Era uma manhã cinzenta como era de se esperar. O corpo do meu pai estava sendo carregado até o buraco. Parece que ninguém escapa disso: uma hora nos damos conta que somos apenas corpos seguindo em direção ao mesmo precipício.

Ela segurava a minha mão. Forte, mas delicada. Era possível sentir o seu desejo de me reconfortar. Não me lembro da vez em que ela não tenha se esforçado para me fazer sorrir quando eu sofria as de crise de pânico. Viver era muito assustador. Mas ela estava viva, estava lá sempre que eu precisava.

Na maioria das sextas-feiras ela subia as escadas e vinha até o meu quarto. Dizia estar entediada, sem nada para fazer em casa além de assistir reprises de seus seriados favoritos. Eu fingia que acreditava. Eu sentia lá no fundo que ela queria era me ver, estar comigo, me tocar, me olhar nos olhos e sonhar. Sim, eu sempre fui um idiota, um medroso incurável. Meu irmão sempre disse que eu era retardado, que eu nunca notava nada acontecer do meu lado. Às vezes as coisas aconteciam na minha frente e eu me recusava a aceitar.

Sempre me achei aquém de tudo. Feio demais, magro demais, burro demais apesar das boas notas em todas as matérias. Eu sempre me senti abaixo das próprias expectativas que eu mesmo criei para sustentar o ideal de ego que sempre almejei.
Tolo mesmo.

Meu irmão sempre teve razão. Diziam que o meu pai também era assim. Que minha mãe é que teve que convida-lo para sair um dia antes do baile de formatura. Papai era desajeitado, sem modos algumas vezes. Se atrapalhava demais com a cultura e com a linguagem. Nada parecia ter lógica neste mundo para ele, apesar de reconhecer que havia um certo funcionalismo para toda essa tristeza de viver.

Mamãe agora carece de mim e de meu irmão que já se casou. Tento visita-la frequentemente, mas os estudos fora do Estado me ocupam e me atrapalham a vê-la. Gosto do habitual, do mesmo sempre, da sensação de segurança que a mesmice dá. Evito viajar com muitas pessoas. Sempre que posso, vou sozinho aos lugares. Pessoas me dão medo. Muito medo.
Sei que devo ultrapassar este medo que me impede de viver com mais perigo, mais riscos, mas sei que não suportaria carregar alguns arrependimentos em meu ego já fraco e covarde por natureza. Por isso escrevo. Falo tudo que nunca falei, grito tudo que nunca gritei, vomito tudo que nunca vomitei porque também não bebo e nem fumo e não saio muito à noite.

Ela tinha me ligado no dia anterior. Disse que estava mal, deprimida, que precisava de um conselho, de um ombro amigo, de um abraço sem interesse como estes que ocorrem sempre com as meninas. Eu disse que não dava, pois tinha uma prova de manhã cedo no dia seguinte. Ela não insistiu. Agradeceu e desligou.

Eram cinco horas até chegar lá e salvá-la daquilo que nunca imaginei que sofria. Larissa sofria abusos sexuais do pai frequentemente, na mesma intensidade em que se propunha a me fortalecer nos meus momentos de pânico e depressão. Eu jamais desconfiei de algo absurdo assim. O Seu Clóvis, com aquele bigode todo, cara de carrasco, evangélico até?

Não consigo entender por qual motivo ela tenha conseguido esconder este horror por tanto tempo. Talvez se achasse culpada, como acontece com a maioria das garotas que sofrem esta violência. Talvez muitos já tinham percebido, mas não falavam nada e eu, sempre distraído com as minhas dores e angústias, jamais notei que no seu toque havia um gemido de dor, um grito de desespero.
Não consigo imaginar como ela conseguiu ser tão forte sozinha. Só consigo entender que sempre fui fraco, errado, um ser qualquer que não faria diferença na vida dela. Apesar dela ter feito toda a diferença na minha.

Hoje eu sento e choro. E se eu tivesse ido até lá só para ouvi-la? Tivesse deixado ela gritar, beber de raiva e de dor, cair e vomitar de terror familiar?
E se eu não fosse tão pobre de espírito? Se eu não fosse mais um idiota na vida sofrida que ela levava? E se eu fosse corajoso, destemido e nada metódico? Teria atravessado o Estado e suportado todos os seus gemidos? Teria chorado junto e levado ela para morar comigo? Teria mudado a história dela? Teria conseguido evitar?

Larissa era uma linda garota de dezoito anos. Caloura do curso de Filosofia numa das universidades mais conceituadas do país. Mas não suportou a solidão e o silêncio da sua desgraça assombrosa. Larissa guardava um segredo que a envenenava e sobrecarregava o seu espírito leve e adorável de ser e existir.

Engraçado nunca ter escrito isso dela antes. Engraçado como a gente só enxerga algumas qualidades nas pessoas depois que elas morrem ou partem para outra dimensão. Para o seu destino estelar. Larissa era uma amiga e quase uma irmã. Quase uma amante também, se não fosse pelo simples fato que ignoro o mundo todo a meu redor só para me concentrar no meu próprio e de migalha em migalha, tentar conserva-lo meio intacto, meio destruído, mas resistente aos fatos e aos castigos sempre muito duros. Egoísta, medíocre, mesquinho. Este é o meu mundo interior.

Larissa poderia estar sorrindo comigo agora. Poderia estar falando de Schopenhauer, Nietzsche, Foucault e subjetividades, que era um de seus assuntos preferidos. Depois que ela desligou o telefone, atirou contra a própria cabeça, estourando seus miolos. Larissa foi guerreira até o último momento. Tentou gritar, pedir socorro, mas quem ela queria encontrar para se salvar, não estava disposto a salvá-la. Às vezes as pessoas morrem por desamparo, fome, negligência dos órgãos públicos. Mas tem gente também que morre por causa da preguiça daquele que ela confia.

Larissa não sabe que eu lamento, que me arrependo, que me acho agora o mais desprezível de todos os seres imundamente humanos deste mundo. Ela jamais saberá disso. Jamais saberá que em vez de ir ao seu enterro, eu preferi ficar escondido no quarto a escrever meus arrependimentos e vergonha.
Mas eu escrevi uma carta me desculpando e joguei-a ao mar, que ela amava tanto estar perto para descansar.
Larissa era das águas. Não era do ar, nem do fogo e nem da terra. Era mar escorrendo de tristeza por dentro. Era onda quebrando todos os dias contra o seu peito lhe pedindo para desistir de tudo isso. Um tiro apenas resolveria tudo. Simples.
Seu pai iria para cadeia já que ela fez questão de escrever na parede do quarto: meu pai me estuprou a vida toda. Ela se vingou e matou cinco coelhos numa única cajadada. Matou o silêncio, a dor, o sofrimento, o desprezo do amigo e se vingou daquele que eu achei que a amasse incondicionalmente.

Nada trará minha amiga de volta. Nada. Nem esta história ridícula cheia de culpa, remorso e autocomiseração. Nem estas lágrimas que insistem em cair em reprovação de tudo que sou e sempre fui. Nunca serei como Larissa. Nunca serei maduro o suficiente para suportar as adversidades da vida e mesmo assim abraçá-la com afirmação como escreveu Nietzsche uma vez.
Sou rancoroso, amargo, ressentido e orgulhoso. Sou fraco de espírito e mais franzino ainda de escrita. Sou vergonhosamente miserável. Minha maior carência é de mim mesmo. Porque o que eu já fui um dia já não voltará nunca mais.

 

 

 

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