A chuva cai harmoniosamente, compondo uma das canções que só a natureza é capaz de produzir para os ouvidos da alma. Pedro está lá, enterrado, silenciado para sempre. Não há nada que eu possa fazer para voltar atrás e pedir que falasse tudo que sempre teve vontade.

Impotência é a marca maior de todos os seres humanos em dor.

O dia foi carregado de culpas, remorsos, conversas em silêncio, ironicamente. Todos se perguntando: como não notei? Há quanto tempo ele estava planejando isso?
Agora todos se importam.
Mas ele já tinha decidido. E ninguém percebeu nada em meio ao caos que ele era. Em meio ao caos que somos. Em meio ao caos que estamos condenados a viver.

Pedro era um grande amigo. Desses que eu imaginei fossem envelhecer juntos a contar minhas histórias fracassadas, meus problemas, minhas inseguranças. Não sei como ele envelheceria. Mas pressuponho que ele continuaria pobre e eu, um pobre que ascendeu um pouco socialmente e que carrega como medalha de vida a superação e o orgulho de ser um burguês alcançado por mérito próprio, embora nunca me sinta plenamente igual a toda essa gente que esbarro no elevador, no supermercado e nas lojas de grife.

Engraçado como as pessoas estavam falando tanto dele, que nunca era bem lembrado. Quando acontecia, era de maneira insólita. Meu amigo nunca foi admirado. Era um estorvo para a família, um fardo a se carregar, como sempre dizia sua mãe. Quem pariu Mateus, que balance, era costumeiro ela dizer isto sempre que estava descontente com a situação financeira dele.

Pedro quase não parava em emprego algum. Tinha sérios problemas de convivência com os seres humanos. Ele dizia que as lideranças no ambiente de trabalho eram muito autoritárias, frias e até fascistas. Sua mãe e seu pai diziam que isso era preguiça de trabalhar, que ele sempre arrumava uma desculpa para não ter que acordar cedo e aceitar a realidade.

É bem verdade que Pedro nunca aceitou muito bem esta realidade, ou a nossa realidade, ou a realidade dele. Pedro sempre foi muito sensível, sonhador, cabeça na lua como ele mesmo dizia. E isso trouxe vários problemas em sua vida. Por infinitas vezes, era ingênuo. Por outras, extremamente desconfiado, bem neurótico. Aliás, neuroses não lhe faltavam nunca. Pedro tinha fobia de seringas, de sangue, de multidões.
Era de uma natureza romântica, sonhava com a igualdade, com a humanização do ‘animal humano’, como ele mesmo gostava de expor.
Gostava de viver o tanto quanto desejava morrer. Ele era esse paradoxo, essa contradição extrema. Às vezes tinha grandes hiatos em quase total desaparecimento. Por outras vezes, gostava de circular, conversar, falar do que escreveu, do que leu, do que ouviu, do que assistiu, de tudo que sentiu enquanto estava aprisionado ou livre solitariamente em si mesmo. Talvez ele fosse isto: liberdade e prisão brigando desde sempre dentro dele entre si, até o dia em que somente uma venceria. E esse dia, para espanto e susto de todos nós, chegou.

Pedro teve uma adolescência conturbada. Depressão, crises de pânico, tentativas de suicídio recorrentes. Ficou muito doente. Mas eu estava muito ocupado com a universidade, com os meus novos amigos e com a vida que eu sempre quis ter e acabei por não lhe visitar muito. Nunca soube qual era a raiz dos seus problemas. Sempre percebi que parte de muito de seus conflitos vinha de sua desestruturada família, que alimentava-se de hábitos bem machistas, homofóbicas, racistas e até fascistas.

Ele teve muita dificuldade para se assumir gay. Levou mais de sete anos desde que percebeu que gostava de meninos no início, aos treze anos, quando ainda era um adolescente cheio de medos e reprimido por tudo. Eu sempre soube que ele era gay, como ele sempre soube que eu também era.
Mas não assumíamos. Não tínhamos a coragem suficiente para bancar futuras fofocas, conversinhas pelas ruas. Éramos dois garotos com medo.

