Todo mundo está buscando manter a sua sobrevivência. E neste percurso, nos perdemos daquilo que acreditávamos ser e aquilo que nos tornamos.
Não sei porquê te escrevo, já que nunca quis saber de mim. Mas sinto que deveria te contar algo sobre esta minha detestável vida. Eu ganho ela escrevendo cartas para pessoas iletradas na Estação de Metrô Ana Rosa, aqui em São Paulo, onde no inverno as pessoas ficam ainda mais frias do que o habitual.

São Paulo é pura solidão coletiva e compartilhada em smartphones. Não recebo muito, mas consigo pagar a maior parte do aluguel, que é muito caro. E para complementar a minha renda, ajudo o policial Tim a recuperar crianças abandonadas aqui na estação e encaminhá-las a uma instituição de menores abandonados no Rio Grande do Sul, a fim de adoção.
Dizem que ele está envolvido em um esquema de tráfico de órgãos de crianças para os Estados Unidos, quando não vende elas para um grupo de pornografia infantil na Rússia.

Eu não quero saber disso. Quem muito quer saber, acaba sabendo demais. Eu penso que estou proporcionando a elas algo que nunca farei, como esta viagem aos Estados Unidos. E no mais, elas estariam aqui abandonadas pelo Estado, morrendo de frio e de fome, além de solidão e abandono. Eu estou ajudando-as, não é?
Nestes momentos eu lembro nitidamente de um de seus ditados mais proferidos quando ainda me considerava seu filho: para toda alegria, uma dor e para todo prazer, uma tristeza.

Eu que nunca imaginei, tenho por vezes o poder de decidir a vida de outro ser humano. Eu pensava que isto era algo que só policiais, juízes, advogados teriam. Me enganei e me subestimei. Todos são responsáveis uns pelos outros. E não dá para escapar disso. Não dá para escapar da responsabilidade que surge como uma condenação depois. Se ao menos eu fosse só responsável por mim, estaria mais leve neste momento, sem este demasiado incômodo que me faz escrever pela primeira vez nestes 25 anos de silêncio, rejeição e mutismo entre nós.

O que me pesa são estas ofertas que a vida nos oferece a todo tempo. Há muita demanda e eles se aproveitam disto para se fortalecer, talvez. Ou fortalecer aquela corrupção que cada um carrega dentro de si dada às circunstâncias sociais que tanto naturalizamos e relativizamos em atitudes, opiniões e crenças. Com o mínimo poder que nos resta, nos vendemos a primeira oferta sem questionar o valor do poder que temos. Não sabemos o que fazer com o poder, então passamos a responsabilidade para o outro, pois gostamos da posição de demonização dele. O poder é útil, só precisamos saber usá-los ao nosso favor.

Não sei porquê digo todas estas coisas à você, que com certeza já deve ter desistido de ler esta carta já no segundo parágrafo, e isto já teria sido muito da sua parte. Ninguém pode me julgar. Nem Deus, principalmente ele que tudo vê, a tudo condescende, sendo ele tão onisciente também, nada faz para interromper todo esse prazer de nos ver sofrendo. Esqueci que a senhora é muito cristã, me desculpe a heresia. Também me indigno com quem me julga a partir do seu berço de ouro, de sua classe abastada. Fazem seus discursos a partir de uma sala com ar-condicionado sendo servidos por garçons negros e pobres que mal têm um curso profissionalizante no currículo. Tudo parece perdido. Dolorosamente perdido.

Então peço sua autorização para dormir, já que dos meus dois genitores, você deve ser a única viva. Eu sei que você me rejeita porque sabe que tenho muita chance de ser que nem papai, esquizofrênico. Se você tivesse cuidado dele quando ele tinha aquelas crises, talvez ele não tivesse se suicidado. Sinto falta do calor do abraço dele quando ele estava bem. Você também não sente?

Ainda me dói aquela noite em que você me trancou no banheiro a fim de me castigar por ter te acordado de madrugada por causa daquele pesadelo que me assombrava durante vários dias. Aquelas doze horas foram cruciais para que eu viesse a evitar qualquer tipo de envolvimento profundo com as pessoas. Como você, não gosto de ser tocado, abraçado, acariciado e nem beijado. Algumas pessoas acham que eu sou gay. Mais um adjetivo que se alimenta de boca em boca na estação. Eu não ligo. Já estou ocupado com outro incômodo. Talvez eu nunca tenha te pedido desculpas por ter te irritado tanto. Eu não sabia que você iria ficar daquele jeito. Não queria que ficasse. Não era a minha intenção.
Me perdoe, mãe. Jamais aconteceu de novo, como você notou.

