Enquanto ele é conduzido de volta para a sua casa, tem medo de que o motorista se irrite de tal forma com o passageiro que lhe agride verbalmente e publicamente ao ponto do trabalhador perder o controle da condução.
Nunca foi acolhido nestes trinta anos de percurso de vida. É o que ele sempre ressente quando começa a pensar na sua vida.
Neste exercício anamnésico, ele se reencontra com a sua dor. Aquela coletânea de dores sufocadas e sucumbidas que o faz ter atitudes monstruosas diversas vezes. Então ele para de pensar e foge de si mesmo. Tem medo de se enfrentar e tem medo do que pode vir-a-ser e a não-ser depois disso. Está acostumado com as coisas do jeito que são. Como já cantava Tim Maia: ‘Na vida a gente tem que entender, que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri’.
Ele sempre lembra disso quando lembra de sua dor.

Sempre se sentiu inferior por demais na relação com os seus pais, irmãos e familiares. Era como se tudo que fizesse fosse inútil e horrível. Nunca obteve um elogio nem um abraço nos dias de seu aniversário. Bem mal um ‘feliz aniversário’ em que os olhares do enunciador e do ouvinte não se encontravam nunca. Seus castigos eram sempre ajoelhados no milho até que sangrassem seus joelhos, além de ficar sem refeições durante o dia todo. Sua mãe lhe dava pão e água para sobreviver.

Nas terapias, ele sempre relutava em expor seus medos e fragilidades. Isso lhe aprecia coisa de menina. Não foi isso que os seus pais os ensinaram. Apesar dele estar fazendo terapia por causa do conselho do pastor da igreja. Seu pai achava que isso era coisa de doido, mas o pastor convenceu-lhe que era algo muito comum hoje em dia e que isso levaria o Rodrigo de volta para Deus, pois o rapaz estava cada vez mais isolado das pessoas.

Fechado em sua dor, Rodrigo sabotava-se sempre. Não aceitava a verdadeira narrativa de si que estava sempre se emergindo contra a sua consciência já coisificada. Ele sempre escolhia o pensamento mais fácil e comum. Aderia facilmente ao que era mais falado e pronto, já não precisava mais pensar nem refletir. Refletir é ir de contra a nossa própria escuridão de ignorância e relutar mesmo nas sombras de nossas dores. Ele já estava ferido desde criança e não se livrava do peso do ressentimento que nutria por seus pais, seus superiores no trabalho, na igreja e na faculdade. Rodrigo se apagava cada vez mais e desaparecia no horizonte de si mesmo. Não parava de cavar um buraco cada vez maior para poder se esconder de seus próprios medos.

Certa vez, passou com o seu pai em frente a uma boate gay próximo de seu bairro. A boate gay era a primeira da cidade a ser inaugurada na história do município. Ele se ofendeu profundamente e disparou falas odiosas àquelas pessoas que se encontravam ali. Seu pai concordou e disse que os gays deveriam morrer, já que estavam excluídos dos reinos dos céus e que jamais entrariam nele. Se eu estivesse trabalhando, mandaria o dono desta pouca vergonha pra cadeia, diz o pai de Rodrigo que é um policial aposentado. Mas as autoridades de hoje em dia perderam a decência e a moral da família e do cidadão de bem. Na minha época isso não existia e se existisse a gente dava um jeito. Concluiu.

Rodrigo ficou perturbado com o que viu e sentiu. Uma enorme confusão de sensações e pensamentos difusos o deixara sem dormir por vários dias. Até que teve uma ideia. A sociedade anda muito perdida e sem valor, é o que a sua mãe sempre lhe diz. O pastor começou a pregar sobre o homossexualismo durante os cultos dizendo que Satanás agora está mais próximo do bairro antes conhecido por seus valores tradicionais e por sua gente de bem. E exclamou: Estamos em risco! Temos que alertar todos os moradores e reclamar com as autoridades! Vamos fazer um baixo-assinado pedindo o fechamento deste estabelecimento de promiscuidade e prostituição e perdição de nossos moradores! Aleluias?!
Os fieis concordaram gritando aleluias.