Estávamos sempre esperando que o outro contasse primeiro o seu crime para depois confessar o nosso. Acredito que nestes sete anos de medo, culpa, insegurança e homofobia internalizada o fizeram adoecer psicologicamente ao ponto de tentar se matar neste período obscuro e trágico de sua vida. A cada ano eu percebia ele mais sombrio, fechado em si mesmo, melancólico, mas nunca achei nada demais, aliás, muitos adolescentes são dramáticos nesta fase e com certeza ele iria passar desta facilmente como eu passei a minha.
Mas não.
Quando soube que ele havia cortado os pulsos e o braço no mesmo dia, na mesma noite, fiquei estarrecido e assustado. Fiz-lhe uma visita breve, conversei um pouco. Ele parecia não adentrar no mundo dos que se conformaram que a vida é essa desgraça mesmo. E que não há saída para ninguém.

Ele relutava e sangrava por dentro tanto quanto por fora. Mas naquele momento ele estava costurado e o sangue estava estancado pelos pontos. Seus olhos carregavam a tristeza de viver e enxergar o mundo como um lugar perigoso, inóspito e perverso nas suas relações. Ele sempre brigou muito contra quem tentasse lhe impor algo que ele achava injusto ou desumano depois que melhorou da depressão. Não aceitava imperativos com facilidade.
As humilhações que sofrera em casa serviram de marcas para que ele tornasse sua voz cada vez mais ativa no ambiente de trabalho, o que sempre lhe ocasionava demissões. Ele não aceitava o jogo de linguagem do poder: a submissão, a resignação, o mutismo, a humilhação constante e desmedida, a descartabilidade perversa. Ele quebrava com as regras impostas. Rasgava os protocolos, queimava todas as etiquetas. E era mandado embora. São incontáveis suas demissões.

Eu dizia que ele precisava barganhar, negociar, fazer concessões. Eu já faço isso desde que nasci, sou pobre, esqueceu? Ele sempre me respondia assim. Eu nunca lhe tirei a razão, mas sempre joguei o jogo. Deu certo. Mas o meu complexo de inferioridade ainda está latente. Você pode até conseguir sair da condição de pobre, porém as marcas da pobreza jamais sairão de você. E isto me assombra, pois carrego muito desprezo por mim por ter aceitado tanta coisa e barganhado várias vezes demasiadamente. Não sei o que me tornei; talvez uma sombra do que eu era e um assombro do que sou agora.

Sento aqui em frente à janela enquanto olho para o céu e vejo as gotas caírem sobre os telhados das casas, sobre os quintais, sobre os carros estacionados erroneamente nas ruas. As gotas invadem o meu quarto. Eu me molho e pela primeira vez, não me protejo delas. É o meu contato a partir de hoje com ele, que sempre esteve tão presente o quanto pode em minha vida.
Agora a nossa relação será através das lágrimas do céu, como ele gostava de dizer, mesmo que de modo jocoso.

O céu é a alma de Deus.
É a transparência de seu estado de espírito.

A gente ria, ele parecia falar realmente sério, por mais que fosse ateu. Talvez ele acreditasse que a natureza tinha a sua vida, o seu corpo e sua alma e por isto também sofria com as nossas ações contra ela. Mas isso seria ‘humanizar a natureza’, argumento que ele combateria com veemência. Ele gostava de dizer que os humanos jamais conseguiram sucumbir seus desejos mais cruéis, animais, perversos. Toda a animalidade inerente a nossa condição foi sofisticada pela civilização. Em casos não muito raros, alguns romperam com o acordo social cívico e deixaram seu animal falar mais alto como nos casos de violência extrema e até inacreditáveis. Toda a civilização é uma tentativa suja de maquiar o que realmente somos: trogloditas que querem uma casa decorada, um animal pequeno para enfeitar o quarto e um habitat para chamar de ‘lar’. Pessimismos a parte, eu concordava em meia parte com o que ele sempre dizia sobre este animal feroz e cruel conceituado e defendido como humano pelos iluministas.

