Os dois sentam-se no banco da praça ao lado da banca de revistas e jornais. Um olha pro todo pra relaxar. A mente tem trabalhado constantemente. O outro olha pro mesmo lugar e se pergunta: foi isso que eu esperei a vida toda? Olhar pro tudo sem sentir nada?

Um está desempregado. O outro é aposentado. Um quer descansar, encontrar a paz diante da iminente guerra contra si mesmo diante da ordem que destrói e anula tudo-todos. O outro quer encontrar aquilo que ele acha que perdeu. O que eu desejava tanto? Ele não se lembra mais.

Tanto tempo deixando tudo pra trás nos faz esquecer até quem somos. Um plano, um sonho, qualquer coisa, eu quero desejar e fazer, ele sente enquanto pensa olhando pro vazio que ele tem enquanto vê tudo. O outro tem planos, sonhos e muitos desejos. Não lhe falta aspirações. A vida parece uma onda cheia de oportunidades que não voltam. Tenta se agarrar a tudo, mas não consegue. Ainda está aprendendo a grande linguagem do mundo. Isso é por demais, difícil, quase impossível de perceber e entender quando se olha pra tudo-todos somente com as formas do seu olhar.

O mundo não é à nossa maneira, tampouco a vida será.

O aposentado vai todos os dias à tarde tentar reencontrar aquilo que lhe fazia produzir para esperar. Produziu tanto que se esqueceu. O outro, jovem e sonhador, tenta se convencer de que não irá se prostituir tanto à essa máquina de produzir ao ponto de se perder numa tarde sentado num banco qualquer.

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