Aqueles gays estavam sujando a imagem dos homens. Isso não era justo. Se eles quisessem se perder, que usassem suas próprias roupas, mas não desonrassem os homens e a história que todos estes construíram através de suas forças e masculinidades. Aquelas vestimentas eram uma afronta, um deboche aos bons costumes da família cristã e a moral da sociedade brasileira. Quem são eles para transgredir as ordens e as leis naturais de Deus?
A sua ideia era dar uma lição ao país sobre o que se deve preservar nesta sociedade que anda perdendo o seu senso de dignidade e respeito próprio, já que as autoridades nada fazem pelos cidadãos que honram com os seus antepassados e história que os precederam através de muitas lutas contra o comunismo pervertido e liberal.

Ele sabia que tinha uma missão e que deveria ouvir esse chamado de Deus. Ele sentia isso. Não quis falar com os seus pais e nem com o pastor. Queria ser lembrado pelo o que fez para sempre, como Jesus fez por ele. Se Deus é por nós, quem será contra nós?
Ele tinha um aval divino e social. Era só pôr em prática a sua vitória sobre este mundo pérfido e sem salvação. Pegou a arma escondido do pai e foi até a boate. Antes escreveu num bilhete uma mensagem para a nação:
Arrependei-vos enquanto podes. Jesus me chamou e eu vim como Abraão foi para o monte matar o seu filho por amor e temor a Deus. Eu escutei o Seu chamado e vim. Que isso sirva de mensagem à todos cristãos deste país e de todo o mundo.
Rodrigo.

Ao entrar na boate, uma sensação de igualdade o tomou. Viu-se naquelas pessoas o seu ‘eu’ abandonado por ele desde que ele se negou a falar com a sua dor. Viu o seu reflexo abandonado como tem feito desde que se negou a narrar a sua própria história a partir da liberdade que deveria sentir e o que não viveu por causa dos medos impostos sobre ele na forma de autoridade e proibição sobre os seus afetos. Era uma questão que ele não havia pensado. Sabendo que aquele lugar estava habitado por Satanás, Rodrigo disparou diversos tiros sobre as pessoas que dançavam, conversavam e se beijavam no salão da boate.
Seu papel na Terra estava cumprido.
Ele sentiu que Deus o agradecia de dentro do seu coração.
Disparou contra si sorrindo.

Foram 50 mortos e 53 feridos.
As mídias locais criaram várias manchetes nos jornais, rádios e telejornais com a pergunta: Um mártir da igreja ou um psicopata da sociedade?
Campanhas em solidariedade as vítimas foram criadas nas redes sociais e campanhas de honra ao mártir também. Nas redes sociais, este foi o assunto mais comentado. Hashtags como #MaisAmorMenosÓdio circularam o dia inteiro com fotos de homossexuais mortos durante o ano inteiro no Brasil. Mas também outras campanhas virtuais como #RodrigoNossoMártir repercutiu com muitos tuites e frases em Facebook. Deputados elogiaram a conduta do mártir cristão e outros lamentavam a tragédia que mais uma vez vitimizava a comunidade LGBT.
A família de Rodrigo criou uma campanha no Facebook com a hashtag #FechemAsBoatesGays na qual os fieis da igreja se organizaram para mostrar as autoridades públicas que aquela boate só traria malefícios aquela cidade.

Até o momento, nenhum dos mortos voltaram a vida.

Este conto faz parte do livro ‘Contos pela Cidade – Almas aflitas no subterrâneo do concreto’ disponível para venda em download no site Amazon do Brasil. Clique aqui e adquira o seu exemplar por R$ 3,17 apenas : https://www.amazon.com.br/dp/B01K3OEU3A

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