Ele desperta cedo, assustado com o volume do alarme do celular. Dá para ouvir o galo do vizinho cantar no quintal bem próximo de sua casa. O silêncio, o cantar do galo. A escuridão. Paz. Ele só desejaria que o dia fosse totalmente assim: escuridão e silêncio: paz. Mas ali ninguém tem nome, nem sobrenome. Eles só existem em carnês de financeiras que lhes assaltam até o sangue levando a alma com os juros. E é nessa relação estupradora de esperança que se dá a interação com o mundo tão diferente da realidade deles. Ainda não houve alguma possibilidade de que isso pudesse vir a mudar. O sono é pesado. Desaba sem desejo de acordar.

Quando eles veem seus nomes nos carnês, sentem-se felizes: são alguém. Alguém digitou o nome deles! Eles existem para além da dor e do sofrimento que os castigam tão duramente. Saem felizes das lojas: sou alguém! Sou alguém! Mas quando eles atrasam o boleto, o operador de cobrança da financeira não é gentil; ameaça-os: vamos colocar vocês na justiça e vocês vão perder tudo que tem! Mas a gente não tem nada!? Eles pensam, confusos. Mal sabem que são somente CPF. É disso que o mercado precisa: c-p-f e crença. Sem crença o Deus Mercado não existe, nem doutrina. Não expande.

Mas ele tem uma arma. Ele a tem como um bicho de estimação que o protege da perseguição dos policiais que odeiam pretos e pobres da favela, ‘gente de morro’, ‘gente preguiçosa, vagabunda’ e ‘que não presta’. Em certos momentos, temos que devolver aquilo que nos fazem. Essa foi uma lei da vida que ele teve que aprender desde cedo, mesmo que não quisesse. E como devolver algo se não tem nada para dar?

Raiva, indignação, injustiça, ódio, tristeza e desespero não são matérias. Ninguém as toca. Ninguém vê você por dentro. Mas todos te julgam por aquilo que aparentemente você representa na visão limitadas delas. É difícil fugir dos estereótipos, dos estigmas, das marcas do tempo-histórico que sempre foram cruéis a nós. Ser preto e ser pobre é nascer com o devir-para-morrer. Não se pode iludir-se. Gente branca vive, tem festas, bolos, sorrisos, felicidade. Gente preta chora, passa fome, grita de medo da polícia, morre nas escadarias da periferia. É um morrer-constante. Não há chance e nem voz para a vida. Vive-se como se fosse o último dia, todos os dias.

Então ele veste a sua angústia: camisa amarrotada, boné velho de aba reta atrapalhando a iluminação e a identificação de seu rosto, calça leve, para correr bem sem dificuldade, uma jaqueta de couro com muitos bolsos e uma arma: seu bichinho de pelúcia. Vamos devolver o que nos dão desde cedo?
Ele não esquece essas palavras do pai, que foi preso e torturado por policiais, chegando morto na delegacia. Alegaram que o sujeito tentou agredir os policiais e estes tiveram que reagir para se defender. Mas o sujeito estava com as mãos e os pés algemados?

No velório, uma cruz com uma fita vermelha. Jesus foi sacrificado, dizia o pastor. Até quando nós seremos castigados pelos erros dos outros? João estava no caminho errado, mas alguém lhe deu a chance de seguir um caminho certo? Jesus lutou contra todos num tempo de ódio e opressão. Foi julgado pelo povo e morto por seus próprios filhos. Até quando nós iremos trilhar este destino de autodestruição sem frios? Ódio por ódio, violência por violência, pessoas ao chão, desesperadas, com medo de sair de casa, com medo de viver. O apocalipse se inicia e nós negamos a perceber. Tenha piedade de nós, ó, Pai Celestial! Eles não sabem o que fazem e nós não sabemos o que fazer com o descaso deles! Cuide de nós, Todo Misericordioso, pois só o Senhor sabe por quê nos tornamos quem somos.

Cristopher recebeu este nome porque o pai disse que ele tinha talento para ser cantor. Sempre cantou bem na igreja, se destacava sempre. Mas a igreja estava servindo de depósito de drogas para traficantes e ela foi demolida pela polícia. A fé saiu de férias por um bom tempo em sua alma de criança sem futuro. Seus pais evitavam contar o que realmente estava acontecendo. Temiam que o filho perdesse a fé na única coisa que os mantinham ainda de pé. O menino foi para a outra igreja, a sua vontade, mas os pais já não estavam mais animados com os pastores daquela região.
Circulava boatos de que todos os pastores ali da favela estavam envolvidos no narcotráfico, menos o pastor José. E foi para lá que o pequeno Cristopher foi. Mas para a sua decepção lá não tinha aulas de canto, nem grupo de louvor infantil: precisava de uma voluntária da periferia baixa, mas ninguém ousava subir o morro em tempos de conflitos entre policiais e traficantes.
O pequeno Cris desistiu de cantar na igreja, mas sempre cantava no chuveiro quando tomava banho. E ouvindo sua voz ecoar, imaginava estar cantando para uma enooorme plateia, como num maracanã. Mas sua mãe começou a achar que o menino estava afinando demais sua voz e o proibiu de cantar em casa. Se quiser cantar assim, cante lá longe! Na minha casa eu não quero filho esquisito, não!

Cristopher parou de cantar. Não queria desapontar sua mãe. Nem na frente dela nem por trás. Amava-a demais para desobedecê-la. Ela era a grande mulher de sua vida e não queria entristecê-la.

