A morte é seca como a vida é ingênua
O ódio é aterrador e tem muitas pontas
A amizade se enfraquece pela distância
De afetos e feitos que nos tragam esperança.

E que ânsia!
Ânsia de esquecer que um dia tive boas lembranças
Lembranças que abriram as janelas da alma
E trouxeram o clarear sobre estas lanças.

A morte se arrasta e se alastra como lama
Lama que nos tira o chão
O sentimento
A chama que nos alimentam.

Movediçam os pensamentos para longe
Afastam de mim toda essa graça
A alegria que me resta
E que agora me escapa.

O ar é infértil e não aspiram belos sonhos
As noites na tormenta petrificam o coração
Paralítico e gélido.
A água foi batizada por sangue de inocentes
Mulheres, jovens, adultos sonhadores
Trabalhadores e crianças.

A morte é seca como a garganta que espera a saliva do beijo
Como o deserto que are sem força e sem desejo
Desejo.
Estão querendo proibir o meu desejo
Como se o que quero tivesse nome e filiação
Ou partido e gênero.

Eu sou uma contraforça na contramão do ódio alheio
Eu respiro o suor e o cheiro dos seus cabelos
Se morrerei por isso,
Não creio.

Morreria se me sufocasse de medo
A angústia sempre é o verdadeiro preço
Daqueles que lutam.

Cinzas me restam como o fogo do desespero
Assim me afogo em pesadelos concretos
Em carnificinas de sangue de negros
Eu não sou a cor da esperança
Mas da resistência que me precede qualquer desejo.

Gosto do sabor dos corpos
Do calor que me molha o peito
Do sexo sujo e constantemente penetrável
Eu gosto das vadias, dos viados
E dos puteiros.

E assim vou vencendo a secura da morte
Lanças me atravessam o corpo esguio
E seco
De fome
De sangue escasso de paz
De alma carente de um dia de descanso e sossego.

Assim vou me matando
De poemas, versos sem medo e cheios de esperança
De palavras que ecoam liberdade dolorosa num mundo de tortura
De pensamentos sob ditaduras.

Mundo seco
Sem ar
Sem água
Sem ponte
Sem céu
Sem estrelas a brilhar.

Morro sem vento
Florestas sem pássaros
Arte sem verdade
Fotografias no escuro.

Aqui falta luz
Sobram janelas fechadas contra a lua
Contra as gotas de orvalho de poesia noturna
Falta vontade, desejo e coragem
Sobram vergonhas, covardias e manchas no espelhos.

A morte é-me seca como me custa a aceitar que o tempo que me falta
É só o único tempo que me resta.

Anúncios