As pessoas se cansaram. Todos estavam esgotados de suas crenças. Não havia mais a fé dos padres nem as dos indivíduos amedrontados por um deus qualquer. Os casamentos apareciam e desapareciam como uma correnteza  qualquer de um riacho. As brigas e disputas na política institucional estavam cada vez mais dualistas e monoqueístas. As amizades estavam cada vez mais  superficiais e rasas para dar conta da demanda profunda dos outros.

As pessoas se fecharam.

Uma sombra de pessimismo e melancolia pairava sobre a civilização da felicidade instantânea. O Deus Mercado logo percebeu isto. Mandou fazer milhares de pesquisas para constatar tais angústias destes seres perdidos entre si. E descobriram.

Lançam então, dentro de seis meses, uma produção que mudará o rumo dos destinos da humanidade: o boneco humano. Comerciais em tevê e rádios, outdoors, campanhas de publicidade milionárias na internet prometiam: o boneco humano é capaz de se adaptar  100% a você! Ele será a sua outra metade! Venham conhecer!

Não demorou semanas para as lojas lotarem de loucos desesperados por companhia daquele boneco que seria uma cópia de si mesmos. E o sucesso de vendas foi tanto que houve bonecos para até grupos de minorias sociais. Havia bonecos para gays, lésbicas, travestis, bissexuais, índios, mulheres negras, mulheres brancas, e muitos bonecos a preços acessíveis aos mais pobres, numa versão menos ‘plus’.

Os bonecos respondiam prontamente a tudo que lhes era demandado. Sendo humanos, podiam se apaixonar, transar, fazer filhos e morrer também. Mas tudo acontecia quando o seu dono exigia. E assim, os seres humanos pareciam ter encontrado novamente sua paz e harmonia consigo mesmos. Israelenses e palestinos não praticavam guerras e se ocuparam a amar cada vez mais os seus bonecos. Não lhes sobravam tempo para a guerra. O tempo agora era outro: era o tempo de amar. Os políticos conservadores e neoliberais norte-americanos estavam de férias de seus gabinetes. Líderes comunistas avançavam em seus grupos e eles nada temiam. As suas bonecas humanas estavam lhe causando tanto prazer que eles não queriam se importar com assuntos sérios. Nas revistas, jornais, rádios e televisores, a mesma notícia: A Revolução do Século! Os bonecos trouxeram de volta o amor aos seres humanos!

E de certa forma, o mundo estava mais ameno.

Os consultórios de psicanálise estavam vazios, os psiquiatras mandaram liberar todos os loucos, pois havia bonecos para eles se ocuparem de suas loucuras também. Os loucos que ameaçavam a vida dos bonecos eram mortos e assim decretava a nova lei norte-americana  a qualquer tentativa de desestabilização da atual vida contemporânea. Qualquer ameaça aos bonecos seria castigada com pena de morte!

Não podemos retroceder novamente a humanidade! Afirmou o criador da nova lei.

Os casamentos estavam durando, as amizades também. As empresas contratavam seus funcionários e seus bonecos para trabalharem juntos. Assim haveria harmonia entre eles e nada prejudicaria a sagrada produção nem as metas e consequentemente, os lucros. Reinava a era da paz.

Quando menos se esperava, uma grande notícia abalou o mundo: os bonecos estavam aprendendo com os seus donos a rivalizar-se com os outros grupos de ‘iguais’. Logo os prefeitos, governadores e presidentes de todas as nações se reuniram a fim de evitar um novo holocausto. Criaram cidades para cada grupo viver. Assim a antipatia não chegaria do outro lado.

E deu certo.

As pessoas estavam tão cegas com as suas próteses de felicidade que obedeciam a tudo sem questionar ou pensar. Várias cidades foram erguidas com grandes muros e vigiadas a fim de não haver nenhuma interferência entre eles. A ameaça à felicidade havia sido combatida com eficácia.

