É possível ainda ouvir o eco da minha voz alterada aqui dentro de mim. Perturbando os meus pensamentos, desorganizando a órbita dos meus planetas, escurecendo o luar. Eu não gosto de gritar, ao não ser quando estou exaltado de alegria provida do álcool. Esta sim, me deixa em harmonia comigo.
Não gosto de gritar, nem de chamar a atenção. Mas o tom da voz ainda ecoa como uma desorganização do ar contra os sons emitidos por mim. Tenho medo de mim.

Sempre tentei fugir de figuras autoritárias que me marcaram no percorrer desta existência. No entanto, sempre há um veneno em nós, que se destilado como o álcool, e isso não é difícil, como por exemplo: une-se a raiva a tristeza, a indignação política a rebeldia do filho, o autoritarismo do chefe ao motorista que ultrapassou quase batendo no teu carro com a injustiça que façam usando o teu nome. Temos uma boa e ótima receita de destilação de um veneno. O veneno pode ser o ódio, a fúria, a ira.

O que fazemos deste ódio, desta fúria ou desta ira que nos caracteriza não só como humanos, mas também como animais, que nos coloca em extremos de nossa sensibilidade, é a questão a ser pensada. Corremos o risco de não usamos a boa e velha razão: nos perdemos no ato impensado, na fúria que podia ter sido evitada, ou na humilhação que fizemos o outro sofrer, se esquecendo de quem queremos ser.

É sempre bom lembrar que nunca somos, sempre estamos sendo algo, alguma coisa neste momento, ou nesta fase. Por isso é bom sempre termos um horizonte de quem queremos ser e buscar nos realizar dentro das possibilidades existentes sem cair num ideal de ego, obviamente, ou seja, sem se martirizar ou se culpar.

Afasto a sensação de uma alusão a um autoritarismo que poderia ter cometido (isto é, uma sombra, um fantasma que sempre me persegue) escrevendo. Esqueço as ondas de sons que contrariaram a falsa harmonia da noite, que está gélida e fria. Sempre tenho medo disso: me tornar uma pessoa fria.

A frieza elimina sempre o outro na dimensão de seu ser e de sua potencialidade existencial. Como sofri demasiadamente com isso, percorro esta estrada de lembranças que nunca dormem, e que por vezes também são a maior razão das minhas insônias. Escrevo para esquecer. Esqueço para não enlouquecer.

Este texto é um atestado de não-culpa. Sim, estou me despindo para saber se não estou me enganando, pois a literatura, sendo minha arte mais expressada atualmente, sempre me revela quem sou, por mais que não goste dos contornos que ela me traz, das formas e dos conteúdos que ela me apresenta à consciência. Muitas vezes, a literatura é um golpe na boca do estômago, e sim, sentimos a dor fisicamente. E como se não bastasse a dor física, sentimos a nossa vaidade e orgulho sempre se desfazendo em cinzas enquanto descobrimos que não somos tão donos de verdades, nem vítimas por demais e nem tão autores de nossas histórias.

Sim, há mais revelações escondidas nos recôncavos de nosso mar de mentiras sombriamente lindas inventadas para nos afugentar do que suponhamos conscientemente.  E nauseado, vencido pelas verdades que surgem através do inconsciente que se manifesta através dos signos das palavras, percebo que há escritores que fogem das palavras como fogem dos próprios demônios que alimentam e carregam dentro de si. Os demônios também são parte de nós, nos constituem e nos inspiram. A nossa força maior está em equilibrar o desejo de vencê-los e a potência que eles têm de nos esmagar com suas verdades sempre cruas e totalmente frias e sem compaixão.

A literatura é a luta de si contra si. E nesta arte, o inferno não são os outros, mas nós mesmos. A arte tem a potência de nos desnudar por inteiro, expressar aquilo que estava recalcado, que estava mortificando a nossa alma e fazendo de nós, reféns dos demônios escultores de sentimentos petrificantes no subsolo do cotidiano concreto.

Então este pequeno texto é uma tentativa de saber se fui autoritário e frio, como foram comigo. Muitos ao tentarem matar os próprios monstros, se tornaram estes. Sei disso. E não serei ingênuo de acreditar que não posso ser mal, detestável e absurdamente desprezível. Todos nós temos estas chances, estamos vulneráveis sempre. Sempre há uma, duas ou três portas abertas para este fenômeno autodestrutivo batendo em nosso peito diariamente, nos convidando: vem, vem, vem. Vem ser estúpido!

Eu sempre fujo. Mas sei que posso ser tão estúpido quanto ao estúpido que detesto e ao detestá-lo, posso usar das mesmas artimanhas que ele para contra atacá-lo, então serei estúpido e quem terá vencido a batalha será o meu inimigo. E sim, temos inimigos. Sempre, em toda vida ou geração.
Pode ser o seu colega de trabalho como pode ser o deputado ultraconservador cuspidor de ódio. Então lembrando deste último, percebo que não sou ele. Não usei as mesmas armas nem mesmo os jargões. E me absolvo. A consciência é o meu pior algoz.

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