  personalidades e estuprando as nossas singularidades.

Do esgoto.

Da podridão dos bairros burgueses e do mau cheiro das imoralidades das pessoas hipócritas ele estava sobrecarregado desde criança. A vida reduzida a mera propaganda, a uma promoção de natal em final de estoque só para enfeitar a casa e decorá-la com objetos que falam, brigam, cagam, mijam e arrotam. Mas as babás é que ficam com essas nojeiras, isso para quem pode pagar pelo serviço delas.  Estando cansado desses objetos de decoração, os pais colocam os monstrinhos o dia todo para estudar, fazer natação, inglês, piano, canto, balé, até que os objetos fiquem exaustos e parem de respirar e perguntar tantas coisas que os adultos nunca estão a fim de responder, assim dormem antes deles mesmos chegarem.

Ele, que nunca teve pai nem mãe, não sabe o que seria melhor: ter ou não tê-los. E também não se imagina sendo pai: colocar uma criança no mundo é no mínimo ter muito ódio dela. Seria como colocar um animal recém-parido numa câmara de gás em Auschwitz. Por amor à vida do outro, ele diz não à morte às prestações de um ser que poderia ser salvo dessa desse purgatório que é a condição humana da quais milhares padecem mundo afora, mas soterrando a causa maior desse problema com comprimidos diariamente. O eu não existe, mas foi substituído por um aparelho digital que simula vidas falsas diante da verdadeira morte alheia e de si próprio. O eu é uma ilusão.

 

 

Amanhecer

 

A cada despertar, a luz se lançava contra  os seus sonhos ingênuos como uma lança envenenada por doses exageradas de consciência da realidade que se confunde com um pesadelo surreal. Mas ele não tinha nome nem sobrenome, se ao menos tivesse um cartão de crédito seria considerado sub-gente. Mas ele não era nem ente, nunca estava presente diante da ausência de consciência das pessoas. Era somente um vulto em meio à montanha de lixo que acumulamos dentro de nós com o passar do tempo. No entanto ele acreditava no brilho amoroso de cada sorriso de uma criança. O amor verdadeiro estava ali, sendo sufocado por uma civilização bárbara em devorar o outro que se mostra diferente do eu tirano que cultuamos. As crianças são a verdade que nos falta, certa vez ele pixou essa frase na parede. A beleza resiste e ainda existe onde a cultura ainda não penetrou com muita força do poder que nos escraviza através da linguagem fascista na qual se naturaliza por ninguém perguntar o porquê das coisas, como bem fazem as crianças. Os adultos não querem saber a razão das coisas, querem continuar produzindo e reproduzindo a violência em que foram vítimas também; mas como toda vítima rancorosa, se vinga do outro logo assim que obtém o mínimo de poder. É o eterno ciclo da perversidade e do ódio ao tudo-todo que deixamos como herança para as nossas crianças.

 

 

Acordar para morrer

 

A cada decênio ele perdia uma asa, um sonho. Sobrevoar estava cada vez mais pesado e o seu espírito sobrecarregado de angústia diante da impotência de viver com alguma sensibilidade. As máquinas transformaram todas as pessoas em robôs idênticos ideológica e cognitivamente. Há os que fugiram da sedução da máquina que tudo aspira e descarta publicamente sem causar nenhum espanto em quem assiste. Aqui se transmitem estupros, assassinatos, acidentes de trânsitos e suicídios coletivos  enquanto os tele-espectadores assistem e filmam a tudo curiosamente sem doer em nada à própria mente. A sensibilidade perde-se o seu espaço cada vez mais para automatização dos sentidos transformando tudo em espetáculo vivo; um filme de terror todos os dias transmitido vinte e quatro horas sem intervalos.

 

Ressurgir.

