Era ensandecedor olhá-lo no vestiário. Kleber tinha um peitoral tão definido que quase fazia a camisa rasgar ao meio. Ele era casado, um homem branco com seus trinta e três anos, tinha duas filhas, era divertido, sagaz, másculo e bem querido por todos, o que fazia dele uma figura inimaginável tendo relações sexuais comigo.

Estamos juntos há mais de dez anos. Fazemos missões na polícia sempre juntos. Trabalhamos no mesmo plantão, nas mesmas escalas, o que nos ajudou muito a manter o nosso relacionamento. Claro, o capitão muitas vezes pediu para mudar a minha escala, me indicou outros parceiros de trabalho para outras missões em que Kleber não estaria, e eu sempre questionava, dizia que a nossa parceria funcionava bem, que isso poderia prejudicar o nosso desempenho, pois havíamos conquistado confiança um do outro nesta década de trabalho e parceria sempre juntos.

O capitão desconfiava de alguma coisa nesta relação, o que não me surpreenderia, pois capitães, coronéis, tenentes, sargentos e vários outros soldados mantinham relações homossexuais a vida inteira naquele batalhão. Mas evitávamos falar disso lá dentro.
Certa vez alguém tocou neste assunto e por acaso um dos capitães passou e ouviu. O soldado ficou preso por dois meses e se caso falasse a verdadeira razão de sua punição, seria expulso da PM por calúnia e difamação, além de com certeza ser morto logo em seguida.
Quem fez isso em algum tempo não foi perdoado. Nas missões, Kleber me dizia que três caras já morreram depois de terem dito das relações homossexuais dos tenentes, capitães, coronéis e sargentos. Eles eram expulsos da PM e meses ou até um ano depois, apareciam mortos. Ninguém jamais ousou em tentar dizer sobre estes casos nem dos casos dos majores da corporação. Além do mais porque estávamos todos amarrados a mesma condição: a da humilhação pública unânime. Começando pela família e terminando no trabalho.

Lá em casa já havia Rodrigo assim, para grande decepção do meu pai. Aquilo me doía, mas ao mesmo tempo me dava raiva de Rodrigo, que não mudava, não escondia, não disfarçava aquele jeito meigo, delicado, feminino. Mamãe também não fazia muito para ajudar. Sempre ria de Rodrigo e acabava reprimindo ele, o que me dava dó, mas era necessário. Ele precisava a aprender, porra! Pra ser aceito neste mundo com um pênis entre as pernas precisa ser macho, cara! Senão não servimos pra nada! De que serve um homem se sua maior potência não serve?

Não havia espaço para mais um desviado sexual naquela casa. Aliás, nunca houve espaço para um. Kleber era o meu ouvinte de sempre. Ele dizia para eu não pegar no pé do meu irmão. Eu refutava dizendo que o meu irmão poderia melhorar ao menos, não dar pinta assim na frente de todos da família. Aquilo machucava papai, feria o nosso orgulho como família diante dos outros. Era muito triste ver papai calado, com um semblante pesado, sobrancelhas arqueadas de preocupação. Rodrigo tinha que se conter! Não percebia que fazia todos nós sofrermos? Eu conseguia esconder os meus desejos e melhor, fingia tão bem que ninguém jamais desconfiou de mim. Ele poderia fazer igual que dava certo. Dava certo pra mim, daria certo pra ele também. Kleber dizia que eu estava sendo intolerante, que nem todo mundo tem esta força ou capacidade de reprimir tudo, de fingir tudo e mascarar perfeitamente os desejos. Nem todos são capazes de agredir o outro para se proteger, ele me disse uma vez. Depois que ouvi isso, senti pena de Rodrigo, mas logo me lembrei de papai, que era a minha única referência de homem, de autoridade masculina e nem sempre tão viril.
Mamãe tinha seu poder lá em casa, mas concordava em muito com o que papai dizia e fazia, não o questionava em nada, então parecia não se importar com que viesse a acontecer se e gente fosse descobertos totalmente.

Já sabíamos que Rodrigo seria gay futuramente. Agora saber que eu era bissexual? Seria uma tragédia daquelas irreparáveis, um trauma insuperável no ego de uma família cristã. A nossa imagem seria destruída perante tudo-todos na igreja. Seria um vexame, uma dor que poderia matar o nosso pai de desgosto. Eu não faria isso com papai e nem com mamãe nunca-jamais. Digo-repito: nunca-jamais. Já estávamos sendo motivos de piadas por causa do jeito de Rodrigo, eu poderia lhes trazer mais dor e decepção?

Casei-me logo com Marta, antes que este desejo subisse demais em minha cabeça e me fizesse ter trejeitos femininos como os de Rodrigo. Marta, mulher perdida na prostituição, logo se encantou comigo. Queria sair dali, casar, ser uma mulher respeitável. Sei que ela não se sentia assim casa comigo, mas me lembro de mamãe sendo condescendente a tudo que papai dizia e fazia e me dá raiva de Marta.
Por que ela não reage?
Não me enfrenta?
Não bate na minha cara, não mostra que também manda naquela casa?

Odeio mulheres submissas, odeio muito. Já bastava mamãe sendo conveniente e cúmplice de papai em tudo. Não poderia perdoar mais uma mulher submissa em minha vida. Não foi à toa que desapareceu. Foi adquirir voz em outro lugar. Assim eu me sinto melhor, me sinto livre para Kleber, que acha que eu agi mal tratando Marta daquele jeito. Eu percebo, mas nunca proibi ela de me enfrentar. O que eu mais queria era que ele me enfrentasse, me subestimasse, adquirisse respeito próprio. Mas Marta pensava demais nos filhos, demais nas tarefas da casa e da igreja e ainda dava ouvidos para o meu irmão, que sempre ajudava ela a se manter desse jeito: vítima de tudo-todos.

Eu não suportava dividir minha vida com vítimas. Já bastava disso. Rodrigo é vítima, eu sou vítima, mamãe é vítima, Sabrina é vítima, aonde todos nós vamos parar assim, nos machucando e feriando uns aos outros? Alguém tem que se levantar e gritar, dizer que tudo isso não passa de uma grande mentira, um teatro autodestrutivo cheio de dores, ressentimentos e invejas.
Mas ninguém ousa. Ninguém se afirma, a não ser Rodrigo e Eduardo, a qual não tenho apreço algum. Não gosto dele. Sinto inveja da relação deles. Principalmente de saber que eles transam sem medo de serem mal ditos. Me dá raiva, ódio, tristeza, inveja e decepção. Não serei assim. Serei para sempre diferente em minha condição de irmão-heterossexual que precisar segurar a impecável(?) imagem da família. Para sempre, todo sempre.
Meus filhos merecem ter uma figura paterna honrada, respeitável perante a sociedade. E eu farei isto até fim da minha vida. Custe o que custar.

(Trecho de uma conversa de Alessandro num chat em um grupo de ajuda às pessoas homofóbicas na internet)

 

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