Algumas vezes eu ia para a escola com fome. Eu entrava às onze e meia e ia para o intervalo às treze e trinta. Papai sempre comprava pão de manhã e deixava-os sobre a mesa ao lado do pote de margarina e a garrafa de café.

Gostava daquela cena diária. Era poética e encantadora.

Raros momentos em que a poesia se revelava para mim naquele labirinto de quatro cômodos. Algumas vezes papai não tinha tempo de ir à padaria e acabava deixando uns trocados para o meu irmão comprar uns pães de manhã. O que não acontecia na maioria das vezes. Alessandro pegava estes trocados para jogar fliperama com os amigos depois da aula já que ele estudava mais cedo que eu. E nesta época mamãe não trabalhava, então ela me levava à escola, mesmo eu tendo onze anos.

Mamãe me arrumava muito, o que me constrangia um pouco. Os meninos me gozavam. Caçoavam até cansar, mas eu não ligava. Na verdade eu fingia não me importar. Mas na profunda verdade, eu me sentia dolorosamente inferior, diminuído, um alienígena expulso de casa e derrotado nas batalhas diárias da escola.
Eu acabei me cansando de ficar com fome e falei pra Alessandro parar de gastar o dinheiro com jogos nos bares do bairro. Você quer que eu diga a papai o que você faz com as bonecas da Sabrina quando ninguém tá em casa? Quer que eu fale?

Dor. Medo.

Meu semblante denotava todo o terror e pavor de ser descoberto.
Nã, não. Respondi, gaguejando.
Então me deixa em paz que fica tudo bem, tá?
Eu não respondi nada. Então ia para a escola com fome, pois o lanche era dado duas horas depois que entrássemos na sala de aula. Mas eu acabei desmaiando algumas vezes, o que deixava as professoras e a pedagoga de cabelo em pé. Rodrigo, você quer que eu ligue pro seu pai ou pra sua mãe vir te buscar?
Não! Eu estou bem, é sério. Eu estou bem.
Mas você está fraco. Não aguenta nem se levantar sozinho. Eu já disse que estou bem. Não ligue pra ninguém. Só me dê algo para comer que eu melhor. Tem pão aqui?
Tem sim, meu querido. Você quer ir lá na sala dos professores comer um bolo, tomar um suco?
Sim, eu agradeceria muito se fizesse isso.

E eu lanchava, mas não conseguia me concentrar e ficava tonto por mais trinta minutos. Rodrigo, olha pra mim, eu vou ligar pra tua mãe, tá? Ela já vai vir te buscar. Não, não façam isso, por favor! Por favor… Eu implorava chorando. Mas por quê? Você mal consegue falar direito, meu amor. Precisa de repouso.
Eu não posso ir pra casa.
Por que não?
Se eu for eu apanho.
Mas vai apanhar por quê?

Porque garotos não desmaiam, só mulherzinhas fazem isso.

A pedagoga me olhou de cara feia. Como? Perguntou ela, franzindo a testa.
Se eu voltar pra casa antes do horário da saída eu apanho.
Mas você está passando mal. Eles não entendem isso?
Eu também não entendo. Mas não quero faltar aula amanhã.
Mas você vem amanhã, você só vai dormir, descansar e se alimentar.
Vocês não entenderam. Se eu for, vou apanhar tanto que meu pai e minha mãe não vão me deixar vir à escola. Para ninguém saber o que o aconteceu. Já tive marcas que permaneceram durante meses. Dói muito.
Sim, meu anjo, dói, sim.
Eles não sabiam o quê fazer de mim.
Nem eu.

Trecho do meu primeiro romance, ‘A Visita – Memórias, confissões e segredos’ disponível para venda no site Amazon do Brasil. adquira-o aqui > https://www.amazon.com.br/dp/B01M18UG2P

Anúncios