Ele estava seco. Dissecado. Seu corpo fez-se em paz novamente àquilo que sempre lhe amedrontou: o nada. Seus amigos, conhecidos e parentes celebravam a cor do dia sem notá-lo caído ao lado. Ou viram e ignoraram?

O corpo, apodrecido há bastante tempo, se decompunha como quem se cansou de tentar entender algumas razões que nos levam a viver esta vida. A morte era um descanso. A sorte: uma figura mitológica do acaso. O azar: este sim, ele já conhecia. Estava sempre ao seu lado.

Desde criança o azar o perseguia. O pressentimento de um mau destino parecia irredutível. E ele tentou lutar contra todas as forças contrárias a sua capacidade de se recriar. Mas há os que nascem para brilhar e os que nascem para sobreviver nas sombras. Ele não queria aceitar esta condição. Com o passar do tempo já não cantava com o mesmo entusiasmo que lhe foi ensinado. Os seus pulmões estavam pesados demais, sua alma cansada de tanto carregar a ilusão de um dia rir de tudo que lhe fez chorar, a mente adoecia e já não obedecia os seus banais comandos.

Tudo era descontrole. Descontrole e angústia em meio ao caos sem cura. Em meio à dor sem sossego. Ele era puro desassossego e tormento. Tormento e trauma. Tristeza e falta de vontade de se convencer que estava valendo a pena tentar. Tentar e resistir: até quando?

Ele não cantaria mais. E ele também não sabia que sua hora chegaria assim, de repente, de surpresa, sem alarde nem demasiados dramas. O fim lhe foi um susto. Mas nada parecia o impressionar mais, pois já não voava como antes. Não havia desejo, não sentia nem falta de ter desejo. Tudo era inanimado como a vida que era iminentemente inane.

O sol brilha intensamente. Pessoas passam apressadas pelo corpo a fim de chegar ao mar. Tropeçam-no, esbarram-no sem perceber que havia vida ali antes. Havia?

O dia está lindo como se nada tivesse acontecido. Seus amigos estão felizes, seus parentes brindam, comemoram o final de ano, os transeuntes sorriam diante de suas câmeras frontais em smartphones. A morte não nos causa mais espanto. O horror foi tão espetacularizado que deixou de ser horror para ser atração, um show a parte de imagens a uma sociedade cega, doente de tanto ver, que de tanto ver já não enxerga e nem sente mais nada.

Mas neste período do ano a morte não é o espetáculo esperado para as emoções vazias das pessoas. As festas, as roupas a comprar, os presentes a dar, toda a atenção está voltada para as vitrines que nos traveste de insensibilidade, frieza e melancolia. Tudo é vazio no mundo de plástico com embalagens para viagens. Talvez a tristeza tenha sido a companheira que lhe deixou tão desencantado com a vida. Talvez a vida tenha sido o seu maior desencanto concreto a ponto de não enxergar mais beleza em escrever poesia ou cantar suas dores em lugares abandonados. O mundo estava cada vez mais inóspito e não cabia mais o seu coração cheio de sentimentos, sonhos e desejos de criança.

Toda a vaidade, as inseguranças, medos, traumas, incertezas e dúvidas se calaram. As dores cessaram, enfim.

Sem consciência, tudo morre.

Tudo é fantasmagoria produzida pelo desastre que somos.

O tempo já havia lhe cortado as asas. Ele não voava há muito. Triste, calado, silenciado, em luto. Agora ele apodrece no chão que sempre teve medo de pertencer, de enfrentar, de tocar como semelhante. O chão era o fracasso, a desgraça dos que não tiveram sorte em nada. Mas o chão parecia sempre lhe convidar: vem cair? Vem?

Um corpo de um conhecido se aproxima dele e não o reconhece. O que ele sempre temeu: ser esquecido antes mesmo de partir de vez. Seu corpo ainda estava ali, por que não o abraçavam?

Um urubu aparece e lhe faz companhia. Assim ele se sentiu toda a vida: ter que sobreviver aos abutres diários, lado a lado. Depois de devorado, seus pedaços viriam ser transformados em estercos, ao menos?

Ele sempre temeu a morte. Um mero covarde. Tinha medo de ir antes. Tinha medo de fazer sofrer os que amavam. Temia desaparecer sem antes aparecer do jeito que sempre quis aparecer. O destino foi um grande golpe narcísico. Um ego destruído pelo tempo. Um corpo destituído de grandes prazeres ou belos momentos a gozar de alegria intensa, de plenitude. Plenitude: quem alcançou?

Estava morto. Como milhares de mortos anunciados pela internet, pela tevê, pelos rádios, jornais, pelas fofocas no metrô, dentro do ônibus, nos corredores das empresas. Ele era só mais um. O que sempre tentou negar a si mesmo.

Anúncios