Os afetos são aprendidos, são compartilhados entre pessoas. Os afetos fazem parte de processos de cognição e formação subjetiva. Aquele que experimentou o amor responde com amor, aquele que experimentou o ódio responde com ódio. Amar se aprende amando. Odiar se aprende odiando.

(Trecho do livro ‘Como conversar com um fascista – Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro’, de Marcia Tiburi, 2015, Ed. Record)

O ódio tem ganhado cada vez mais espaço entre nós. Vemos a espetacularização do ódio na tevê, nos rádios, nos jornais televisivos e impressos, nas escolas, nas igrejas, na publicidade e principalmente na política brasileira, que digamos está bastante em alta atualmente, mas numa versão ‘celebrada’ através de discursos proferidos em telejornais por jornalistas que defendem a pena de morte, seja obtendo ‘likes’ em vídeos e falas em redes sociais, seja compartilhando falas de políticos que incitam o estupro e defendem a violência contra gays, negros e mulheres.

O ódio ao outro é antigo, portanto cultural, principalmente na lógica ocidental. Está germinado desde o princípio da identidade em Aristóteles perpassando pela literatura, pela música, pelo cinema, pela própria filosofia e de geração em geração é difundida principalmente dentro das famílias. No filme A Fita Branca, de Michael Haneke (Das Weisse Band, 2009) isso fica evidentemente explícito. O ódio ao outro surge quando uma autoridade abusa de sua posição e violenta o outro em sua subjetividade, ou seja, esvazia o outro de acordo com o que ele pensa e sente com relação a si mesmo. Fica claro, que uma criança ao não saber lidar com seus desejos, emoções, sentimentos e sensações fica a mercê do ressentimento adquirido através da autoridade que lhe proibiu que estes, naturais a todo ser humano, sejam exercidos sem conflitos. Portanto, há em todo fascista, um ressentimento, um recalque por não poder se expressar e ser do jeito que lá no começo ele queria ser. Ele foi interrompido de ser, esvaziado em sua subjetividade por quem lhe ‘educou’, ou seja, não se trata só da família, mas de um contexto bem amplo socialmente com base na lógica da negação e demonização do outro. Em toda a história do Ocidente houve o Outro negativo: o inimigo, o mal, o vilão, o diabo, a mulher, o gay, o negro, o índio, o pobre.

O que está em jogo no atual cenário político, ou anti-político brasileiro é o ódio, e ao contrário do que costumamos pensar, o afeto contrário ao ódio não é o amor, é o desejo. Pois todo fascista foi violentamente proibido, censurado e cancelado em sua subjetividade e o seu processo cognitivo foi ‘danificado’, ele foi impedido de se expressar conforme ele ‘estava sendo’ lá na infância. Ou seja, o fascista é alguém que deixou de ser o que poderia ser para ser aquilo que a autoridade autoritária lhe impôs.
Em todo processo social, a criança quer ser aceita pelo seu meio. É o que acontece com uma criança que quer a aceitação de seus pais, de seus amigos, do padre, do pastor, do professor. No entanto, o impedimento subjetivo da criança de exercer os seus afetos saudavelmente impede que ela se sinta bem consigo e com o seu corpo. O fascista não sabe lidar com suas emoções, sensações e sentimentos, vide Hitler que apanhava do pai, que não queria que o filho fosse pintor e sim, funcionário público. Com a morte do pai, Hitler se sentiu esperançoso para estudar na escola de música Belas Artes de Viena, mas foi duramente reprovado duas vezes. E com a morte de sua mãe por câncer de mama, ele atribuiu a culpa da morte dela ao médico judeu.

Fica evidente que a educação fria, dura, indiferente e prepotente causa ressentimento e inveja, este que é um afeto recalcado enquanto um desejo reprimido violentamente. O autoritário em sua prepotência determina tudo que o seu subordinado deve obrigatoriamente fazer, sem questionar e pensar. De acordo com a filósofa Marcia Tiburi, podemos medir o nosso grau de fascismo diante da nossa incapacidade de nos relacionarmos com a nossa própria dor. Esta dor que é da nossa própria narrativa histórica e pessoal de vida, que é e está muitas vezes sucumbida. Ou seja, dependendo do grau que ignoramos a nossa dor, ignoramos quem realmente somos, perdemos a chance de pensar em quem nos tornamos a partir desta autoanálise. E cancelando esta reflexão, ignoramos a dor do outro e consequentemente, não enxergamos o outro, pois não estamos enxergando a nós mesmos. Daí, que surge o título do livro ‘Como conversar com um fascista’ pois este não dialoga consigo mesmo, portanto não está aberto ao diálogo com ninguém, pois está fechado, recluso, amedrontado e morto em si mesmo e em sua forma restrita de enxergar o mundo. Diante de um indivíduo morto subjetivamente, o que nos resta é não nos tornamos também fascistas, uma vez que esta ordem já está dada em nossos dias e propagada, divulgada e publicizada em todas as esferas do campo comportamental através de nossas relações sociais na escola, nas empresas, nas igrejas, em casa, nas redes sociais, nos meios de comunicação de massa e no atual cenário político institucional. Que o diálogo seja a nossa resistência e a lúcida perspectiva para sairmos deste obscurantismo social que enreda um projeto econômico ainda mais neoliberal através da manipulação dos nossos afetos.

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