Frederico é um homem de vinte e sete anos. Gordo. Poderia dizer que é apenas um rapaz, mas sua aparência é de um senhor de quarenta e sete anos com sobrepeso. Ele tem uma oficina de automóveis. É mecânico e solitário. Nunca casou, nunca teve vontade ter filhos, mas já se apaixonou.
Costuma colecionar partes velhas dos carros que lhe são entregue. Ele gosta de receber estas peças alegando que as venderá a algum ferro-velho. O ferro-velho é o seu coração.

Dizem que em sua casa há muitas peças sujas jogadas por toda parte. Dizem que ele é porco. Órfão desde os sete anos, ele coleciona tudo que lhe remete a pouca infância que esteve ao lado dos pais. Dizem que Frederico é estranho. Esquisito demais, dizem suas ex-namoradas.
Seu pai era marceneiro e adorava carros, mas andava de cavalo, pois não tinha dinheiro para comprar tamanho sonho de consumo. Mas quis dar ao filho isto que nunca teria. Fez-lhe um carro a base de madeira com rodas de aço quando o menino completou os seus sete anos. Frederico chorou ao ver a obra de arte feita pelas mãos criadoras do talentoso pai. E se emocionou de felicidade.

Frederico se pega sonhando em uma casa afastada da cidade, com uma mulher que ele não conhece, mas ama e que está fazendo um café da tarde enquanto assa pães de queijo no forno. Ele chega do trabalho cansado após tantas horas sob o sol capinando o campo. Crianças correm pelo quintal, felizes e sem chinelos. Árvores de todos os tamanhos e formas montam um cenário fantasioso, quase como num conto de fadas. Jardins com flores de todas as espécies e beleza afloram o sentimento de poesia no ar. A vida é bela. Os beija-flores se alimentando do néctar da vida.
Ele se sente feliz. Em paz.
A cada vez que entrega um carro pronto, hesita em devolver ao cliente. Enrola, mente dizendo que ainda não terminou, diz que as peças novas não chegaram do fornecedor. Era verão. Estavam de férias do campo. O pai e mãe estavam viajando na carroça puxada pelo cavalo com ele, que abraçava apertado o carro que o pai lhe fez aquele ano de presente.

O cavalo prende a pata no trilho do trem. O pai desce da carroça e tenta retirar a pata presa ao trilho de aço. Nada adianta. O trem assovia. Está chegando. A mãe decide ajudar o pai enquanto Frederico olha tudo pensando, o cavalo, o cavalo! Salvem o cavalo!
Frederico sente medo. Muito medo. Teme ver o cavalo morrer e abraça o carro de madeira com rodas de aço que o pai lhe fez. Percebendo que o trem estava perto, Afonso retira o filho da carroça enquanto a mulher tenta arrancar a pata agarrada aos trilhos da ferrovia.
Frederico está jogado no chão. Seu pai, sua mãe, o cavalo da família e o seu carro de madeira estão em pedaços. Desde então ele coleciona pedaços. Tenta resgatar o que nele foi despedaçado. Ama os carros como ama o pai. Ama as mulheres como amava a mãe, e por isso nunca teve contato sexual com elas.
Ele é gay, afirmam uns.
Ele é doente, dizem outros.
Frederico não liga para o que dizem. Ele gosta dos gays e tem compaixão pelos doentes. Acha até os gays mais sinceros, divertidos e menos caretas que estas pessoas que mal dizem dele e dos ‘sexualmente imorais’. E nessa maledicência aparentemente banal e sem maldade, ele percebe o jogo de exclusão por trás do gozo do riso do outro em que a dignidade da vida humana é sempre reduzida à mera questão moral. Uma moral seletiva onde o corpo é a mercadoria que abriga o maior capital de valor de troca na administração cristã-econômica. Deus está para o poder assim como o poder está para Deus. Frederico pouco se importa.
Na verdade, quase nada importa.

Ele percorre suas lembranças na tentativa de salvar o cavalo para salvar os pais e a infância, e tentar ao mesmo tempo remontar o seu carrinho de madeira com rodas de aço. A estrada de Frederico tem um calendário: antes dos pais; e depois dos pais. Ninguém sabe disso. Talvez porque ninguém busque saber. É mais cômodo e mais fácil catalogar os outros como loucos, anormais, esquisitos, imorais e por aí vai. E é assim desde sempre. E será assim toda a vida. Ninguém aprende com o passado, com o passado tão presente e nem tão passado. Mal acabou de passar. O delírio coletivo pela busca da novidade emburrece as pessoas.

Frederico dorme na laje da casa olhando para as estrelas. Seu pai lhe dizia que o seu avô estava lá em cima, olhando e protegendo todos eles. Eles rezavam sempre juntos. Em suas preces, Frederico sempre agradecia o avô por tamanho zelo, mesmo estando tão distante e ao mesmo tempo, tão forte e intenso como a luz das estrelas. Nunca foi para cama dormir sem rezar antes os pais, que não eram católicos, mas acreditavam na força da natureza e na força do amor. O amor é o melhor alimento da alma, dizia sua mãe. Sem amor, só há o caos, dizia o seu pai.

No início o mundo era vazio e escuro. Até que o Sol surge com sua força iluminando os planetas. Da luz surge o amor, uma energia nova e criadora, capaz de transformar o universo e toda a vida residente nos planetas. Sem luz, nos perdemos e assim, perdemos. Desistimos.
Frederico jamais se esquece da teoria dos pais. Abraça as sucatas com se estivesse abraçando os pedaços dos corpos destroçados do pai, da mãe, do cavalo e do carro de madeira. Se sente amado, protegido pelo avô.
Frederico foi encontrado desmaiado entre os corpos estraçalhados dos pais, entre os restos mortais do cavalo enquanto abraçava o que restou da sua infância e do seu carro de madeira. Frederico foi para um orfanato.

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