Nunca houve na história tanto prazer e alegria. As famílias só aumentavam e os bonecos cada vez mais trabalhavam para pagar as despesas. O sistema econômico se fortificou ainda mais. Os bonecos comprados geravam mão de obra, renda e empregos, fortalecia todas as outras indústrias de comunicação, indústrias farmacêuticas, de tabaco, de prostituição entre outros que se emergiam após este advento recente da tecnologia. A era da felicidade consumista gerou paz na economia. E na política, grupos socialistas enfim implantaram suas economias solidárias em seus grupos. Falavam para si e para os seus bonecos. Estavam fortes e contentes.

Venceram.

Os capitalistas estavam felizes por eles estarem quietos. Todo mundo estava feliz.

O que ninguém espera é que a natureza reaja de alguma forma como sempre acontece quando intervimos nela. O mundo estava feliz, mas estava produzindo mais lixo do que nunca, e assim a terra estava infértil e podre. As sementes dos alimentos não brotavam mais e a água estava muito poluída com as toneladas de esgotos nos mares. Uma era de fome e seca se atrevia. Mas como dizer para a era da paz que estavam diante do fim deles?

Empresários, políticos, padres, pastores, intelectuais e céticos se organizaram a fim de combater a tal desgraça humana. Resolveram buscar recursos em outros planetas a fim de se alojarem lá. Dez anos se passaram e as pessoas com os seus bonecos sentiam falta de alimentos nos supermercados, faltavam remédios nas farmácias, pessoas começaram a morrer de infecções e seus bonecos fieis acabavam morrendo também e todos os seus descendentes daquela ligação ‘pessoa x boneco’ morriam pois a finalidade deles eram se manter vivos enquanto suas metades estivessem vivas. Se um morria, morria uma cadeia de bonecos e assim, a economia indicava sinais de emergência.

Um alerta na tevê: O presidente dos Estados Unidos comunica a todos os países:

É hora de nos reunirmos, nos abraçarmos, pois estamos diante do fim da Terra e não há chances dela se reerguer. É hora de quebrarmos os muros para nos fortalecer diante das ideias que nos unem e não nos ideais que nos afastam. Chegou a hora das cidades se agruparem o máximo que puder e viverem cooperadamente, senão a fome, a sede e a miséria de todos nós chegará muito rapidamente.

As pessoas estavam surpresas. Como assim? Uma ameaça a era mais feliz da humanidade se atrevia a nos desunir?

Quem são os outros? Aqueles que não convivemos, que não falamos a mesma língua? O que eles podem nos fazer? Eles podem nos matar também? O que o governo está fazendo diante disso? E o Papa, não nos diz nada?

Os muros das cidades foram derrubados.

As pessoas se viam diante do próprio terror apocalíptico: É guerra, é fome ou é morte.

Todos começaram a se agredir e a se matar. Homens, mulheres, crianças, esquerdistas, direitistas, céticos, crédulos, heteros, homos, bis, trans. Todos estavam tentando se defender do outro que os ameaçavam. Foi a única guerra da História sem armas de fogo. Todos morreram. Enquanto tinha um em pé, outro se levantava e o derrubava até em seu último suspiro.

Os donos das fábricas, indústrias e outros meios de poder estavam aliviados. Missão cumprida. Produziram uma guerra sem mover um único soldado. Se não há como vencer a guerra contra a natureza, já  que ela insiste periodicamente em nos matar, eu que tenho que garantir o meu lugar. E assim fizeram todas as pessoas e seus bonecos: tentaram garantir os seus lugares. Agora há pouca coisa a se fazer. É só queimar tudo e mandar pra camada de ozônio.

Tudo há de apodrecer.

Tendo pouca gente na Terra, pouca coisa precisará sobreviver. E o que os donos da humanidade sabiam era que nada lhes faltaria, mas faltaria para todos. Então deram a chance da humanidade de se redimir. Mas ninguém foi educado para viver com outro diferente. Todos foram educados para viver em muros, grades e encadeados.

A Terra voltava a encobrir-se de sol e aos poucos a natureza se desdobrava para manter  em equilíbrio o que restou de ser vivo. Os poderosos brindavam solitariamente a vitória contra a estupidez humana. Vencia-se mais uma vez, uma outra etapa da condição humana.

Anúncios