Encontrou sua alma pela manhã numa xícara de café quente. Era o que ele buscava todos os dias. Como se manter sem se vender? Como se encontrar no labirinto de ordens?
As demandas são ditatoriais e eternas. Ele tem desde criança um desejo de voar. Mas voar é para os loucos. Os insanos morrem presos. Mas e estes que gritam lá de cima não estão presos demais em seus discursos?

Toda manhã era o mesmo conflito. Como estar sem deixar de ser?
Ele então teve uma ideia. Iria colocar café quente numa xícara branca e iria fitá-la até reaparecer. Na angústia, medidas de emergência são cruciais para a sobrevivência de sua existência.
O nó do cotidiano sobe até a garganta congestionando a passagem do fôlego da vida.
Todos estão caindo. Um por um em fileira como num tabuleiro cheio de dominós. E viagens, carros, outdoors, crianças, adultos e animais morrem. Ficam só as promessas.

Ele desesperadamente tenta se segurar em tudo que parece ser real e verdadeiro. E quando se engana, paga com juros as suas lágrimas que caem como crédito num mercado abastecido de dor e sofrimento dos que têm pouco.
‘Todo mundo tem seu preço’. Disse uma vez um conhecido. Ele sabia que tinha um preço. E que estava em promoção desde a escravidão. Uma morte súbita não comoveria a população. Afinal, nós nascemos para prestar serviços e morrer mesmo. Nada se espera dos ‘de cor’.

Quando começasse a pensar assim, jurou ir até a cozinha do trabalho e rapidamente servir café para si mesmo. O cheiro forte e agradável dos grãos torrados lhe dava a sensação de que estava a salvo. Ao olhar para a xícara e ver o café parado com sua espuma na borda era como se devolver. Era como retornar ao corpo. Uma espécie de passagem da alma para a matéria desaparecida. Assim ele ficava em paz.

O café era o seu objeto simbólico da poesia. Através de muitos cafés ele fez várias viagens para dentro e fora de si. Essa era a melhor sensação de viver. Mas o mundo não pertence à poesia. Sendo ela, fruto deste jogo sujo que denominamos mundo. Mas a poesia, por amor ao mundo oferece uma alegria num comboio de emoções que nos levam para um outro lugar. Um lugar onde o silêncio reina para que o som que seja produzido seja agradável. Para que quando ao falarmos, sejamos empáticos e solidários. E quando houver música, que seja para transcender a alma e o corpo.

Em casa, o café lhe servia como portal para a infância. Onde sua inocência ainda era viva. E mesmo diante do fascismo familiar, ainda consegue gostar de gente e gosta de amar. Principalmente as crianças. Quando seus sobrinhos chegam da escola, ele oferece abraços, beijos e amor. Entrega papeis, canetas de colorir, tesoura para recortar, canetas para desenhar. Ele acredita que ensinando a criar, estes pequenos aprenderão que este mundo pode ser recriado a partir das próprias criações delas. A arte nos ensina a sermos autônomos.

Sim, ele sonha.
E sempre foi assim: um sonhador incorrigível. Incurável.
Em seus pensamentos perdidos através das notícias que escorrem por tantas telas, ele prefere o silêncio do devaneio.
Devaneia-se livremente enquanto cala os demônios de seus traumas.

Se os medos ganham total força, os pensamentos acabam sendo financiados pelo terror do caos. Daí confunde-se pavor com imobilidade, estranheza com senso comum e ignorância com prepotência. E ele só quer se sentir livre.
Livre em seu corpo e em suas ideias. Mas sabe que não dá para fugir da prisão dos horários que nos amarram as instituições onde nós não passamos de crachás falantes. Crachás que não falam nada de importante.
Então ele toma três cafés ao dia.
De manhã ele se encontra.
À tarde se devolve.
À noite se reconecta com o Universo e suas galáxias.
Conversa com as estrelas. Elas têm pureza e brilho próprio enquanto ele busca o seu ou produz o seu.
O mundo só se torna suportável com doses diárias de loucura poética. Este é o pão da vida e o verdadeiro alimento da alma.

Nestas horas, Deus é uma xícara branca. E Renato é a imagem e semelhança de si próprio.

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