Pedro era agradável o tanto quanto era incômodo as pessoas, inclusive a mim. Eu me incomodava com aquele jeito errado, meio desequilibrado, meio nonsense, meio rebelde, iconoclasta. Eu me incomodava principalmente quando o levava para alguns eventos privados nas casas dos meus amigos ex-universitários, pois todos já haviam concluído o curso superior, menos Pedro que tinha o ensino médio incompleto.
Me dava vergonha dele, mas fazia isto para tentar lhe mostrar que uma vida esteticamente melhor poderia ser boa para ele. Ele não reclamava dos eventos, até gostava muito. Mas eu evitava levá-lo sempre. Tinha medo que ele tivesse uma crise de pânico no meio do evento, ou quisesse ficar sozinho de uma hora para outra, sei lá. Tinha medo que ele estragasse minha imagem diante de meus colegas diplomados superiormente pela universidade federal.

Eu o preferia sozinho. Ele me ouvia sempre com muita atenção. Seus ouvidos sempre foram dedicados. Disso eu jamais pude reclamar. Tudo que eu falava numa conversa, em um ano ou dois anos depois, ele relembrava com detalhes. Eu me assustava com a sua memória. Tinha medo de que ele relembrasse alguma atitude desprezível da minha parte, algo que eu disse e não fiz, que eu prometi e não cumpri, coisas do campo do ego, sabe?
Ele tinha esta memória incrível. E eu acho que esta memória também o prejudicou, pois nada que lhe dissesse ele esqueceria facilmente. E ele ouviu muita coisa antes de ir.

Certa vez ele disse que ouvia tudo com a alma, por isso se lembrava de tudo. Eu não disse nada, só imaginei que isso devia ser bem doloroso, pois o esquecimento nos faz muito bem em vários momentos. Uma memória que trabalha demais, ressente demais também. Assim como são os escritores que eu já li. Na grande maioria são depressivos, melancólicos, suicidas. Deve ser perturbador lembrar de tudo que não quer, quando tudo que se tem que fazer é fugir delas como um rato foge do gato. Talvez Pedro não tivesse encontrado a sua melhor saída. Desistiu de fugir do gato da morte.
Entregou-se.

Engraçado como também é triste perceber que ele sempre foi o meu melhor amigo. Eu não admitia isso a ninguém. Era muito esquisito ter alguém como ele como melhor amigo. O que iriam pensar de mim? Mas a morte traz à consciência fatos, verdades escondidas, orgulhos envergonhados, culpas sucumbidas. Ao vê-lo deitado no caixão com aqueles algodões no nariz e nos ouvidos eu pude sentir o tamanho do prazer que ele me proporcionava quando estava ao seu lado. E ao mesmo tempo pude sentir o tamanho da falta que ele iria fazer na minha vida. Percebi tudo hoje ao entardecer, enquanto a lua insistia em descer e empurrava o sol para baixo a força.
O crepúsculo parecia o retrato do espírito dele quando ele adoecia. Era a noite insistindo em cair em sua mente trazendo anjos expulsos do céu, traidores da paz, demônios disfarçados.

Hoje eu percebi que nunca dei nenhuma importância a alguém que tivesse sofrido ou adoecido de depressão. Sempre achei frescura, camuflagem, auto-enganação barata e chata, vontade de aparecer enquanto tenta enganar o outro com o seu drama tentando convencer a toda força a si mesmo. Assim eu via as pessoas que sofriam de pânico e outras doenças psicológicas contemporâneas. Para mim, todas frescas, sem foco e determinação na vida. De gente assim eu fugia. Como sempre fugi de Pedro, deixando ele apodrecer sozinho por tantos e tantos anos.

Por ter se calado de medo por tantos anos, vindo adoecer até, ele ensinou a sua sobrinha adolescente a contra argumentar qualquer ‘autoridade’ em discussões em família, ou seja, contra argumentar todos os homens desta. Ele tentava desta forma, impedir que ela não se deixasse esvaziar por dentro como fizeram com ele na adolescência. Apoiou-a infinitas vezes até ela se voltar contra ele. O fracasso o invadiu desta vez na relação entre eles. Ele desejava fazer dela uma militante, ela preferia ficar em casa ao se envolver com a militância. Queria ficar namorando. A frustração só aumentava e a distância entre eles também. Até que um dia ela resolveu humilhá-lo por ele ter cortado a internet dela por falta de pagamento da própria. Ele ouviu tudo e mais um pouco. Não sabia que estava instruindo um monstro contra ele. Era o fim da linguagem. Ele pressentiu mais uma vez.

