Lendo um capítulo de estudo sobre moral, me pego estudando os estágios de desenvolvimento mental da criança segundo Piaget.
Percebendo que atualmente as pessoas não sabem conviver por diversas razões lógicas, políticas e históricas, me vejo diante de dois termos: heteronomia e autonomia.
Segundo Piaget, a criança passa da introjeção das regras morais impostas de forma passiva, ou seja, sem crítica para o estágio em que a criança, já na adolescência, começa a questionar e criticar as regras para adquirir sua autonomia.

O que vemos atualmente são crianças grandes no primeiro estágio que ele chamaria de sensório-motor, onde a criança não percebe nada no mundo além de si mesma. Nesse processo de aprendizagem, a criança segundo Piaget, passa da centralização do eu para a descentralização do eu. O que não vemos cotidianamente.
Diante da liberdade que nossos antepassados conquistaram a muita luta, sofrimento e mortes, nos vemos cheio de escolhas e responsáveis por nós em quase tudo. Isso gera angústias, que gera medo, que gera conformismo.

Mas o conformismo não é algo tão fácil de aderir. Nos espaços de sociabilidade, ou seja, casa, igreja, escola, padaria, clubes e etc, aprendemos a respeitar o nosso semelhante. Mas o nosso semelhante tem cor, raça, credo, orientação sexual, gênero e classe social. Os que pertencem às nossas semelhanças, tentamos respeitar, pois vivemos no mesmo espaço e tempo. Na verdade, nos vemos obrigados a respeitar. O respeito não é algo dado naturalmente, mas conquistado no ponto de vista moral e econômico.

Aprendemos que há uma lógica: a diferença. E ser diferente infringe as regras impostas lá na infância quando meninos, queremos usar salto, ou brincar com bonecas e meninas querem pilotar carrinhos e jogar futebol. Este é um dos milhares de exemplos a serem dados.

Ao passo que temos que nos sociabilizar para obtermos certificados como: alfabetizado, empregado, casado, pai, aposentado e etc, vamos nos sujeitando as regras que imperam em nós desde a infância. Queremos questionar, principalmente na adolescência, mas somos derrotados. Poucos sobrevivem sem demasiadas sequelas as marcas da rejeição por serem diferentes da maioria.

Há naturalmente em todo o sujeito um desejo que contraria as normas pré-estabelecidas, mas temos que nos inserir nos espaços de poder como a escola, a igreja, o trabalho e o lazer, aonde há os donos dos espaços de lazer também nos vigiando.

Nos sujeitamos a seguir as regras para sobreviver, ou seja, comer, beber, dormir, namorar, trabalhar e projetar um futuro minimamente digno. Mas para isso não se pode questionar. Quem questiona infringe uma regra gravíssima: a regra do silêncio. Não se pode esquecer que as forças que nos controlam socialmente são autoritárias e por isto temos medo do preço a pagar. Voltamos para aquele estágio de heteronomia, só que sabendo que há algo errado que não se pode manifestar. Ai surge a nossa sagrada hipocrisia, o que não é o caso agora a discutir.

Para adquirirmos os nossos bens, sermos aceitos, então nos vendemos ao preço que nos sugerem no mercado e então, prostituímos nossos pensamentos, questionamentos e indagações. Prostituímos o nosso ego a serviço do comércio clandestino das nossas personalidades. É o que encontramos nos bastidores do trabalho, da nossa casa, das relações entre amigos entre outras.

Não há exatamente um desejo de ser tão aceito, apesar de haver muitas pessoas ainda assim, mas há também um jogo de poder que interrelaciona o social do indivíduo que se sujeita aos assédios impostos pelas instituições. Há o que chamamos comumente de barganha. Mas nesse jogo de linguagem, acabamos por nos conformar que a vida é esta mesma. É assim e sempre foi e sempre será. E o que temos são personagens de nós mesmos interpretando papéis muito diferentes do que queríamos ser quando éramos mais jovens.

O social nos estupra e nos violenta. Não importa se o indivíduo é ético ou se ele tem apreço por aqueles que vivem abaixo da classe dele. O que importa é que ele não desestruture esta linguagem: a do silêncio que nos mata, nos aniquila a subjetividade e nos esvazia ao tal ponto que ficamos doentes psicologicamente, fisicamente podendo vir até a não tentar enxergar nada além do que se sente e o que se vive. Os horizontes se fecham. Nós nos fechamos em todos os sentidos, seja no trânsito, em apartamentos, em clubes de elites, em escolas para ricos chegando até a morte da nossa subjetividade. Não pensamos mais e passamos a reproduzir o pensamento pronto, como comprar um hambúrguer no Mc Donalds. E se fechando para as possibilidades, nos tornamos conservadores, amargos e até fascistas.

Por ter que obedecer ao custo da nossa sobrevivência, aderimos a lógica do assédio, da violência contra o outro que é diferente e até com aquele que antes eu enxergava como semelhante. Voltemos ao estágio sensório-motor, onde as crianças nada mais enxergam do que si mesmas. Mas esta é a lógica capitalista, na qual o país com sua maior ideologia, os EUA, nos dá muito exemplo deste individualismo grotesco norte-americano.

Então acabamos por não desenvolver a nossa autonomia. Se para sobreviver eu tenho que rigorosamente obedecer, logo o que penso, desejo e sinto como diferente é condenável e logo serei excluído, pois é assim desde que a História é História. A cultura promove atualmente o egocentrismo, a lógica servil da heteronomia enquanto nos vemos infelizes nos casamentos, namoros, trabalhos, família, escola, faculdades, igrejas. A lista é enorme.
Estamos na era da depressão não é a toa. Fingimos nas redes sociais, nos bares, nas conversas entre uma pausa e outra no trabalho e fingimos que está tudo bem.

Acordamos e tomamos o anti-depressivo, durante o dia aquele remédio para gastrite e para dormir, um ansiolítico.
Na submissão ditatorial não há voz para quem está vivo, só o barulho e o silêncio dos mortos.

 

 

Anúncios