O acontecimento que ocorreu e que me fez pensar sobre tudo isso foi o fato da polícia federal ter encontrado a criança que eu entreguei ao policial militar da estação, morta atrás de uma caçamba de um caminhão. Entre vísceras e vermes, havia um papel com uma imagem do parque estadunidense Walt Disney. Estão procurando os envolvidos nesta operação que já tem sido investigada em vários países. Trata-se de uma máfia internacional bem orquestrada por políticos, jornalistas, policiais, juízes e até pessoas envolvidas em Conselhos Tutelares e orfanatos. Temo ser preso, mas não me importo tanto com esta liberdade que tenho que mais se parece com uma prisão da qual eu nunca consigo sair.

Quero saber de você. Que culpa tenho eu? Eu sou realmente responsável por isso também? Sou inocente ou sou cúmplice? Sou tão bandido quanto eles ou sou mais um otário que se vendeu a pouca dignidade que se tinha?
Dói-me, mãe pensar que eu tive a chance de evitar. Que eu tinha em minhas mãos o poder de evitar isto. Nunca me sensibilizei com as mortes de adultos. Mas esta criança, eu não sei, parece que sou eu. Parece que eu me matei. Me esmaga todas as manhãs e noites solitárias pensar que tive a chance de mudar a vida daquela menina de tranças mal feitas. Diante das circunstâncias, ainda me sobrava algum tipo de liberdade: a escolha. E nestes momentos, a escolha é poder. Eu que odeio o poder, detesto quem está exercendo ele e tenho nojo de quem o defende. Que escolha eu poderia ter feito?

Tenho eu, uma mínima liberdade? Uma mínima força e um mínimo poder e responsabilidade para exercer? E você, mãe, o que fez com a sua mínima liberdade, força e poder? Fez o que eu fiz?
Tenho medo de nós. E nestas horas, sinto medo do mundo, pois sei que é muito fácil usar qualquer força que temos contra nós mesmos. E sinto nojo de mim. Sinto nojo de você também, e me perdoe por sentir isto.

Talvez eu desconte em todos a falta de responsabilidade que tiveram comigo e agindo assim, me vingo da própria dor que ressinto e carrego todos os dias. Talvez a cadeia seja um bom lugar para os que se venderam diante da pouca liberdade que tiveram. Não sei se estou sendo justo ou só me castigando demais por ter agido como você.
Então peço que me dê alguma resposta.
A prisão que vivo desde que você me deixou trancado naquele banheiro e naquele orfanato tem me tornado um ser que não sente amor e não se permite vivê-lo, não gosta dos bons afetos e não gosta de quem os exerce. Sou seco. Não choro e nunca peço ajuda ou me humilho diante de alguém. Prefiro a morte do que qualquer tipo de humilhação.

Eu sei que sua resposta não vai parar as investigações nem vai me santificar. Nem tampouco vai me absolver se descobrirem que eu trabalhei cotidianamente para que várias crianças tivessem este destino. Talvez o seu perdão, a sua palavra resgate em mim aquela criança que você matou nas dez horas de escuridão entre ratos e entulhos da nossa casa velha. Talvez eu acorde ela daquele pesadelo e abrace-a. Talvez eu cante uma canção de ninar até ela adormecer e voltar a dormir. Quem sabe ela reaja, acorde bem no outro dia e volte a sonhar?
Diga-me mãe que posso fazer isto. Porque desejo profundamente e este é o meu único pedido em todos estes anos de solidão e frieza.
Não suporto mais sentir tanto frio e abandono.
Não suporto mais viver preso dentro deste mundo cheio de medos.
Será que você pode me resgatar?
Será que se importa?
Será que ainda gosta de alguém?
Não tenho boas lembranças do passado e não consigo enxergar uma boa previsão de futuro. E o presente é isso: pura tortura entre o rosto que era meu e o rosto que me desfiguraram. Eu sei que você acha ridículo tudo isso que lhe escrevo, já que uns nascem para sorrir e outros para sofrer, né?
Mas quem decide quem vai rir e quem vai sofrer?
Quem tem esse poder?
E em nome de quê e na qual razão justificável as pessoas merecem tais privilégios e sanções?

Ressuscite-me ou me condene eternamente.

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