Eu matei a minha mãe. Simples como matar um bandido que há muito tempo fazia muito mal à comunidade, ou que transformara em caos a ‘paz’ desta cidade imunda. Simples como matar aquele político que ordenou um golpe de Estado num país recentemente democrático. Matar mamãe foi fácil. Sempre quis isso. Sempre quis e desejei que ela morresse logo.

Mamãe morta era sinônimo de paz. Paz interior que eu nunca tive. Aliás, paz que ela nunca me deixou ter porque simplesmente ela era uma fracassada triunfante na vida. Mamãe era mais uma mulher pobre derrotada pelo sistema econômico. Teve uma vida difícil com vovó, que era dura e fria como Hitler. Ou Mussolini, pois minha avó é descendente de italianos. Mamãe sempre descontou toda a sua raiva, tristeza, desgosto e fracasso na vida nos seus filhos. E eu, que morei com ela até poucos instantes, fui o que mais sofri suas humilhações.

Agora ela está morta. Porque eu a matei. E me sinto livre. Eternamente livre por tal ato corajoso. Quando eu era adolescente, sempre sonhava que ela morresse de câncer, atropelada, envenenada ou por enfarto depois que nós brigávamos muito.Ela, como de costume por ser minha mãe e minha autoridade (aquela que me deu a vida que eu nunca pedi), me humilhava diante de todos que eu conhecia e não conhecia na rua depois destas brigas em casa.

Eu sempre decidia sair para esfriar a cabeça com alguns amigos e assim evitar mais raiva e tristeza. Ela não satisfeita em me derrotar até me ver chorando e solitário em meu quarto, fazia questão de passar de casa em casa para falar de minha orientação sexual, de meu comportamento verbalmente agressivo com ela que sempre ela autoritária e prepotente em nossa anti-relação.

Os vizinhos saiam de casa. Iam para rua ouvi-la gritar. E eles gostavam, principalmente porque era sempre num domingo que mamãe gostava de fazer o seu show histérico e perverso. O domingo é um dia bastante entedioso para os pobres que nada tem o que fazer a não ser assistir a programação da tevê aberta. E todos eles assistiam a tudo sem contestar. Filmavam com os olhos o que hoje fazem com seus smartphones.

A vizinhança não gostava de mim. Mamãe conseguiu fazer isto. As pessoas me olhavam e falavam baixo com um olhar de reprovação, olhar do qual eu imaginava que mamãe era capaz de inventar tamanha barbaridade sobre mim que eles só podiam ter desprezo por minha pessoa.
Eu os entendia. Eles nunca me entenderam.

Papai não aguentou e depois de se envolver mais uma vez extraconjugalmente com uma mulher aqui perto de casa, pegou suas coisas e foi embora. Eu comemorei. Enfim, eles iriam parar de quebrar toda a casa brigando e tentando literalmente, se matar. Haveria menos brigas e mais talheres, copos e mesas nos lugares a partir do dia em que ele foi embora e nunca mais voltou.
Eu entendia papai.
Mamãe gostava de humilhá-lo também. Ele não gostava que xingasse minha avó paterna, por obviamente ser a mãe dele. E quando ela bebia, xingava a minha avó de todos os nomes cruéis possíveis. Principalmente estes nomes que desonram a ‘dignidade feminina’ de qualquer mulher. Papai avançava toda vez que ela o chamava de filho da puta. E ela sabia que isso o descontrolava, então ela o provocava. Ele a agredia com porradas e chutes. Ela jogava facas, garrafas, tudo que via na frente e depois ligava para a delegacia de mulher. Papai era preso por alguns dias e depois solto, pois ela sempre ia na delegacia retirar a queixa contra ele. E papai, por ser mecânico, consertava os carros dos policiais e delegadas e ficava tudo bem. Pra eles. Mas sempre voltava a acontecer. O roteiro era o mesmo. Domingo, noite, bebida, histeria. Até que os policiais e nem a delegada quiseram se envolver mais nesta relação conturbada e autodestrutiva para os dois.

Era só chegar o final de semana. Ela bebia todas que tinha direito e as que não tinha também. Xingava os vizinhos, arrumava confusão com a minha irmã, xingando-a de vadia quando esta saia para somente dançar. Mamãe viveu muito. Eu deixei ela viver tempo demais. Papai também deixou. Fomos demasiadamente tolerantes com esta que sempre arruinou a nossa vida em família.