Lembranças assim o pesam como uma bolha de água suja pesada a estourar nos chão, sujando tudo de sangue. Ele passa em frente ao quarto de Lúcia: está dormindo, silenciosamente. Ele sente amor. Nunca foi tão bem correspondido por alguém além dela. Seus amores, se é que teve, foram deliberadamente passageiros. Não havia mais espaço para paixões. As meninas gostavam dele quando estava a fim de transar, mas quando um garoto branco aparecia, já queriam namorar o branquelo. E ele era deixado de reserva, de escanteio. Prometeu jamais se apaixonar por alguém. Menina preta gosta de homem branco. Mas homem branco não gosta de menina preta. Ela nunca entendia essa lógica.
Maldita televisão e suas novelas! Era isso!
Desde então o crescido Cristopher deixou de ver televisão. Sua mãe indagava às vezes: uai, mas por que essa atitude tão violenta? Que mal a tevê lhe fez?
Ela já fez faz tão mal que já anestesiou as nossas emoções e paralisou o nosso cérebro.

 

Você anda tão esquisito, Cris…
Relaxa, mãe. É só ódio.
Cuidado com o que você faz daquilo que você sente. Isso pode se virar contra você.
Virar mais? Impossível.
Acredite, tudo pode piorar, se nada fizermos para mudar.
Mãe, o que você fez para sair da favela e me dar uma educação melhor, ou uma vizinhança que não fosse tão perigosa?
A mãe dele silenciou-se. Podia-se notar seus olhos se abaixando, seu semblante caindo num poço sem fundo.
Eu vou para o meu quarto, filho. Boa noite.
Me desculpe, mãe. Não queria te magoar.
Não foi nada, filho. Você só disse a verdade. E a verdade sempre dói. Fica com Deus, tá?
Durma com Ele, boa noite.

 
Ele se sente responsável pela tristeza dela, mas sente que não mentiu, então não havia razão de se culpar, pois jamais mentiria de propósito para ela. Mas essas coisas são besteiras diante do que lhe espera. Lá fora há ódio de classe, indiferença, discurso fascistas, racismo, homofobia, todo tipo de cinismo tomando conta das relações. Também há esquemas de corrupções em quase todos os partidos, inclusive no que ele havia votado nas duas eleições anteriores. Ele tatuou a frase ‘sem fé’ nas costas. Já não frequentava mais a igreja, nem conversava fiado demais. Isolou-se um pouco da hostilidade arraigada no cotidiano. Ia ler livros, desenhar rostos e corpos que jamais iria tocar. Sem fé, porém com arte. A arte poderia lhe salvar? Pode a arte salvar alguém sem fé?

O galo canta mais uma vez e ele desperta para a realidade que o espera. Tiros, gritos, senhoras gritando ‘pega ladrão’, homens correndo atrás dele e ele sempre voando, como esses atores hollywoodianos em filmes de ação. Você é o homem da casa agora, disse o seu pai antes de ser algemado e espancado até a morte. Mas o que era ser criança e ser adulto? O que era ser adulto com sentimentos de criança?
Ele sentia culpa. Culpa por não proteger a mãe dos abusos sexuais que ela sofria do namorado, culpa por não ter coragem de enfrentá-lo e gritar para ele nunca mais aparecer, culpa por não reagir. Culpa por existir tão covardemente. Mas isso já passou. Hoje ele é o terror. E todos têm medo dele quando ele anda assim, serião com essa jaqueta de couro desbotada com um olhar que nenhum escritor jamais poderá descrever. Seu olhar é puro ódio. Ódio e vontade de matar. Aniquilar quem o aniquilou. Fazer desaparecer a dor apagando o outro. Fazer morrer quem o matou.

Hoje, adulto, entende o que é ser homem. Ser homem é ser violento, é não ter compaixão. Compaixão só da mãe e mais ninguém. Nem em pastor se confia. Em deus, talvez, se ele te servir pra alguma coisa. Mas ele só acreditava no amor de sua mãe. Essa era a única luz que brilhava fracamente dentro da sua escuridão intermitente. Dentro dele é escuro como a cor da sua pele. Tudo é negro e perigoso. Tudo é dor e caos.
E descobriu que pra ser respeitado tem que fazer doer, temer, sangrar um inocente em exemplo para os futuros rebeldes. A vida exige sacrifícios todos os dias. Ele aprendeu.

 

Todo dia ele diz adeus.

A luz do dia começava a aparecer timidamente. Abriu a geladeira e nada tinha pra comer no café da manhã. Nem um pó de café tinha. Mal, mal a água não tratada da torneira. Mas era fácil. Era só descer a escadaria, pegar o bonde e ir até o centro da cidade. Ali estão todos os demagogos, hipócritas, burgueses fascistas, homens casados com mulheres marcando encontros em motéis por aplicativos gays. Ali no centro é tudo suruba cívica e puro falso moralismo. A vergonha não se mostra. Todos ficam a vontade. Ali na praça da cidade os homens brancos que tem filhos louros pagam prostitutas negras para transar. Vereadores e deputados marcam transações com donos de empresas no horário de almoço. Os filhos dos burgueses matam aula para fumar maconha que eles compram dos guris dos morros. Mulher branca casada com marido rico se encontra no carro do marceneiro. É tudo festa. Mas tudo no sigilo.

E eu chego com a minha arma e atrapalho todo o negócio: isso é um assalto! Logo estou nos jornais, na televisão, nos noticiários de plantão. Sou o maior perigo da nação!
Nunca pensei que seria tão famoso.

 

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