Na noite que antecedeu a sua morte por infelicidade, refletiu sobre as coisas e as causas que o moldaram numa pintura triste e sem cor.
E se ele dissesse algumas coisas antes de partir? Teria feito diferença? E se ele liberasse tudo que estava preso nos tentáculos de sua angústia? Ele continuaria a ter seus amigos que ele acreditava ser verdadeiros? E se ele gritasse sua solidão mortificante na presença destes seres absurdamente estranhos enquanto íntimos?
Toda tentativa teria valido a pena?
Valeria a pena ainda acreditar na boa relação entre os animais humanos?
Tudo isso era um belo sonho desprezado pelos que acreditam que sozinho se vence tudo e todos. Delírio de uma criança que insiste em não crescer, apesar dos intensos e constantes castigos. Loucura para os que acreditam que juntos já não somos fortes, e sim, fortificados em nosso egoísmo sempre altamente individualista por excelência. Excessivamente excludente, subjetivamente esquizofrênico em seu modo de agir e pensar.
Não lhe restava nada além de alucinações diante da realidade ficcionalizada para sustento de milhares de egos vazios de pensamento crítico. Vazios de reflexão.

Aqui, se foge da verdade que se é, enquanto se foge da verdade que se pode ouvir para não ter que falar a verdade que se quer.

A sinceridade é uma anti-etiqueta monstruosa, capaz de romper com a falsa estética da grande felicidade tiranamente publicitária. O gozo é só uma questão de mercadoria. A promessa é o melhor desejo que se pode alimentar os cegos de tanto de ver e ouvir.
A verdade atrapalha o protocolo da boa e falsa convivência. Palavras podem doer e fazer sofrer até os que não costumam ouvir ninguém.

Viver é acumular débitos numa conta de saldo sempre em negativo.

Os créditos ficam para os sonhos não realizados, para as coisas que não fizemos por covardia, para as coisas que não dizemos por medo da solidão, sem perceber que a solidão é o primeiro e último passo neste caminho solitário que é a existência. E se as dificuldades não fossem tantas? E se a alegria não insistisse em escorregar do brilho de seus olhos sempre molhados de lágrimas que escorriam até o peito, perfurando seu coração já cansado de provar tanto sal da vida?
E se a escuridão cessasse e a melancolia de afastasse? E se a alma dele fosse liberta deste caminhão de pedras que havia se tornado sua vida e sua voz passasse a ganhar força e resistência?
Sim, ele tentou.
E tentou por trinta anos. Mas o movimento contra os seus desejos mais puros era constante e o sangrava por dentro. Espinhos o perfuravam em silêncio letal. Sua voz já não conseguia traduzir nenhum pensamento. Talvez o tom cinzento da pintura que ele se tornou o perseguia silenciosamente ao seu lado sem que ele mesmo notasse. Talvez tudo não passasse de uma má interpretação dos fatos e do mundo. Talvez ele não passasse de um mero proletariado com mania de sonhos burgueses.
Mas nada foi como ele havia sonhado e desejado. E a certeza do fracasso era amigavelmente assustadora. Há um débito eterno para os que experimentam o fel das sombras desde que se aprende a sentir e enxergar. É uma marca que registra o seu lugar no mundo plástico de ideias sustentadas por produtos caros.

A miséria existencial torna o bilionário o mais infeliz animal da selva humana.

E essa ferida jamais cria cascas. É uma dor que jamais se cansa de doer, de triturar desejos de prazer, de transcendência deste eterno sofrer que é esta vida sempre como pêndulo entre a agonia e o desejo de desaparecer. A poesia triste é o acúmulo de lixo consumido nesta estrada sem saída que é sobreviver.

A morte é só um descanso para toda essa ilusão de viver.

Ele ainda buscou refúgio nas crenças religiosas, filosóficas, astrológicas, antropológicas, sociológicas, biológicas, numerológicas, na ciência que prometeu um mundo melhor que jamais conseguiu promover. Ele insistiu e fez-se acreditar, apesar de jamais ter-se convencido de todas estas baboseiras. Incrédulo de espírito. A vida tinha dado porradas demais nele para que algumas ingenuidades permanecessem intactas. O que permaneceu intacto foi o desejo de tentar, que se esgotou naquela noite. A impotência era marcada pela falta afetiva, espiritual, material, psicológica e emocional.

Sua mente era puro caos. Caos que se nutria do caos que via todos os dias. Epidemias de doenças, de ódio, de burrice, de ignorância popular, de cinismo oportunista, de maldade banalizada, de crueldade revestida de religião. De Hades travestido de Deus. E com o passar do tempo as coisas não esvaneciam. O espírito estava se entorpecendo de razão doente de tanta emoção contida. Sua histeria era expressada em suas medíocres poesias. Ninguém escapa deste script. Desde que abrimos os olhos pela primeira vez, o senhor do tempo se prepara para nos dar o seu maior e triste presente: ressentimento. Que se não cuidada, não adestrada, torna-se uma fera a devorar as próprias vísceras enquanto envenena as de outrem.

Ressentir sem refletir é tornar-se pedra.

Ele que já havia visto gente sonhadora tornar-se estátua de marfim já sabia que um futuro destes o espreitava sempre pela porta de seu quarto escuro e inabitável de luzes que o ajudasse a enxergar outras possibilidades. O ressentimento tornava treva quem sempre fora apaixonado pela luz. E ele sabia que algo assim o esperava debaixo da cama desde que aprendeu a ter medo de monstros noturnos.
À noite, se masturbava. Aliviava-se nestes instantes de auto-prazer diariamente. O pequeno alívio lhe fazia esquecer que suas defesas haviam se esgotado. Os ataques vindos de fora para dentro eram muito mais inteligentes e mais fortes que um desejo solitário de vida em percurso. Mas logo depois viam seus pensamentos lhe dizer a razão de intenso refúgio em doses homeopáticas de prazer estético e manual, porém, físico também.

A realidade é regida pela insanidade.

Quem ainda não enlouqueceu, está ao certo a enlouquecer os outros.
Pensou e se cansou. Sabia o roteiro de cor, os personagens eram os mesmos com os mesmos sentimentos. E decidiu dar um fim neste enredo reflexivo mal feito desde que começou a acreditar na potência do discurso da vida. A pergunta dos personagens eram as mesmas nos finais da peça: continuar a viver ou morrer, quando a vida já sustenta a própria morte?
Então não fazia sentido permanecer. Tudo resulta em morte e tragédias irreversíveis. Pensar demais dói. Então descobriu que o que sempre buscou foi uma fuga. Uma fuga perfeita.

Era dia de seu aniversário e então, abriu sua caixa de presente. Dele para ele mesmo. Era costume seu se auto-presentear todos os anos. Pegou a arma gélida, fria de emoção e sem brilho. Mas seu rosto estava refletido no tambor metálico.

Porque uma fuga perfeita é sem volta.

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