Todas as portas haviam se fechado. O seu labirinto parecia jamais ter fim ou uma saída de si mesmo. Escuridão e caos ecoavam em sua mente, perturbando-o, assombrando-o, aprisionando-o ainda mais nessa dor infindável: viver e ter que sobreviver – existir e ainda resistir a dor da consciência de que quase nada parece mudar para o melhor dos mundos e que há uma estrada para qual caminhamos rumo a nossa própria desgraça humanamente animal como nunca deixamos de ser.

Procurar respostas era uma forma de amenizar a dor, uma estanca ao sangramento diário em seus pensamentos. Palavras, sons, vozes, barulhos lhe invadiam a cabeça sem se importar com o estrago que poderia acontecer. A vida parecia sem saída e a sua angústia sem redenção. A escuridão era possuída de razão. As emoções lhe afundavam em uma infinita depressão. Não havia esperança para a salvação.

E a luz?

Passou a andar sem a presença dela. A sua passagem era sempre rápida, nem sempre palpável. O mundo mais parecia um submundo habitado de fantasmas que gemiam de inveja, ressentimentos, ódio, angústia e agonias todos os dias. Os pensamentos e sentimentos advindos de sua visão obscurecida por traumas do passado lhe impediam de enxergar uma luz no fim do túnel, uma chance de alcançar a superfície do mar profundo que sempre lhe pertenceu desde que começou a entender que o mundo não era feito de ‘faz de contas’. A criança que ainda era continuava sendo espancada por adultos ferozes e cheios de frieza. Hostilidade era a maior etiqueta.

Os anjos da infância estavam desaparecendo. Ou eram somente ilusões produzidas sobre um mundo que nunca existiu neste mundo que nunca será igual? As crianças são perversamente enganadas sendo vistas e tratadas como incapazes numa sociedade que nunca foi capaz de amar o outro. O resultado ao adultecer é o ódio, o ressentimento, a inveja, a frustração diante das derrotas iminentes. A infantilização forçada produz adultos incapazes de refletir, sustentando assim, uma sociedade incapaz de se autoperceber e se autoeducar. Está cada vez mais impossível voltar atrás.

Um mundo melhor só se torna possível aos que deliram diante dessa loucura que só assusta e que não produz arte, mas sim, muito sofrimento. Os personagens que somos para manter as aparências da grande ficção imperativa diante de um mundo esteticamente e vaidosamente suicida são bizarros. Nos vendemos a base de socos no estômago e pontapés vindos sempre de cima, mas sustentado pelos que estão ao lado. Isso o faz vomitar algumas verdades neste jogo de mentiras que alimentamos e assim ele é sempre excluído neste infinito teatro produzido pelos diretores que estão sempre a comandar os nossos passos, vozes, pensamentos e sentimentos. Neste círculo vicioso da linguagem cínica todos nós não passamos de ventrílocos retardados e sadomasoquistas.

Tudo não passa de alucinação. Delírio sem cura: loucura infértil de prazer e poesia. Dor.

Assim teve que criar uma luz para si. Algo como uma pequena rosa branca que iluminaria seus dias mais sombrios e seus pensamentos escuros de tanto sentir e pensar e não conseguir imaginar outra saída que não fosse o suicídio. No caminho encontraria pedras, espinhos, vendavais, tempestades e ele não poderia sofrer como antes, se torturando e se castigando por se sentir tão fraco diante de uma sociedade tão hostil e fascista. Aliás, o fascismo sempre fora uma marca em sua vida. Suas feridas provém deste veneno que se sorve entre nós enquanto naturalizamos tudo e todos na contramão da nossa liberdade, criando assim mais barreiras simbólicas e muros de dentro pra fora nos tornando pedras que falam o tempo todo, mas que jamais se entendem. E nesta lógica, o mundo se torna uma grande vale de morte subjetiva e física.

As pessoas naturalmente criam barreiras para se comunicar e acabam por se expressar tal mal. Expressando mal, entendemos mal e nos sentimos muito mal. Mas ninguém quer mudar a linguagem, tampouco uma cultura que só se sustenta através da preguiça de pensar e da vaidade que só nos aniquila socialmente. A ordem é da naturalização da exclusão do outro enquanto alguns valores produzidos com viés econômico sustentam uma moralidade cínica de tão falsa e dissimulada. E nessa descartabilidade, vamos nos isolando em nossa própria ignorância, sendo reféns das ilusões da grande publicidade que nos controla, nos vigia, nos domestica e nos paralisa enquanto produz mercadorias que fingem dar-nos segurança, felicidade, amor, amigos, completude. De indústria em indústria de emoções, vamos ficando cegos diante das telas, surdos diante dos barulhos e mudos diante do medo que a própria indústria produz para lucrar em cima da burrice coletiva. O consumo é lei, a verdade e a vida dos animais humanos.