Na militância a mesma coisa: conversas e mais conversas onde maioria não ouvia por não querer ouvir. Interrompiam-se falas de um com os outros por falta de educação e respeito. Na falta de argumentos para defender a falta de postura, maledicência. Então nada ficava totalmente de acordo. Não se ouviam, não se respeitavam, não havia o mínimo respeito para o lugar do outro. E se não há o outro em nós, estamos fechado em nós mesmos.
Em outras palavras, ainda falta a tão insistente abertura para o outro. Não havia uma política de escuta, uma política da fala, nada havia ali no movimento social que produzisse um desejo a mais de avançar ou uma potência ainda maior para o diálogo com o outro. Não havia diálogo. Havia conversações, troca de ideias e isso ainda não é diálogo.
Diálogo seria ouvir com a alma, falar com a alma consultando sempre a razão e o objetivo maior de se estar falando e escutando. Neste momento, elimina-se o ego, os diplomas de graduação, de mestrado, de doutorado e pós-doutorado. Elimina-se tudo para construir algo em comum no coletivo: potências para a nossa linguagem. Comunicação assertiva. E mesmo num espaço politizado não havia possibilidade para este avanço. As pessoas pareciam mais estar interessadas em mostrar o que sabiam fazer de melhor para se auto-promover ou para mostrar que eram superiores intelectualmente ao outro.
Enquanto sinto as gotas molharem o meu rosto, percebo que o que sempre senti dele também era desprezo. Pedro, apesar de se sentir anulado subjetivamente em família, queria sempre ser aceito por eles. Eu nunca tive paciência com este desejo tão primário. Ele parecia criança. E de certo modo, se comportava como tal. Morria de vergonha quando às vezes ele falava algo que parecia impensado para nós, ilógico ou sem noção. Cheguei a pensar que o meu amigo era autista, esquizofrênico, algo deste gênero psiquiátrico. Só hoje pude perceber que se tratava de um mundo em que quase ninguém o alcançava. Pedro tinha o seu mundo, o mundo dos sonhos, das possibilidades, das realizações, das verdades. Onde tudo era possível mudar. E quando ele falava de algo de forma inesperada, era a partir deste mundo que falava e não do nosso: conformado e covarde.

Pedro muitas vezes estando em companhia, parecia solitário. Pegava-o pensando sozinho, de cabeça baixa, como quem tivesse a refletir sobre algo que não estava sendo discutido ou que não pretendia se discutir. A partir de algumas conversas, ele pegava o seu caderno e começava a escrever compulsivamente, sem dizer uma única palavra. Por isso o achava um pouco autista. Parecia que havia encontrado alguma chave secreta para alguma saída dos labirintos que ele habitava: a cultura, a linguagem, a nossa condição de miseráveis fracassados a erguer pequenos troféus de sujeitos que se sentindo invisíveis como a maioria, se fantasia de vencedores?

Ele estava sempre apto a uma reflexão. Da mais indesejada, nas horas menos esperadas até as mais pesadas como suicídio coletivo, morte assistida, suicídio individual. Aonde mora a nossa liberdade? Ele sempre perguntava isso quando insistíamos em não continuar com estes assuntos. Covardes, ele dizia e nós encerrávamos a conversa, sempre incomodados com esta capacidade de refletir pesadamente sobre coisas que sempre buscávamos fugir.

Muitas vezes ele ia embora mais cedo para cuidar da sobrinha pequena, pois a mãe costumava beber muito nos finais de semana. E a gente não entendia a razão dele ter pegado uma responsabilidade como esta sendo tão novo. Ele tinha dezesseis anos e agia como o pai da garota. Com o pouco dinheiro que recebia do estágio, comprava bonecas, alimentos e a levava para o teatro, cinema, sorveterias, parques municipais. E por isso, estava sempre apertado, sem dinheiro.
Mais da metade do seu salário de estagiário ia para as despesas da pequena. Eu sempre insistia, dizendo que ele estava fazendo algo que não era obrigação dele, que ele estava se cobrando de algo que nem o pai da criança se cobrava.

