Sua vida se concretiza em erros. Dia após dia: erros e mais pesos. Uma semana é insuportável de sustentar. Um mês é difícil de arrastar.

Um ano é impossível de carregar.

Sabendo que precisava voltar para si, já que os outros o tomavam por inteiro em seus pensamentos, emoções e decisões. Ele sempre reage: seu eterno defeito. Talvez por nunca ter reagido quando era criança. Por ter suportado tudo calado por tantos anos. Anos de silêncio que se tornaram sua morte precoce. Uma criança sombria, melancólica e exageradamente dramática. Histeria sempre foi uma marca de si. A repressão sexual lhe dividiu em dois: um submisso e um refratário. Tempos depois descobriu que havia muita energia trancada dentro de si e que se sufocar era a sua morte desde que entendeu que pertence a um grupo específico de pessoas, a esta instituição fracassada chamada de família: a nossa fonte inesgotável de neuroses.

Ele carrega os erros dos outros. Os outros lhe pesam porque as ações dos outros recaem sobre ele sem ele desejar isto. Não há controle sobre a desgraça social quando a burrice é a ordem sistêmica da estrutura das coisas. O cinismo vem só para atestarmos que somos todos otários dentro de um circo sempre armado contra o próprio público que de antemão já paga caro pelo preço absurdo do ingresso. No Grande Teatro do Cinismo os palhaços não são os que nos fazem rir. São os que rindo das desgraças dos outros, são apanhados como ventrílocos de um jogo na qual eles mesmos serão excluídos sem chance de notar que são os bonecos idiotas da vez.

Então ele joga os seus erros atuais, os do passado, os do futuro dentro do mar. Joga tudo: dor, mágoa, ressentimento velho, feridas cheias de fungos. Joga o presente para um futuro incerto, pressentidamente péssimo. Mas as dores demoram a ir. Os erros insistem em ficar e as feridas não se vão com as ondas que levam as pegadas dos transeuntes pela areia limpa e molhada. O mundo pesa no peito, e pesa como um fardo, um container cheios de pesadelos e traumas sociais, tantas histórias de humilhações dentro e fora de casa, histórias que jamais dormem em seu inconsciente e que gritam diariamente em seu consciente já cansado de tanto enxergar o mais do mesmo nas ruas, nas casas, no trabalho, nas pessoas. A maldade não tem fim e nem limite. A criatividade para tal ônus é o bônus por se enquadrar tanto. Por sermos tão obedientes em nossos expedientes, somos liberados para matarmos uns aos outros quando acharmos que devemos.

Ainda ouço aquelas palavras que nunca foram. Ainda sinto a ponta do punhal daqueles que me golpearam pelas costas. Traições jamais adormecem, terapias jamais curam, poesias jamais anestesiam a dor de viver.

Tudo é resto. E o resto é nada.

E o nada é tudo que restou de nós.

A humanidade foi um delírio um dia, um sonho de um psicopata bastante renomado. E é através da linguagem que ele vem a óbito todos os dias. Todo jogo é o jogo de morrer. Uns morrem antes, os outros que morrem depois se acham melhores por conseguirem mais um tempo se humilhando enquanto ajeitam o paletó de seus patrões.

O otimismo prático de desvanece. Evapora-se como gotas de chuva num dia de sol triste. Será hora de renovar as energias? Recuperar forças?

Talvez seja a melhor hora de se reconectar com a própria humilhação, com a dor de si mesmo cujas reações ainda lhe compromete como pessoa. E sabendo tratá-la, tratará melhor quem conviver. A falta de trato com a própria dor provoca anestesia afetiva, apatia social, indiferença e prepotência cognitiva.

 

Talvez seja a hora de mudar algo de velho de dentro pra fora. Um cômodo, um móvel, uma flor que não aflora mais, um retrato mal colocado, uma fotografia em tom sépia sem vida. Talvez seja hora de deixar de acreditar em alguma promessa que fizemos a nós mesmos e que por desventura do desenrolar dos fatos iminentes a qualquer um que sobrevive ao tempo, nos fez acreditar que seria possível mudar tudo, mudar o mundo. Ideologias caem como folhas secas de árvores abandonadas em bosques antigos num Outono que não acaba mais dentro dele.

 

Ele se levanta e balança a toalha de praia, mas a poeira insiste em ficar. As areias insistem em lhe fazer companhia. Parece que vai ser sempre assim: conviver com a sujeira que não causamos enquanto não enlouquecemos. Ele desiste de limpar a toalha. Perder mais uma vez hoje, amanhã tanto faz. É necessário buscar força para suportar as perdas ideológicas sem cair num conservadorismo boçal. Ele ainda ouve sua dor e se devolve.

 

A dor o faz lembrar quem ele realmente é.

 

Então resiste. Tudo parece um grande jogo de resistência neste momento enquanto a vida se mostra uma eterna derrota dos nossos sonhos mais ingênuos, onde os idiotas estão sempre vencendo à nossa frente, organizando passeatas em combate a corrupção que eles mesmos promovem nos bastidores. Na tragicomédia da vida, tudo isso não passa de uma grande encenação de uma piada sem graça. Tem público, mas não tem graça.

 

 

 

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