Estou nesse barco.
Sobre a superfície de um oceano sem a luz cintilante do luar, eu fico parado. O barco ainda se move, mesmo que lentamente. Me move de algum lugar para alguns sentimentos e sensações. Ainda me sinto imóvel, impotente. É sempre bom lembrar que a impotência é uma das marcas mais perversas que o poder pode nos tatuar na alma. Avante nesta viagem lenta e quase inerte, estou a enxergar: luzes ofuscadas por raios escuros, monstros se movem de uma opção a outra, fantasmas se divertem com a minha tortura, os anjos femininos e os demônios masculinos me caçoam. Estão a gozar de meu semblante perdido, sem afago.

Estão certos. Os seres humanos não são tão pobres coitados. Há muito mais do que os nossos olhos podem ver, há muito mais do que os nossos ouvidos podem ouvir e com certeza, há muito mais do que o coração pode suportar.
Nuvens se deslocam como opções, a luz fraca da lua transita entre as trevas e o delírio, que é o sonho acordado na realidade. Ou toda a nossa vida não passa de pura alucinação. Há escolhas, mas não há muito o que se escolher. O corpo quer abrigo, afago, proteção, carinho.
É um menino num barco. É um menino sem pai nem mãe. É um garotinho solitário em sua navegação existencial.
Ele olha para o céu assustado, mas já acostumado. Não é o mesmo céu da infância, azul com nuvens vívidas entre arco-íris nos dias nublados. É noite sem estrelas. É escuridão quase total se não fosse pela a insistência da fraca luz da lua. Dizem que para chegar até a lua, é preciso enfrentar as sombras, perpassar nuvens trovejantes de medo e percorrer estradas que por vezes não te levam a lugar algum. Sinto que já passei por muitos destes percalços. Mas me ainda parece que há mais. Há mais sombras na escuridão do que eu supunha.
E avante nesta viagem que eu não escolhi fazer, nem pedi ao menos para entrar neste barco pérfido e furado, me vejo a naufragar em gotas de chuvas que caem em piedade sobre mim. Há um deus rejeitado lá em cima. Dizem que o seu coração é negro, obscuro, sombrio. Deus é melancólico. Eu me compadeço de sua dor e só desta maneira, somos cúmplices e amigos. Há um Deus no cotidiano, este claro e cheios de trânsitos e caos. Não é este Deus.
Há um Deus da noite. Das noites solitárias onde todos se confessam, se despem de crenças inúteis e se fodem sem culpa. Se fodem em transfiguração das leis criadas para acorrentá-los, e agora todos estes insones, perambulantes, viajantes do tempo, sonhadores da realidade e mercadores de ilusões úteis somente aos seus criadores, convergem em negócios justos. Não há moral nem culpa, sem castigo sem prisão. Todos estão livres, sem vigília ou condenação.
E este Deus da noite tudo condescende, porque é o deus da discórdia do Deus da manhã. A manhã, diz ele, é dos fracos. A noite é dos fortes, dos que não dormem por não conseguir fechar os olhos diante do terror que há, dos que se drogam de literatura ou de álcool para suportar a dor incurável de enxergar a vida como ela sempre foi. Mas ele também não é Deus dos coitados. É o Deus dos livres das amarras, das correntes e das forcas matinais. É o Deus do gozo noturno. Não há lástima, há troca de dores e prazeres, simultaneamente masoquista ou suicida, e todos se saciam entre suas zonas de melancolia e suas zonas de prazer e realização. Há desejo, há libido, potência e desilusão. A única crença é que este mundo não presta. E que diante das escolhas da falsa claridade da luz da manhã, o que temos que fazer são negociatas com os servos do Deus da luz prometida da morte e com os líderes do Deus da morte.
Não há como escapar.
Não há saída.
Só há um barco e um menino na penumbra, sem brilho inteiro do luar.
São as concessões que nos matam.
É a ordem que causa a desordem.
São as leis que transgridem os humanos.
São as esperanças que fortalecem o medo.
São as crianças que ao nascerem, são castradas de fazerem mudanças.
Somos crianças medrosas acostumadas a temer como se este fosse a ordem natural de todas as coisas.
Na noite ninguém teme, revela-se como é.
O menino afunda em seu barco depois de lastimar a perda de sua ilusão e inocência. Demônios, anjos, piratas, ladrões, loucos, drogados e prostitutas os salvam. Ele volta a respirar.

 

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