De frente para o mar, eles riem e fumam depois de um dia intenso de caça. Dá para sentir o cheiro da refeição sendo preparada por suas esposas. Eles têm sorte. Elas são bonitas e prendadas, apesar de não fazerem sexo regularmente. Mas estão sempre limpas e cheirosas quando eles chegam. Então eles tragam os seus charutos e contemplam o dia e a vida que anoitece.

As toalhas brancas estão sendo postas na grande mesa, como de costume nos dias 13 de todo mês, eles se sentam do lado de fora de casa e jantam com os vizinhos, como sinal de fraternidade e prosperidade em suas vidas. O vento balança intensamente o tecido contra a mesa. Os fazendeiros vizinhos já estão chegando. As crianças correm para ver o que tem na mesa. Antonieta organiza os talheres, os pratos e os copos à mesa. Rebeca termina de despejar toda a sopa feita durante a tarde em copos feitos de barro. Todos estão às postos na mesa.
Antonieta sai da cozinha sorrindo dando as mãos as crianças. Amâncio lhe sorri. Ela foi um bom negócio.
O marido de Rebeca lhe pede um beijo. Ela lhe dá, mesmo com um semblante amargo. Nicolas não liga para essas cenas da mulher. Se casou com ela sabendo que ela era dona de um temperamento difícil.

Todos estão rindo, meio embriagados. Os fazendeiros parecem bem abastecidos com suas barrigas grandes. Suas mulheres parecem sorrir somente naqueles dias em que a etiqueta impera mais do que a vaidade e a dignidade de seus egos. Começam as piadas contra mulheres, negros e gays. Amâncio diz que se casou com uma boa égua, que Antonieta era bom no galope e bom para dar leite como uma vaca.
Antonieta abaixa a cabeça. Ela pede que os filhos vá brincar na sala da casa.
E eu casei com uma sapatão! Minha mulher quase não transa comigo e não pode ter filhos! É uma vaca estéril! Diz Nícolas, rindo enquanto todos à mesa o acompanham na gargalhada. Rebeca entra para a cozinha na mesma hora. Antonieta a acompanha.

As duas preparam a sobremesa: um doce de abóbora que suas avós lhe ensinaram. O doce era famoso por fazer os homens se casarem com as mulheres mais encalhadas daquela região. A lenda regional diz que o doce foi produzido por uma bruxa no mais alto cume daquelas montanhas solitárias e frias. Dizem que a bruxa era uma mulher que havia se tornado um homem por não ter casado quando jovem, então ficando velha e sem marido, Deus a puniu por não obedecer as leis que a sua natureza lhe ordena. Então ela realizava feitiços através dos doces para ajudar as mulheres a se casarem, pois só assim ela poderia obter o perdão de Deus e voltaria a ser mulher de novo. E através das religiões pagãs, o doce foi chegando até nas casas das famílias decentes. Mas o doce era tão bom que passou a ser ritual em todas as casas. E deste segredo, só as mulheres podiam saber, senão temiam perder os seus maridos.
O doce ficou popularmente conhecido na família de Antonieta como o ‘doce da benção matrimonial’ e sua mãe lhe dizia que só podia fazer este doce quando quisesse se casar com um belo homem e se fizesse duas vezes com o mesmo homem, ela perderia o seu marido e se tornaria um homem também.

Todas as mulheres daquela região escondiam este segredo. Dizem que algumas fizeram o doce para os seus maridos novamente e elas então desapareceram entre as montanhas. Está pronto! Diz Antonieta à Rebeca. Já podemos servir!
As duas saíram da cozinha felizes.
Seus maridos estavam gritando por elas. Vocês duas estão acasalando, ué? Gritou Amâncio, rindo juntamente dos convidados. Sim! Disse Rebeca, rindo.
Aqui está. Prontinho!
Os convidados pareciam não ter comido naquele dia. Devoraram a sobremesa como quem estava preso em uma selva sem alimentos. Me dá um beijo, querida. Você ainda serve pra alguma coisa, diz Amâncio com um meio sorriso.
Rebeca sorri pra Antonieta.
Todos começam a vomitar, de repente.
E em segundos, todos começam a cair, um por cima do outro enquanto sangram pelos seus narizes e bocas. Foi questão de mais dez segundos e todos estavam calados.
Um silêncio geral pairou no quintal.
Paz.

As duas arrastaram os corpos envenenados até o mar. Deixou que as ondas levassem até os tubarões os corpos podres de espírito. E abraçadas, Antonieta e Rebeca começaram a viver juntas no mesmo lar onde os bons afetos se agrupavam e aqueciam os corações até nos dias mais violentos de inverno. Pela primeira vez elas se sentiam em família e donas de suas histórias.
Os tubarões também morreram envenenados.

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