Hoje eu acordei como um cadáver em seu próprio pesadelo. O mundo não passa de um grande caixão a abrigar seus mortos aos montes infinitamente.
De forma lenta e progressiva, somos soterrados, enterrados vivos enquanto marchamos funebremente rumo a lugar algum. Seguimos acreditando em promessas que não se sustentam sem a nossa covardia diária e demasiadamente humana que nos impede de olharmos para a grande górgona de frente.

Com medo de enfrentá-la e voltarmos petrificados, vamos sucumbindo os nossos maiores monstros enquanto tentamos entender tudo com os olhos de uma criança egoísta e pirracenta.
Assim vamos fazendo do fluxo da vida o grande corredor da nossa iminente morte subjetiva.
Assim nos unimos como um grande coletivo sem identidade e como vermes parasitas interiormente, vamos nos enganando neste teatro decadente da cultura e da linguagem.

Sem um rosto próprio, sem uma voz real, sem um pensamento autônomo e sem olhos para enxergar a grande verdade estampada na nossa cara: somos masoquistas a comprar chicotes para o auto-flagelo de nossas existências.

A boiada segue confiante em suas ilusões materialistas, metafísicas, plásticas, embaladas rapidamente de acordo com o desespero do personagem de cada um. E a qualquer tempestade mais forte, nossos balões de crenças e fés utilitaristas compradas parceladamente no cartão estouram para o nosso espanto e pavor.

Neste momento, nada nos salva.
A mansão, a esposa mais bonita, o marido mais bem sucedido e o lustre caríssimo na sala de estar não conterão a desilusão escorrendo líquida e amargamente contra a nosso ego erguido a custa da crença neste castelo de cartas que se transformou a nossa vida privada. E como uma bela maquiagem que sustenta a farsa coletiva cuja ordem que nos rege é a ordem do cinismo, a nossa sagrada vaidade se mostra ineficaz, improdutiva e estéril afetivamente. E sujando todo o rosto, borrando toda a travestilização cultural e ditatorial em que nos submetemos para sobreviver, nos vemos num barco solitário em meio as ondas turbulentas de uma Ilha escura cuja função é devolver a nós o que é nosso de fato: excesso de lixo acumulado espiritualmente. E diante do reflexo que nós odiamos por não esconder nada do que realmente somos: animais miseráveis em busca de um sentido para as suas angústias, nos apavoramos e então nos decepcionamos com o nosso eu romântico e nos envergonhamos com o que somos capazes de fazer para nos escondermos daquilo que é inerente a condição de estar no mundo enquanto animal e ser de linguagem.

Caminhamos asfixiados cotidianamente enquanto somos regidos por diretores que lançam o roteiro, os dramas, os personagens a serem encenados publicamente, enquanto escrevem as nossas falas, os nossos pensamentos e ditam quem vai morrer e quando e onde neste grande espetáculo que se tornou a vida pública e privada. E obedecemos como boas ovelhas no pasto . Não questionamos, pois os diretores estão em todos os lugares: em nossas casas, na tevê, nos anúncios das revistas, nos conteúdos dos jornais, nas imagens das telas na qual somos devotos contemporaneamente. E quando menos esperamos, o muro que construímos para nos blindar da dor de existir, se quebra. E de cacos em cacos vamos nos colando, unindo peças do nosso infindável quebra-cabeça, tentando saber quem realmente somos, quais personagens estávamos representando (isso se tivermos coragem para tal) e qual era o enredo final de tudo isso, pois foi de pedra em pedra que construímos barreiras para não nos abrirmos verdadeiramente para aquilo que a vida pode ser não somente conosco, mas como ela pode ser para a maioria. O bem estar do outro implica o nosso, e isso jamais virá escrito num outdoor ou num comercial.
Então retornamos a ela da qual sempre estamos fugindo: dor. Mas agora não é só a dor que incomoda, mas o sentimento de fracasso que nos toma por consciência em último grau de excelência. Depois de certa idade, a consciência já não bate de leve; martela. Sonhos sem chão, ambições sem moderação, delírios altamente individualistas, projetos estéticos desumanos. Tudo cai lentamente em nossa frente como pássaros mortos por abandono de si próprios.
E rastejando até o espelho que mostra a nossa alma suja e corrompida pela cultura, vamos procurando contornos mais suaves, nada exuberante, linhas leves em traços ainda em constituição, um rosto menos pesado, menos carregado de ditames. Aceitando o eu real, nós conseguimos fugir do espetáculo a encenar e nos tornamos mais tolerantes com os nossos erros, derrotas e fracassos. Assim passamos a não maquiar o que é feio em nós, mas começamos a acreditar que somos paradoxais por natureza. Habita em todos nós um desejo de viver e um desejo de desistir, de morrer. Aceitar a nossa condição paradoxal, a nossa incoerência e contradição nos ajuda a olharmos para o nosso espelho com mais complacência e respeito. Quem sabe assim começamos a gostar de nós? Atravessamos a ponte que nos leva do ódio a todo tipo de morte para a auto-reflexão e compaixão própria.

Não há soluções eficazes nem métodos infalíveis diante da complexidade que é se vender para viver. A pergunta é: o quanto você vale pra você mesmo e o quanto isso te satisfaz ou te faz sofrer. A que preço estamos nos vendendo e se o que recebemos está nos suprindo no final. Sacrifícios são da ordem da sobrevivência, mas até que ponto estamos nos vendemos e em que ponto estamos nos prostituindo. A linha é tênue, mas vale ainda se encontrar tarde do que se perder de vez no caminho das concessões inexoráveis nestes jogos de linguagem do poder. Uma vida vivida sem orgulho e admirações honestas, fica a deriva de um valor qualquer que nos oferecem para nos submeter aos comandos dos diretores do grande espetáculo. Seremos sempre escravos deste sistema, mas exercer a liberdade que se pode enquanto vale a pena viver é imprescindível para a nossa saúde mental e espiritual. A dor a se carregar pode ser mais suportável também.

 

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