Dentro de casa tinha um Lúcifer.
Mas ela só tinha 15 anos e não percebia. Tinha fé e inocência de uma boa criança. O patriarca apareceu para dar a última ordem e prometeu guerra se ela não acatasse.
Meninas são obedientes, o que está acontecendo com você?
Perguntou ele com estranheza.
Amores vem e vão. E vocês podem nem estar juntos amanhã.
Por que você fica contra a sua família? Contra quem te ama e só quer o seu bem?
Mas… Ela tentou falar.
Não responda, só me ouça. Um dia você vai ser mãe e vai entender o que estou dizendo. E quem pensa demais afronta! Não pense, minha neta. Eu quero te ver feliz. Obedeça seu pai e sua mãe. Eles estão preocupados com você, só isso.
Ela queria dizer que não tem desejos e nem pensa em ter filhos, pois ainda estava no Ensino Médio e queria fazer Medicina. Mas preferiu o silêncio diante da ordem.
Achava injusto colocar filhos num mundo como este e jogar-lhes os pesos de suas pedras que caem de seus braços por não conseguir carregar. Era desumano isto. Mas ela foi feita para preencher um currículo social. A mulher só é mulher se tem marido e filhos. Então ela nasceu, contra a sua própria vontade.

Lúcifer estava calado. Parecia ter conseguido o que tanto desejou. O patriarca esvaziava cada vez mais a garota através do terror e da ameaça. Vai acontecer uma desgraça e a culpada vai ser você! Pensa bem. (Agora ela estava autorizada a pensar.) Desejos, sonhos, pensamentos e atitudes estavam sendo sufocados e ela sentia falta de ar. O coração palpitava como se fosse parar de bater a qualquer hora. Sentia-se uma lata de lixo, onde as pessoas depositavam seus piores resíduos sobre ela. Ela tinha que suportar o mau cheiro e engolir os dejetos que ouvia por não ser mais virgem. A doce garota dos sonhos dos pais se rebelava por fazer sexo.
Mulheres não têm desejos sexuais. Só os homens possuem tal impureza. E quando fazem, fazem por bem de todas elas. E com todas elas.

Ela sentia-se estuprada. Era lhe negado o direito de ser, de existir como se sente. Mas ela foi generificada e marcada ao nascer. E pelas águas bentas do batismo cristão foi condenada sem chance de defesa. O patriarca da família ainda falava em seu tom ameaçador e agressivo. Ela parecia estar diante de um juiz-coronel num corredor da morte. A sentença estava sendo dada. ‘Se respeite minha neta. Não se desonre!’
Ela tinha medo de pensar o contrário dele e ele encontrar o pensamento perdido pelo ar e torturá-la fisicamente até desistir.

Pequenos demônios germinavam em seu coração. Lúcifer sentia-se realizado. Seu plano mais uma vez estava dando certo. No inferno só há guerra, não há trégua.
Sem poder se pronunciar, aceitou a sentença e tentou se achar pelo vidro da janela. Teria ela fugido de si mesma sem mesmo a avisar?
Estava oca. Assustadoramente vazia. Era prisão ou morte perpétua enquanto dependesse deles.

Viu o céu azul. E o achou lindo. Quis chorar, mas se conteve. O seu avó iria lhe perguntar o motivo. Ela não queria explicar nada. Só queria ela de volta. Levantou-se e foi em direção à janela.
‘Eu não terminei! Volte aqui!’
Foi a última coisa que ouviu antes de abrir as janelas e os braços sentindo novamente o cheiro fresco e doce da liberdade.
Magnólia se devolveu a si.
De olhos bem fechados, se sente em casa e vive perfeitamente os ideais impostos por sua família.
Lúcifer ri.
Está em paz agora.

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