Ele me dizia que quem tem amor para dar, não perde tempo julgando quem não tem.

E nós encerrávamos assim.

Uma vez, quando conversávamos num bar após uma manifestação cansativa, nos reunimos com outros militantes e nos pusemos a conversar sobre assuntos deste tipo. Falamos das antigas lutas, dos movimentos antigos, das dificuldades daquela época, das de hoje e quando menos vimos, estávamos falando de nossas vidas privadas. E o assunto era aparentemente bobo sobre palmadas, surras, castigos que levávamos quando éramos crianças.
Chegamos num ponto em que comentávamos certos abusos sofridos por alguns conhecidos que vieram a ter sérios problemas emocionais, psicológicos e comportamentais quando se tornaram adultos. Um destes conhecidos era muito odiado pela família e chegou a se mudar do país para nunca mais ter que rever o pai, a mãe e os irmãos, bem como os parentes também, que ele quase nunca os via.
Disseram que ele se tornara andarilho, um eremita qualquer. Pedro disse que não imaginaria como teria sido a vida dele também se tivesse sofrido como este conhecido nosso. Eu não hesitei e disse: você não precisa, Pedro. Olha pra sua vida.
Pedro abaixou a cabeça. Ficou em silêncio por uns cinco minutos e quando voltou a falar, disse que estava se sentindo mal, que precisava ir embora logo. Eu achei aquela cena bem banal e como protocolo, insisti: mas já? Fique mais. Não, eu preciso ir mesmo.

Pedro não atendia minhas ligações, nem respondia minhas mensagens. Mas como Pedro era estranho, achei isso bem comum. E essa distância foi acontecendo sem importância alguma pra mim. Quando me dei conta, havia se passado quase um ano quando resolvi ligar pra ele mais uma vez nestes meses todos em silêncio. Ele me atendeu, me tratou bem. Não parecia ter se incomodado com o que eu disse meses atrás. Marcamos de dar uma volta, um passeio destes que a gente sempre fazia.
O olhar era para baixo, o semblante ainda parecia carregar o peso daquelas palavras dirigidas a ele tão cruelmente. Ele então quebrou o silêncio e disse que algumas ordens de linguagens no mundo jamais mudariam. Eu fui pego de surpresa com este assunto, mas na cabeça dele o que estávamos dizendo dialogava com o que estava falando, então perguntei a razão destas ordens não mudarem.
Pressuponho que há hierarquias que nos distanciam: pessoas, sociedades, países, continentes. Estas hierarquias se constituem em identidades, estas que se formam com muita veemência, dor e luta, pois a hierarquia pressupõe uma identidade superior ao outro e por isso, o explora. Com o tempo, identidades novas se formam, de diversas formas, mas sempre com dor, luta e veemência. Mas o que isso tem a ver com o que estamos dizendo? Fiquei impaciente e perguntei.
Que quem olha para o outro de modo superior sempre o humilhará nesta posição de inferior. E isto acontece porque a pessoa que humilha acredita que por meio desta identidade ele está autorizado a falar em nome do ‘seu lugar’ na sociedade. Continuo sem entender.
Quero dizer que quem humilha, não percebe que humilha porque acredita que certas posturas são naturais e não adquiridas através desta cultura que privilegia um enquanto subalterniza o outro. Aonde você quer chegar com isso, Pedro?
Quero chegar naqueles que por algum motivo acham que devem sair falando o que quer e o que pensa sem se responsabilizar pelo o que acontece depois. Que em cada indivíduo há uma narrativa, uma história de dor, humilhação, luta, superações, derrotas e fracassos também. E que ninguém tem o direito de apontar o fracasso alheio sem ao menos entender a razão disto.
Eu senti que aquilo era intenso e que Pedro queria gritar isso para algumas pessoas, mas não para mim, que era amigo dele. Achei que ele estava desabafando por não ter conseguido expressar isto a alguém em alguma circunstância, então ignorei.
Pedro era assim. Às vezes demorava a responder alguém, se calava e um bom tempo depois vinha com a resposta. Mas ninguém lembrava mais do que se tratava. Só ele tratava de carregar a dor e explorá-la de forma mais sofisticada, mesmo que ninguém conseguisse entender. Só ele tentava tornar leve a pedra que lhe atiravam a fim de se salvar da dor que o perseguia desde que aprendeu a ouvir e sentir.

