É comum vermos em nossas relações de trabalho, ou seja, interpessoais, toda uma diversidade de afetos complexos.
Afetos que se não bem cuidados, nos prejudicam e prejudicam o outro. Um dos desafetos, ou seja, um afeto que nos desagrada é a falsidade.
A falsidade é o afeto que permite que convivamos no mundo do trabalho até o último dia deste. Ela se faz necessária por várias razões. Uma delas é o fato de que não fomos bem preparados para convivermos respeitosamente uns com os outros.
As instituições tais como família, igreja, escola, entre outras, nos ensina que existe um ‘outro’ que é do ‘mal’, que é imoral, corrupto, canalha e etc. Já fomos contaminados desde o berço que existe o ‘Mal’. Basta lembrar das canções de ninar, lembram?
E isso se estende em toda a nossa cultura. Cultura aliás, criada a base do ódio, da exploração e da negação do outro, sendo o outro o negro, a mulher, o gay, o índio, a criança, até a própria natureza com sua beleza e horror.

E no mercado de trabalho, a lógica determinante e determinada é aquele que sustenta e alimenta o sistema: a competitividade.
Nessa lógica, todos são vítimas da exploração e do circo de horrores que o capital é capaz de produzir. Mas a falsidade é espontânea. Ela vem para selar um acordo entre os competidores: a paz no ambiente de trabalho. Aí fazem-se círculos de oração, confraternização, dinâmicas, palestras motivacionais e aquelas reuniões que não mudam a estrutura dos comportamentos porque o capitalismo é sobretudo, um sistema de pensamentos, ideias, valores e conceitos muito naturalizados.
Daí, poucos saem entendendo.

O círculo que sustenta uma empresa, é o círculo cínico dos afetos. Primeiro que, não podemos aparecer na empresa do jeito que aparecemos em casa. Há uma regra, um padrão a ser exigido, vigiado, cumprido e se não for, o competidor é punido podendo até ser banido do grupo de gladiadores do capital.

O círculo cínico dos afetos é complexo porque é enganoso, mentiroso como toda a nossa linguagem é cheia de potências e fraquezas e até mesmo, destruidora. Não se entende muito bem isso, mas sabe-se que precisamos manter a ‘harmonia’, o clima organizacional da empresa e um ar de que ‘somos felizes por trabalhar nela’. O competidor, explorado por seu patrão, geralmente prepotente e autoritário, não pode se expressar. Produz-se aí o veneno do ressentimento, que gera raiva, apatia, desprezo e até mesmo, conflitos desnecessários.

A não-autorização da fala do competidor gera um mal estar entre todos que competem. A insatisfação está dada e não deve ser questionada. O RH está logo ali do lado, como sempre ouvimos nos intervalos de café. A falsidade vem para nos salvar desta raiva, deste ódio tão plantado na cultura e hoje, muito disseminado na grande mídia e nas redes sociais virtuais e redes sociais pessoais.

A falsidade seria inútil se pudéssemos ser sinceros e verdadeiros, mas a sinceridade não dialoga com a linguagem do capitalismo. A linguagem do capitalismo é da farsa e gerida por uma gangue de farsantes. Os que precisam dos farsantes, compram suas ideias e posturas. Consomem sua ideologia. E nesse processo de envenenamento intersubjetivo, vamos nos odiando, falando mal um dos outros enquanto sorrimos lado a lado a cada meta batida pela empresa. Todos saem ganhando, inclusive acabamos por lotar o teatro do vazio das emoções em nosso cotidiano.

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