Emergir da lama, do fosso, da derrota, do fracasso; sobreviver ‘apesar de’. Ele nunca gostou de sobre-viver: queria viver de verdade e sentir a verdade pulsando de dentro dele para efetivar alguma ação honesta em seu sentido para que alcançasse alguma meta sonhadora, pois a mentira se tornou a grande verdade que sustenta as nossas máscaras sociais e íntimas. Sobreviver é pedir esmola à morte para passar. Uma peça de teatro tão bem ensaiada culturalmente que parece ser natural mentir compulsoriamente até morrermos sufocados na superficialidade de um cotidiano que é tão desumano como quem se habituou a olhá-lo como uma normalidade fatalista.

 

Acordar.

Sentir o peso das nuvens carregadas de tristeza e desesperança no peito e no céu cinzento de melancolia sob uma chuva leve de depressão que mais se parece com as lágrimas de Deus diante da perversidade de seus filhos. Carregar o corpo depois de morto é mais trabalhoso que matá-lo.

Arrastar.

Sentia-se assim. Arrastando-se em direção ao seu suicídio cotidiano suportando a grande rocha que o puxava para trás.

 

Cair.

Suas quedas o levava ao inferno de onde pareceu ter surgido o universo. No início era o Caos como no futuro será e é constantemente desde que o mundo é habitado por gente. Respirar o vazio da existência e engolir a angústia de ser e permanecer-se resiliente ao tudo-todos, eis o primeiro mandamento do deus criador de toda dor e trevas que há dentro de nós e que, no entanto, expulsamos de formas objetivas destruindo o tempo presente, a possibilidade um futuro minimamente luminoso que se constela com as estrelas sujas de sangue do passado tão sombrio que se arrasta sob o ódio que temos uns dos outros. No entanto entendeu que ser resiliente é ressentir sem dor os golpes que a vida dá para nos devolver ao pó.

A lama é só uma passagem no limbo da existência de qualquer ser medíocre que se acha prepotente em responder as questões da vida e da morte como se fôssemos capazes de recriar o passado para justificar o presente que não parece futuro para ninguém. Pensar demais dói e cansa. Pensar na ignorância dos outros é autoflagelação psicológica e emocional. Tem gente que não merece ser objeto de reflexão de nossos pensamentos. Na arte de viver, sobressai-se aquele que melhor enfeitar sua ferida intimamente exposta como uma etiqueta imperadora do teatro de farsa que é a convivência dos seres humanos. Aquele que sangra e para no caminho, logo é esquecido por outro que cai e de queda em queda a gente ignora o sofrimento alheio. A tragédia é o melhor dos espetáculos ocidentais. Aliás, é de choque em choque que as pessoas parecem perceber que sentem alguma coisa. Sem um show todos parecem sombras carniceiras procurando algum corpo caído para narrar a desgraça social da qual eles mesmos participam encenando, escrevendo e dirigindo.

 

 

Redenção

 

    Há poucos dias se lembrou de que nunca fizera uma promessa, uma oferenda que fosse aos deuses. Passa o tempo todo tentando investigar a vida sob o próprio olhar que nunca se curva diante da prepotência dos jovens que acham que podem explicar tudo e mudar tudo como não se curva também ao olhar pessimista dos velhos que já sabem muito e não tem mais energia para tentar mudar nada. A vida é isso: supere. O máximo que os pessimistas fazem é se preparar para uma morte quase indolor e deixar uma marca de otimismo falso em suas lápides. Dado o fato de ter-se percebido por demais egocêntrico, sentiu em seu espírito uma vontade de acordar algo com os deuses gregos, africanos, hindus, indígenas e qualquer deus que ajudasse os miseráveis terráqueos nessa passagem absurda que é a vida diante de tanta morte negligenciada. Então se lembrou de que fora por duas vezes salvo por algo inexplicável fisicamente, organicamente, racionalmente. Sentiu que devia retribuir algo em nome desse algo que o mantém preso nesse caldeirão de agonias e torturas subjetivas, fisicamente objetiva da qual a metafísica já não consegue dar conta. Nenhuma filosofia consegue responder com felicidade a estupidez e incoerência dos atos bárbaros dos animais humanos com uma perspectiva otimista. Nunca deu nada em troca as divindades. Só lhes exigiu, a vida toda que não era a vida toda, mas somente trinta anos se agarrando ao delírio de que um dia irá rir disso tudo com leveza e elegância. Então ele seria só mais um burguês hipócrita que se diz contra o capitalismo, mas não abre mão de seu carro importado com vaga exclusiva na garagem do condomínio. Pediu perdão.

