Em dias como este
Meus olhos parecem acordar de um sonho melancolicamente pesado
Minha visão é o que me pesa
ou serão todos estes sentimentos sem tábua de salvação?

Em dias como este
Dou pequenos passos em direção ao banheiro
Me pergunto se não são passos para o abismo que nos engole diariamente
Sob a ordem da rotina que nos massacra subjetivamente
nos tornando seres escravos de nossa própria burrice?

Em dias como este
Ouço músicas que mais esmagam minhas fracas esperanças
rumo à glória obscura de nossos dias cinzentos
sob um sol que não dá mais conta de iluminar sonhos que mudem algo no mundo.

Em dias como este
Repouso sobre a morte que está ao meu lado
Descanso em seus braços
Ouço o sussurro do vento lamuriar em meus ouvidos:
desista, não há nada aqui para se esperar.

Em dias como este
Ponho-me a sonhar sonhos ridículos,
Estúpido para qualquer ser realista conformado com a realidade pós-modernista
Ponho-me a romancear o fracasso da língua
Da tentativa eminentemente vazia de se comunicar com alguma razão eficiente.

Em dias como este,
A linguagem é mais sensível à noite
Ao sentir o frio, a dor, o gelo de estar só
A loucura de ser negligenciado
por aqueles que te inseriram neste mundo inóspito
neste mundo decadente de amor próprio e amor ao próximo.

Em dias como este,
Ponho-me a escrever como quem cura o que sente
Mesmo sabendo que nada que eu disser fará este mundo diferente.
A língua perdeu espaço para as imagens
As palavras perderam o sentido por falta de estrutura emocional
Sintaxemente empobrecidos, vamos seguindo semanticamente perdidos.

Em dias como este
Sonho acordado realizando tudo que desejo
Mesmo sentindo a opressão do medo
Daquele medo patriarcal que nos mutila por dentro e por inteiro.

Em dias como este,
Já não mergulho no mar da morte a fim de desaparecer
Nem me deixo levar pelas correntezas de Tanatos que sempre me deseja ver esmorecer.

Em dias como este,
Eu já não fecho os olhos para sentir o tempo esvanecer
Eu encaro o suicídio de existir sem medo
E abraço o descaso
que me conta os seus causos
numa realidade cheia de imensos braços a nos engolir
em todos os espaços.

Cada movimento por aqui é medido conforme o capital que se tem para prosseguir.
Quem nada tem é convidado a se retirar
É sutilmente encaminhado a saída de emergência:
vergonha, desmérito e fracasso.

A humilhação é naturalizada por todos os lados.
Segue regida naturalmente pelo ódio cultivado entre todos nós através dos tempos.

Em dias como este,
Sinto a água quente percorrer o meu rosto
Me aquecendo do frio intermitente
desta hóspede intransigente chamada desespero.

Em dias como este,
O meu eu tenta relutar, tenta levantar mesmo sentindo as quedas narcísicas
deixadas pela a marca inevitável da passagem do tempo.

Então concluo que em dias como este,
É melhor escrever do que se matar.
Pois no ato de escrever, me mato
Tento atacar o mundo em sua ilusão pateticamente capitalista
Tento acertar minhas pedras em direção ao platonismo mercadológico
E assim expulsar com as minhas gotas de tintas em papel
todas as sombras que insistem me pesar.

E assim, me arrasto até cansar
Dou bom dia, boa tarde e boa noite
Cumprimente fortemente, sorrio nas fotos sempre.
Pois em dias como estes,
Não há escapatória para os rebeldes da linguagem
Senão se curvar e fazer da palavra
O seu único instrumento de poder.

 

 

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