Anda sempre com uma corda pendurada no pescoço. Um passo em falso, um escorregão, uma rasteira, uma ilusão e ele se debate entre suas agonias e busca desesperadamente por aquilo que sempre lhe falta desde que obteve a consciência das coisas: ar.

As mudanças radicais em seu país lhe deixa ainda mais cabisbaixo, melancolicamente suicida, introspectivamente pessimista. De em tempos em tempos, um desejo: esvanecer-se subitamente como um ar que repousa livre sem estar, sem peso algum, sem doer em algum lugar. Mas exige-se de si um sonho para este pequeno delírio esporádico: não fazer sofrer aquele que sentisse momentaneamente sua falta. Não gostava da ideia de que poderia fazer alguém sentir dor ou sofrer pela ausência que ele causou. Mas a ausência que ele carrega desde a infância nunca se fez presença na vida de ninguém que o cerca.

Ninguém nunca sentiu.

Ninguém nunca viu.

Ninguém nunca percebeu.

Está vivendo quatro anos a mais do que o planejado na adolescência. Vinte e cinco anos bastariam. Os animais humanos são incapazes de tornar este mundo de imagens mentirosas em um lugar hóspito. A vaidade aniquila a igualdade; o ressentimento produz competitividade desmedida, a maledicência, a inveja.

Só o mar com as suas impurezas, o vento com a sua canção da tarde enquanto o sol cai, os pássaros com os seus gorjear angustiantes de quem sabe que vai morrer a qualquer hora me faz saber que há paz na loucura coletiva. Uma paz impedida, indesejada, proibida.

O caos é a tábua que sustenta o nosso desespero.

Então a corda se afrouxa em seu pescoço e ele reaprende a respirar. Será que ainda sabe? Será que consegue? Será que se lembra de como fazer?

Há sempre bagagem demais em cada viagem diária. As etiquetas, os protocolos, as convenções esmagam, pesam sobre o corpo explorado como um mero código de barras. E o tempo não há de fazer parar de rolar a pedra de Sísifo. Ela está sempre vindo em nossa direção. Sempre com raiva, veloz como o seu desejo de nos aniquilar, de nos matar, de nos fazer calar para sempre, de nos excluir do jogo da sobrevivência, que é sempre um perverso jogo de linguagem.

O que ninguém disse é que a grande pedra é uma avalanche diária de ódio petrificado que erguemos com os nossos preconceitos culturais adquiridos através dos nossos antecedentes. A grande pedra rolando contra nós mesmos só vem dizer que tudo que plantamos, colheremos em breve. Vendendo a alma, o corpo e os pensamentos a ofertas semanais, mensais e anuais só nos garante que um dia tudo se voltará contra nós. Tudo.

E não somos atacados, seduzidos e capturados solitariamente. O fenômeno é coletivo, mas acreditamos estar num mundo deserto onde as pessoas não passam de avatares espectrais que só enxergamos através das telas cegas de smartphones. Telas que não te enxergam e que te faz esquecer de enxergar. E não estamos dando conta que o ataque vem de cima todos os dias. E um por um, como cartas de um  baralho velho descartadas num jogo social perverso, caímos anonimamente, como se nada fosse proposital, intencionalmente feito, produzido. O apocalipse vive o seu esplender através da nossa ignorância e da capacidade animalesca que temos em sermos indiferentes.

A dor não é coletiva, portanto não há remédio ou solução; não há saída.

A grande pedra esmaga a todos, mas por vezes parece apenas atingir o nosso narcisismo ridículo. E em nome dos que nos odeiam, nos odiamos sem perceber, sem pensar no que estamos fazendo uns com os outros.

A gente tem medo de tudo, só não temos medo de odiar. Odiar tá liberado. A ordem é estatal.

Melhor é excluir do que trabalhar a nossa ignorância. E nessa condenação social só há criatividade para a banalidade do mal. O mal tá liberado. A bondade é vista como fraqueza, fragilidade de personalidade diante de um mundo frio, inóspito de bons afetos. Produzir boas relações é atirar contra o próprio peito. Pensar é um grande defeito. Obedecer é uma lei sacra no mundo do Deus Mercado. A corda para a forca está pendurada. A plateia espera o próximo a ser queimado em praça pública. A consciência nos entorpece de razão que entristece, que nos esmaga de desilusão romântica de um mundo melhor para vivermos e consequentemente, habitarmos com quem amamos e desejamos o bem, o melhor.

Mas não estamos mais desejando o bem, só o melhor para nós mesmos. E isso só inclui uns enquanto garante a exclusão de milhares de ‘outros’. A propriedade privada,  começando pela família, torna qualquer proletariado um burguês ideológico e sacerdote  da amada Igreja. Nos resta somente a paz da Natureza em dias de consciência agitada, em dias de adoecimento do espírito em lugares em que os animais humanos ainda não tenham chegado a fim de destruir tudo com o seu egoísmo infantil.

Ele deita debaixo da sombra de uma árvore que ainda lhe resta. Tem medo de ser assaltado a qualquer momento. A forca está no pescoço de todos nós. Basta um descuido e logo estaremos silenciados para sempre.

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