Hoje, mais uma vez, ela me xingou de tudo. Só não me chamou de santo. Me chamou de viadinho, que eu deveria dar para um macho e sair desta casa que era somente dela, sendo que meu pai comprou a casa sozinha. Depois ela vendeu para a minha avó que não podia mais morar em um morro devido sua saúde bastante fragilizada, e com o dinheiro recebido, reformou a casa que a minha avó iria morar e na hora de construir a dela, ela percebeu que não tinha mais dinheiro para terminar de construir a sua casa. A casa que era ‘somente dela’. Eu e meus irmãos nos juntamos e terminamos a casa. Até hoje ela grita que a casa é dela e que quem não estiver satisfeito que pegue suas coisas e rache fora.

Mamãe é assim. Escrota mesmo. Egoísta, manipuladora, fria, fascista, machista e agressiva. Mas hoje eu não quis continuar me ofendendo por suas palavras que sempre me rasgavam por dentro, me inferiorizava ainda mais no que eu já era. Não quis continuar sendo humilhado por esta que sempre me diminuiu em tudo, em tudo.
A briga foi por causa de uma panela cheia de cobertura de chocolate que eu guardei na geladeira. Ela queria que eu jogasse fora. Eu disse que não iria, pois iria usá-la novamente quando fosse fazer outro bolo de chocolate esta semana. Ela disse para eu ‘me virar’. Eu respondi que não, que não iria jogar a minha cobertura de chocolate no lixo só porque ela não queria retirar da geladeira os utensílios que ela guardava por pura mania de guardar e acumular coisas sem necessidade e sem utilidade. Pois ela não contente de estar gritando para que eu tirasse, começou o seu discurso humilhante mais uma vez, que eu era um encosto, um marmanjo que só atrapalhava a vida dela, que só trouxe desgosto, que nunca vai sair da saia dela, que eu vou ser igual ao meu tio materno que faleceu odiando a minha avó, xingando e agredindo ela, mesmo em fase terminal de câncer e morando juntos.

O ódio sempre foi a base das nossas relações. Não era e nunca foi o amor, a união. O que nos unia era o ressentimento, o desejo de vingança, o desejo de dar a rasteira no outro quando menos se espera. A gente aprendeu a se odiar porque mamãe sempre nos odiou. Ela engravidava como quem paria um animal. E foi assim que teve três filhos e depois fez a cirurgia de laqueadura, pois papai enfim, tinha conseguido uma menina como filha. Três filhos dos quais ela se apegou ao mais velho, este que a agredia quando ela o humilhava. Mas mamãe o amava muito mais do que a mim e a minha irmã. Mamãe amava a dor, a humilhação. E amava humilhar.

Eu não estava suportando tanto ódio, ressentimento e humilhação. Ela abriu a porta e despejou toda a cobertura de chocolate em mim, dizendo: já que é seu! Toma, é todo seu!
Eu estava no celular conversando com um amigo quando só senti a cobertura de chocolate me sujar, molhando toda a minha roupa, a cadeira e o chão do quarto. A força da minha fúria me fez levantar daquela cadeira de rodas onde eu me encontrava miserável diante de todas as pessoas que me olharam com pena neste mundo e agarrei o pescoço dela com um ódio que nutri nestes trinta anos de convívio destrutivo.
Era tanto ódio que eu saltei da cadeira como quem tivesse conseguido finalmente voar e não a larguei enquanto não vi os seus olhos se avermelhando de nervos atrofiados e o seu pescoço sangrar através das minhas unhas que estavam a cortá-la enquanto eu a sufocava, deixando- a imóvel diante de trinta anos de ódio escondido e humilhação contida.
O sangue escorria e eu me sentia feliz, belo e forte. Como qualquer outra pessoa comum. Eu podia e era capaz de matar também. Mostrei a todos a minha capacidade. E me senti livre. Como sempre sonhei todos estes anos em que estive preso a estes sentimentos que me torturavam como um cárcere maldito e nojento.