O que satisfaria os deuses depois de tanta exigência desmedida? Seu corpo ainda pulsava levemente um sopro de vida dormente. Sim, só lhe faltava partir com alguma razão. Não que lhe faltasse ótimas razões para isso, mas uma razão para além de si mesmo, uma razão que transcendesse o ego mesquinho de cada ser vivo que acredita que pensa e pode dominar tudo através da razão instrumental numa sociedade cada vez mais tecnicista e suicida em valores humanos.

O nazismo tem ainda hoje um rosto humano, demasiado humano. O diabo não precisa de um exército para dominar e destruir, basta nos dar a ilusão de sermos seres dotados de razão e sensibilidade, o que nos permitiria viver com inteligência por mais tempo. Mas a razão nos enganou, a sensibilidade se matou e o que era comunidade hoje não passa de cubículos decorados em conjunto de outros em que todos se sentem protegidos enquanto não percebem que estão presos numa falsa ideia de segurança e conforto.

A prisão é o sucesso da sociedade industrial-tecnicista e sua glória se dá diariamente quando fora de nossa jaula, temos medo dos que sem jaula decente nos terrorize com a violência da verdade que ocultamos em uma estética feliz de fachada para minimamente sobrevivermos na superfície do oceano que  nos engole todos os dias: a consciência de que somos mentirosos, ardilosamente falsos nesse excesso de etiquetas sociais e protocolos convencionados a fim de nos engessarem numa ditadura da estética capitalista branco-burguês-cristã-eurocêntrica.

Personagens e autores, espectadores e diretores do grande circo tragicômico que não nos permite o riso, mas o abafa em consentimento com aquilo que ainda nos permite alguma lucidez em tempos obscurantistas: a noção de pertencimento a um habitat, a um grupo ainda nos une quando queremos histericamente achar um culpado para as desgraças em que todos voluntariamente participaram ativamente enquanto inconscientes da própria autodestruição da espécie humana. A alteridade como uma identidade obscura e assustadora ainda domina o ocidente e parece prevalecer por milênios, nos levando eternamente a essa cegueira moral em que nos encontramos e pretendemos cultivar. A palavra ética sumiu dos dicionários. Mas a palavra culpa nos persegue como a sombra que acompanha uma luz fraca que resiste no tempo-espaço. Por isso estamos tão doentes. Doentes de razão. Doentes de emoções vazias que se materializam em ações vazias diante de uma cultura que não permite a reflexão, mas que cultua os discursos moralistas, meritocráticos, capitalistamente proselitista em religiões cristãs e palestras motivacionais que mais desmotivam a nossa esperança em nós mesmos e no mundo.

Por isso e por tudo mais que não cabe no peito nem na alma, e jamais encontrará espaço suficiente num espírito fracamente resiliente em que a mente ainda se arrasta para alcançar alguma luz presente é que ele se ofereceu em sacrifício aos deuses. Quer perdão porque se sente torpe, medíocre e prepotente, infantil e egocêntrico, melodramático e covarde. Seu sangue ainda vale algo para o mundo metafísico? Não saber também é uma forma de ser feliz.

Cortou os pulsos com uma navalha e com o sangue escorrendo desenhou o seu símbolo de redenção, o símbolo que a maioria carrega ostentando uma luxuosidade religiosa perante a tortura daquele que os salvaram. A humanidade realmente não deu certo, pensa ele. Fez uma linha reta com o pulso direito e com o pulso esquerdo traçou outra.

