Ando fazendo tudo
Lembrando de todos
Me esquecendo aos poucos
E desaparecendo no fundo.

Ando esquecendo as palavras
Seus conceitos e significados
Suas versões e emaranhados
Ando me esquecendo do básico.

Ando a correr
Contra o relógio
Contra o sol
Contra a chuva
Contra o vento
Contra a lua
Contra a luz
E tenho sido derrotado.

Tenho caminhado em trilhas ao esvaecimento
Mortificando os meus pensamentos
Pulverizando os meus verdadeiros desejos
Desfalecendo meus limites
Me afundando em meu próprio desespero.

Tenho andado a carregar
Sombras de um passado remoto
Pesadelos de uma criança atormentada
Fantasmas de um adolescente invisível
Arrastando uma identidade em esmorecimento.

Tenho me sufocado
Suportando tudo em um silêncio petrificado
E para o meu próprio descaso:
Tenho guardado tudo dentro do peito
Ficando sempre calado.

Tenho respeitado as etiquetas
Jamais extrapolando os prazos
Sorrindo sempre que solicitado
Abraçando sempre que me convencem
Me matando sempre que me pedem.

Sob a ditadura do mutismo que o acordo de paz social prega para mantermos a falsa paz que alimenta o caos,
Eu travo uma guerra aqui dentro.

Tenho salvado o mundo do precipício
Me jogando ao abismo que todos o condenaram
Tenho me arriscado ao ponto de sangrar sem ver
E no fim do dia
Tenho ficado acordado.

Os pensamentos estão agitados
O coração acelera
O calafrio sobe
O suor do medo me assalta
E tudo que acredito me desespera.

Tenho me sentido vazio
Sem alguém na sala de espera.

Tenho guardado afetos em segredo
Fotografado abraços com receio de me recordar
De que tudo não passou de um sonho falsamente verdadeiro.

Tenho encontrado pedras no caminho
E jogando-as ao mar
Mas o mar revolto devolve tudo com o passar do tempo
E tudo que plantamos no ar, no fogo, na água e na terra
Vem com juros mortais a cobrar.

A alma é uma eterna dívida da existência.

Tenho sido obediente e tenho garantido os próximos passos
Rumo a que lugar?
Se eu asfixio os meus sentimentos:
Onde estarei quando tudo estiver escuro e ninguém aparecer para me salvar?

O caminho pareceu-me escuro
E os demônios riem enquanto os anjos choram
Os policiais sobem os morros para o trauma das crianças
Os jovens se perdem nas balas que o acertam
Não foi bala perdida
Foi bala assertiva
No crânio
No peito
No espírito doente de direitos da favela.

Tenho sustentado a imagem que querem
Para um espetáculo em que só eu não apareço
Onde a plateia ri de mim e de todos os meus sucessos
E apontando-me os dedos que me sangram por inteiro, dizem alegres:
Só está ali porque nós o colocamos
É um pobre rapaz temendo o fracasso de onde veio.

Tenho estado desencantado
Estou sempre rodeado de máscaras
Que só fortalecem os meus medos primários
Futuro, presente e passado
Se confundem confundindo-me a consciência
Não sei se sou o que sou ou aquilo que restou
De um menino sempre quieto num canto da sala
Sempre assustado.

Tenho andado contra a escuridão
Sustentado a luz que me cega
Sendo digerido pelo tempo que me engole
Então vou fazendo promoção da minha voz
Do meu fôlego
Etiquetando minha alma em oferta imperdível
E assim vou perdendo o meu próprio rosto neste grande e arquitetado assalto.

Sei que fujo do meu passado
E no presente faço-me itinerante
No futuro espero esquecer o presente
E ri de tudo que me marcou e marcaram os meus antepassados.

Ando implodindo em vez de gritar todo esse descaso
Em dias tão líquidos
Tenho me segurado em ilusões presas em fios invisíveis de nylon
E me corto
E me desfaço.

Tenho sido sugado
Capturado em minha própria insegurança
Tenho somado todos os meus casos
E descoberto a fragilidade dos humanos contatos
Da superficialidade dos protocolos
Do falso acordo tácito civilizatório em nome do nosso triunfoso e coletivo fracasso.

Tenho desrespeitado os meus limites
Me rastejando por centavos
Sendo humilhado para não ser tão mais humilhado
Assim me esquecer de quem fui
E não ser mais refém dos pesadelos que alimentei
E que me prenderam ao meu próprio descaso.

Viver é pesado
Respirar é caro
Suportar é difícil
Sobreviver não é fácil.

Se arrepender é para os derrotados?

Eu preciso voltar ao início
E me dar um abraço
Quem sabe eu me encontro por aí perdido tentando me reencontrar em algum tempo isolado deste infinito e tortuoso espaço?

 

 

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