Eu estava matando a minha mãe. Ah quanto tempo esperei isto! Este foi o pensamento que me veio enquanto ela se debatia enquanto tentava gritar e não conseguia. O seu olhar era de ódio e desespero. Ela estava me xingando em seu coração negro de tanta maldade, eu pude notar.
Quem é que está por cima agora hein, mãe? Hein? Me diga! Fala! Eu não consigo te ouvir. Que pena…

Eu percebi que ela tinha parado de respirar. Fiquei grato. Consegui. Acabei com ela. E sorri. Gozo, sabe? Sabe quando você acaba de transar e sente a pessoa mais leve do mundo? Como se estivesse transcendendo o seu corpo? Foi assim. Como jogar fora um entulho de trinta anos sendo carregado inutilmente. Tem gente que merece ser morta logo, eu sempre acreditei nisso.
Mamãe morreu! Mamãe morreu! Eu gritei a todos vizinhos. E gritei sorrindo como quem dava uma grande e maravilhosa notícia: mamãe morreu! Venham ver! Ela está morta!

E sim, eu me rastejava no chão enquanto via ela caída sem voz. Tudo que eu sempre pedi a Deus em meu quarto enquanto ela me xingava e Ele sempre me negou: a mudabilidade daquela que sempre gritava e me emudecia sempre. Ela estava imóvel.
Me perguntaram: quem a matou? E olharam para mim com as mãos sujas de sangue. Eu disse feliz, fui eu! Fui eu! Olha só! Ela não está bem assim? De olhos bem fechados e com a boca calada para sempre?
Os vizinhos se assustaram e ligaram imediatamente para a polícia. E saíram. Todos.

A polícia estava vindo. Eu sabia que viriam. Eu odeio policiais. Sempre tive vontade matar alguns, ou muitos. Ou quase todos. E mamãe sempre fingia que ligava para eles toda vez que eu xingava ela também. O que era raro, pois eu nunca gostei de palavrões, embora tenha nascido num ‘lar’ onde se ouvia palavrões de manhã cedo, na hora do café da manhã.
Toda vez que eu insultava com palavras que a ofendia, ela fingia ligar para o 190, fingia ligar para o meu pai para que ele viesse me bater. Este que eu nunca mais vi senão depois dele ter vindo aqui me espancar algumas vezes por eu ter faltado ao estágio quando era adolescente. E estes espaçamentos eram a pedido dela, pois ela advertia diante dos vizinhos que já não sabia mais o que fazer de mim, um adolescente tão problemático.

Mamãe sabia me torturar. Era pelo medo. Era pela mente. Ela me torturava psicologicamente e eu sempre fui frágil nesta parte do corpo. A minha mente e toda a minha psique era frágil diante da violência que eu sofria desde que aprendi a sentir dor emocional.
Terror. Mamãe, como costumam dizer por ai, gostava era de colocar o terror. E ela conseguia. O meu irmão não aguentou ela por muito tempo. Engravidou uma moça tão adolescente quanto ele e foi morar com a sogra. A minha irmã também. Mas minha irmã não engravidou. Pelo contrário, a minha irmã nunca quis ter filhos. A razão disso eu sempre imaginei. E eu, que não consigo andar devido estas pernas que não se movem desde o acidente de carro que eu sofri quando tinha uns treze anos, no qual o meu pai estava dirigindo bêbado e brigando com a minha mãe, fiquei aqui, com esta que nunca gostou de mim. Eu até consegui uns empregos. Mas sempre muito humilhantes e sempre sofrendo por demais o preconceito para além do que o salário estava me comprometendo.

Os olhares de pena, dó e de tristeza me deixavam cada vez mais deprimidos e com aquele sentimento de incapacidade que todo deficiente carrega dentro de si para fazer companhia a outro complexo: o de inferioridade. Eu que sou gay desde que me entendo como humano, sei disso de muitos modos sendo ‘pobre’ para não ser chamado de preguiçoso e incompetente pela classe média fascista, ‘moreno’ para não me chamarem ou me ‘xingarem’ de negro como costumam pensar, ‘cadeirante’ para não me chamarem de deficiente e ‘disléxico’ para não me chamarem de retardado.

Complexo de inferioridade nunca me faltou. Nunca me faltou a incapacidade. A capacidade de fazer tudo acabar. Esta sempre me faltou.

Nasci devendo o mundo.
Nasci errado.

Nasci com defeitos.
Os policiais chegaram. Eu atiro contra todos eles até que um dispara contra a minha cabeça. Foi certeiro. Pegou no córtex pré-frontal perfurando a massa encefálica adentro com a pólvora quente e rápida. Mamãe e eu estamos mortos. Eu caído sobre ela. Ela caída sobre o chão em que eu a derrubei e a matei. Isso seria trágico se não fosse irônico.

Anúncios