O sangue manchava o carpete caro e manchava a decoração da sala: dava um ar sombrio, tristemente rubro-negro e melancólico. Não combinava em nada com a vista que dava para a bela praia da cidade postal do Brasil. O grito era calado, as dores sufocadas em respeito aos deuses que silenciosamente lhe colocaram em seu devido lugar nessa existência. As veias suplicavam socorro enquanto deixava escorrer por todo corpo de Fabrício o desespero de existir nesse mundo.

Os pensamentos se acalmavam enquanto se agitavam em êxtase de medo e alegria, angústia e liberdade: ele sabia que sua vida se encerraria assim, tragicamente, pois nunca se imaginou casado, com filhos e um cachorro para enfeitar o porta retrato da tradicional família brasileira. Sabia que era esquisito demais, estranho demais para se adequar ao tudo-todo. A vida valia mais a pena enquanto significasse transgressão e resistência, poesia com dor e sangue, pensamento com torpor e morte. Sim, o pensamento estava-o matando. O pensamento liberta e prende, aprisiona e liberta e também nos dá permissão para descansar quando já não conseguimos nos salvar.

A grande mancha vermelha-viva escorreria pelos cantos da casa deixando o rastro de renúncia a este mundo cada vez mais perverso com os poetas sensíveis as causas humanas em que são triunfantemente derrotados. A palavra não basta. Os seres humanos extirparam o sagrado dos sons que as palavras nos trazem. Agora tudo é consumido e consumado em códigos que se traduzem em números para que os usuários continuem consumindo cada vez mais e mais sem perceberem que trabalham escravocraticamente para este regime autoritário que é a grande rede social-virtual em que todos acreditam serem celebridades de suas vidas enquanto sustentam a grande máquina que os aliena de si mesmos enquanto humanos transformando-os em meros robôs que rentabilizam a indústria da farsa e da grande mentira que somos. Sim, tudo dialoga e tudo parece dialético. Difícil se salvar dessa reflexão.

Então para se livrar desse peso, nada melhor que esvaziar a alma e encher a casa de desespero. Não escreveu nada para ninguém. Se quisessem saber o motivo era só perceber a si mesmos todos os dias no trânsito, no metrô, no elevador, no canal de transmissão das reuniões entre os políticos, ou bastariam ligar a televisão na tv aberta, pronto: entenderiam  a razão e o bom motivo. E para fazer pensar e refletir, nada melhor que o silêncio e o corpo já ausente de si mesmo: o ego viraria substância, quem sabe? Pó, possivelmente, verme, talvez. Nada mais era mais importante do que destruir esse narcisismo que mastiga o mundo com dentes sujos de crianças inocentes. Viver é lutar obstinadamente contra si mesmo. Pensamentos consumidos compulsivamente numa cultura em que a linguagem separa tudo em dois polos extremos  nada ajuda na reflexão sobre nós mesmos acerca de alguma transcendência para além dessa imanência que mortifica o nosso espírito coletivo-comunitário. Coletivo-comunitário é uma grande piada numa terra em que o capital é o nosso deus maior. A paz só chega depois que enfrentamos os nossos próprios demônios frente a frente antes de irmos parar em algum hospício. O purgatório é só uma questão de tempo e consciência pesada carregada de culpa, remorso e arrependimento. Sobreviver a si mesmo é uma questão de dizer adeus à utopia de ser livre em si mesmo por si mesmo num corpo que nos marca com convencionalismos que nunca nos convenceram. A vida sempre exalou o perfume longe das orquídeas que enfeitam a nossa coroa de espinhos que fazem o nosso coração sangrar por antecipação. Viver é aprender a morrer. A beleza vem depois de percorrer os vales das sombras da morte.

E seu corpo estava na posição que todos cultuam todos os dias. Sua coroa de espinhos eram as gotas grossas de sangue escuro de sua mente perturbada, que aos poucos se acalmava como a sua respiração rumo ao campo Elíseos. Com os braços abertos para a redenção divina, disse sussurrando lentamente: não os perdoem, Óh, Pai! Pois eles sabem o que estão fazendo.

 

 

 

Fotografias de Kyle Thompson e Christian Hopkins

 

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