Há em todos nós um desejo de fugir. O meu problema sempre foi fugir do Pedro quando ele mais precisava. Ele não me exigia isso também. Não me cobrava. Eu sempre achei que então estava tudo bem. Problemas todos têm, e quem quer parar para ouvir os problemas alheios? O Pedro parava. Ele sempre estava atento e disponível para me ouvir, me elogiar, me colocar para cima. Quando ele começava a falar dos problemas dele, eu mudava a direção da conversa e voltava-a para os meus. Talvez ele tenha se sufocado de tanto guardar suas dores e implodiu. E a nossa negligência foi exposta, o nosso abandono, o nosso descaso estava estampado no semblante melancólico dele enquanto os velávamos.

Nunca tive saco para entender o ser humano em suas complexidades psicológicas. O Pedro já lia Psicologia, Psicanálise, Filosofia, Sociologia, o que aparecesse sobre comportamento ele estava disposto a entender. Eu sempre gostei de analisar o coletivo, a complexidade do coletivo, suas dinâmicas. Nunca quis entender o sujeito e suas angústias, aflições e desesperos. Me cansava.
Pedro começou a escrever de uns anos para cá, a pedido do terapeuta dele. E a escrita dele resultou numa participação literária em uma antologia de uma editora pequena em São Paulo. Ele me deu um exemplar, do qual eu nunca peguei pra ler. Está guardado na estante até hoje, cheio de poeira.

Acho que na literatura ele encontrava um espaço para desabafar, gritar, chorar, já que no mundo externo ninguém dava a mínima para ele, a não ser o seu terapeuta, o que não contava, pois era o trabalho deste se mostrar interessado em entender as dores e angústias do meu amigo. Acredito que a literatura o manteve conosco por mais um tempo, por mais que a gente não percebesse. Como ele suportou tudo sozinho este tempo todo?
Eu que sou ou era mais maduro que ele, o procurava com frequência para falar de mim, dos meus conflitos no trabalho e ele? Com quem falava? Com quem se abria? Não sei. Nunca me perguntei isso antes. Assim como ninguém na casa dele parecia querer saber como ele fazia para sobreviver. A sua mãe nunca o encorajava. Quando ele conseguiu enfim, entrar para a universidade, ela disse que ele não iria completar o curso, sendo preguiçoso como ele era. Ele comentou isso comigo, mas eu não demonstrei interesse em saber se ele estava chateado, se ele queria falar mais sobre isto.

Soube do seu suicídio através de uma nota que a família publicou através do Facebook dele. A reação foi instantânea: culpa. De todos. Nós o deixamos morrer. Como não percebemos? Mas quem estava disposto a carregá-lo também?
O pai não o via há anos, principalmente depois que se separou da mãe dele. Os irmãos, casados, estavam a viver suas vidas de pessoas casadas e infelizes com o seus casamentos. Ele estava a estudar e morava com a mãe e a sobrinha. Para todos nós, ele estava bem, levando a vida como conseguia. O que afinal, todo mundo faz. Encontraram um bilhete com um aviso escrito:

Vocês nunca me conheceram. E também não se esforçaram. Eu tentei, me esforcei e até sangrei. Mas agora está cada vez mais difícil continuar. A vida parece agarrar os meus pés e me puxar incansavelmente para baixo. Estou cedendo. Eu perdi esta guerra. Espero que vivam melhores sem mim.