Diante da consciência do modus operandi  das coisas, só lhe restou a solidão, um abismo e um grande silêncio. Tudo isto que antes eram dores, hoje lhe são prazeres espirituais. Descobriu que não é preciso estar fisicamente junto para mostrar que ama, percebeu que o silêncio é a melhor arma diante de uma cultura de falas e pensamentos prontos e entendeu que o abismo é só um peso do vazio que nos é inexorável a condição de qualquer ser pensante. Quem sabe lidar com o seu vazio, sabe lidar melhor com o seu destino.

O silêncio se tornou a sua religião. A solidão, sua melhor companheira. Esta que abre portas diante do mundo dos mortos de Hades. Que vence o desejo tanático de desistir de tudo. Que resgata a verdade de dentro de nós diante da mentira que somos obrigados a nos revestir diariamente. Aliás, a verdade sobre nós é o que a cultura tenta a todo custo nos impedir de saber. Quem descobre e gosta e se revela acaba sendo perseguido por desobedecer à ordem pré-estabelecida vinda sempre de cima e sustentada por todos os lados.

Quanto menos nos conhecemos, mais rentáveis somos a indústria da burrice. Por isso somos assaltados todos os dias de nós mesmos, a fim de que, ao nos esvaziarmos, não nos reste nada para nos lembrarmos de quem éramos antes de nos vendermos tão barato para o grande mercado da vida, cuja moeda é altamente estética e política. E quem fala contra isso é visto como louco, vagabundo, vândalo e perigoso. A sinceridade neste contexto é um suicídio social.

O acordo tácito que se dá entre a ordem e a submissão que leva a exploração de nossos corpos ao extremo é da ordem da humilhação que nos caracteriza como escravos de um sistema que não criamos, mas que reproduzimos por acreditarmos espontaneamente numa ideologia que também não criamos, mas que  acreditamos dogmaticamente. O assalto vem de cima e não sabemos ao certo o rosto do assaltante porque todo mundo está buscando assaltar também para ter o seu pedaço de terra. E nessa dialética, somos todos criminosos, lobos paranoicamente devorando todos os outros animais porque acreditamos em nosso delírio que todos são lobos também. Assim, surge espontaneamente toda essa gente ideologicamente perversa que matam inocentes em nome de um deus odioso, que explora até quem não tem nada além do próprio corpo, que discursa contra mulheres estupradas, que matam gays e negros em nome de uma higiene social numa cultura esteticamente excludente e moralmente pérfida.

Num mundo onde a cultura se tornou indústria e as pessoas se tornaram mercadorias cujo valor é medido pela quantidade que se consome diante da ditadura da publicidade, a solidão e o silêncio são vistos como algo fora do normal. E sozinho, acabou percebendo que junto demais, ele era roubado de si demasiadamente, sem pena, sem compaixão. Levavam-lhe os bons desejos, os bons afetos, os sonhos, as aspirações, as inspirações. Cortavam-lhe suas asas. Deixavam-no caído ao chão, sem defesa, sem força, sem voz e sem um pensamento bom. A frieza é um valor bem visto diante do cálculo tanatopolítico que nós sustentamos sem perceber.  A morte e a exclusão do outro é sempre uma chance de se lucrar, se dar ‘bem’.

Ele não sabia que sozinho ele era mais forte. Mas de queda em queda, foi se reerguendo e descobrindo o valor e a importância das palavras ditas e escritas em silêncio. A solidão é uma grande porta que se abre diante deste labirinto que só é possível sair quando já não se pode mais voltar para contar como foi este refúgio e descanso. A reflexão é a sua deusa da luz imaginária diante das portas que o aprisionam em sua mente. A angústia é a mãe da arte, fonte da poesia que jamais se esgota, água que nasce da fonte do vazio que causa a morte em movimento, chão dos desprezados, dos fracassados, dos sem lugar neste grande espaço que encurta o nosso tempo.

O convite desta vida é para a morte subjetiva, esta que nunca nos programamos para evitar e que ilusoriamente acreditamos que ao fugir da morte física, estamos salvos de tudo. O convite é para a depressão, para as crises de pânico, para o infarto social, para o sujeito que corta os pulsos em silêncio enquanto quer gritar que tudo não passa de uma grande farsa, de uma grande mentira ensaiada num roteiro social que nunca muda. Onde só há adaptações de cenários, de personagens e de textos ludibriantes da qual ninguém quer combater porque o grande valor moral social para que tudo continue como está entre nós é o valor mercadológico da covardia.

 

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