Adeus

Encontraram o corpo dele caído no quarto. Sua boca expelia muito sangue e uma baba constante. Envenenamento por cianureto de potássio, concluíram a perícia. Uma morte dessas é sempre planejada, pensada um bom tempo antes, disse um dos policiais e investigadores. Ele estava deprimido, triste com alguma coisa? Um deles perguntou a mãe dele. Eu achei que ele estava bem, ele nunca me dizia nada, respondeu. Geralmente é assim mesmo, os suicidas são calados, introspectivos e depressivos. Quando menos se espera, eles nos surpreendem com sua tristeza e violência. Ele tinha algum diário, algum caderno que ele gostava de anotar coisas que lhe acontecia? A mãe dele não soube responder. O policial percebeu que se tratava de uma família típica dos suicidas; negligentes, indiferentes.

E eu sempre pensei que envelheceríamos juntos. Mas não imaginava que por debaixo daquele silêncio, corria águas escuras da morte que o sugava sempre para baixo. Eu achei que ele estava curado deste abismo que o sempre tragava para as entranhas deste mundo obscuro e cheio de seres assustadores. É assim que vemos a morte; assustadora. E para alguns ela é a maior sedução; ou a única solução para este tormento sem salvação?
Talvez ele tenha só desistido. Só quis parar de sofrer. Eu quero pensar assim, pois me sinto melhor. Assim concluo que nada que fizéssemos o iria impedir de tal ato. Alguns parecem nascer predispostos a tragédias. Eu nunca acreditei nisso. Sempre acreditei que nós somos os agentes de tudo. Que podemos mudar tudo que quisermos se quisermos mudar.
Mas para Pedro talvez esta não fosse a questão. A dor enlouquece, entorpece a razão. E eu já tive dias ruins. Quem nunca têm?
Mas para Pedro parecia que ele não somente tinha dias ruins, mas períodos ruins, fases ruins que demoravam a passar. Por dentro de cada um corre rios de turbulências que somente cada um sabe, hoje percebi isto.

Não dá para fugir da tragédia da vida.

E assim ele foi para o grande lago da morte. Para o rio dos abandonados. Para o descanso dos esquecidos. Nunca pensei tanto nele o quanto pensei hoje. E nada alivia minha culpa e descaso. Acho que o desejo de morte nasce do incomunicável. Daquilo que não falamos, daquilo que fingimos estar bem enquanto consentimos nesta covardia de tentar mais uma vez por desistir de antemão do outro, porque estamos todos cansados e indispostos a aceitar o outro com toda a glória e desgraça que ele nos propõe. Assim não nos responsabilizamos por ninguém. Mas gostamos de culpar o outro quando ele não nos atende, nos falta. E assim vamos usando o outro como um objeto, uma mercadoria que é explorada pelo desejo do seu consumidor. E que é descartado assim que sua utilidade foi totalmente explorada em seu uso. E não reciclagens nestas relações. Só há incomunicabilidade, dedos apontados em riste, acusações, culpas, ressentimentos, remorsos e invejas. O que resta a cada um é suportar as boas lembranças que nos uniram e as péssimas que nos distanciaram, nos separaram para sempre.

Pedro me uniu a ele porque ele sempre esteve aberto para mim, para tudo que eu trazia para ele. Eu sempre me fechei para não me sobrecarregar demais. Só queria suportar os meus pesos e nada mais. Não é o que todos fazem?
Cai uma gota de chuva em meu rosto enquanto também escorre uma lágrima de arrependimento. Agora entendo o que ele quis dizer uma vez ao se referir a queda das gotas da chuva.

Cai lá fora como cai aqui dentro.

Sim, cai aqui dentro de mim todas as lágrimas que você nunca chorou comigo por eu nunca querer ter te escutado. Cai lá fora como cai aqui dentro, a dor em gotas que se somando a todas as gotas que você suportou sozinho, se tornaram a tempestade em que você se tornou após tanto tempo tentando ser entendido aqui entre estes que nunca quiseram te entender. Cai lá fora pedaços de mim que eu nunca irei recuperar, pois você se foi sem ao menos me dizer adeus. Sem se lembrar do amigo que você nunca sentiu de verdade que teve. E eu acho que você não se enganou. E eu não posso pedir perdão por isto, pois você é agora o que sempre foi:

silêncio absoluto. 

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