7:00.
Abro os olhos como quem não quer enxergar o que tem para encarar. Me esforço para alcançar alguma ideia de que o dia será bom.
Fecho os olhos.
O despertador insiste.
O mundo e suas buzinas me esperam.
Trânsito, pessoas mal-humoradas, gente passando fome.

Acordo.
Faço um esforço para relembrar algum dia em que eu acordei e fui alegre ao me surpreender com alguma notícia boa na tevê. Acordar é sempre trabalhoso. A consciência sempre levanta primeiro. E os pensamentos começam a se organizar através dos comandos dela.
Mamãe passa o café na cozinha.
Sinto o cheiro forte e agradável vindo do outro cômodo.
Me esforço para pensar que mamãe escolheu esta vida. Ela imagina que sim. Se ela estudasse, saberia que não.
Ouço a voz do jornalista na tevê.
Corrupção. Tragédia. Destruição. Nova linha de carros importados para consumo. Saiba como emagrecer em sete dias.
Os pensamentos mais pesados me afundam na cama. Meu cobertor parece ondas se quebrando em meu mar revolto. Desde que nasci o mundo é o mesmo. Cansativo e doloroso.
Lembranças de um dia ruim tentam me animar.
Eu estou deitado e prostrado fico.
A mente está mais agitada que uma multidão em dia de protesto na Avenida Paulista. Mas este protesto matinal é só meu. Ou pelo menos parece que é. Os pensamentos tentam se organizar entre eles.
O meu corpo está inerte.
Minha mente busca na memória alguma beleza de viver o dia.
As amizades.
Sim, elas têm o poder de nos curar da dor de viver.
Então acredito que no mar escuro do cotidiano dá para quebrar algumas ondas violentas que sempre tentam nos derrubar. Mas em meio ao mar há um redemoinho.
Concessão para sobreviver.

Dentro do redemoinho, palavras confusas de si mesmas se perdem entre tantas outras que não chegam a se aproximar. Náusea.
De repente as ideias se casam perfeitamente.
Tudo isso é uma farsa. Uma piada desmedida onde os palhaços constroem o circo, organizam o espetáculo e choram os seus fracassos nos bastidores. A plateia quer mais. Sempre mais. Nada é o bastante para um público viciado.

Afetos perdidos boiam sobre a superfície da minha mente. As pessoas estão cada vez mais técnicas e instrumentais. Uma sociedade doente pelo excesso de razão. Mas os pensamentos nos traem. Poucos sabem disso.
Muitos deles a gente não produz. São resultados de conflitos entre os sentidos e a linguagem e o nosso esquecido inconsciente. Tudo é caos e confusão entre o que a gente acha que sabe e o que acabamos por descobrir depois. Sobre nós, sobre as pessoas, sobre o mundo. Até sobre esta desventura chamada vida.

A consciência se atropela entre tantos pedestres estranhos nesta estrada esquisita para algum lugar ao sol. Muitas vezes cansada, pega carona no vendaval de sensações e incertezas e nos inclui nesta festa miserável chamada existência. Minha mãe conversa com minha sobrinha na sala.
Eu sei que a adolescente está de mal humor. Como eu.
Minha mãe  insiste em falar.
Tenho uma leve ideia de que as pessoas não entendem a linguagem do silêncio. Se diz muito quando se quer ficar calado.

Levanto e me olho no espelho. Eu sou o mesmo ou estou ficando mais velho?
Nada demais.
Ninguém morre de desilusão de si. Ou já morreu?
Apanho uma xícara de café enquanto ignoro o ‘bom dia’ da minha mãe. Estou calado. Há uma guerra em mim. O meu protesto é silencioso. Dou um sorriso amarelado para ela para saber que na é com ela, que é comigo mesmo. Eu sei que ela sabe. Mas faço isso pela etiqueta da convivência ou pelo afeto da empatia. De manhã eu não penso direito.
Olho para a sacola cheio de pães frescos e vejo a etiqueta de preço. Viver está ficando cada vez mais caro. Talvez seja esta a nossa maior dificuldade no mundo: ter que pagar caro para alguém do outro lado lucrar em cima do nosso sofrimento. Existir talvez seja resistir com esta sanidade a pauladas a este montante constante no final do mês.
Então sinto que estou ilhado. Cercado de pensamentos indesejados e mal quistos. Sei que lá fora há um oceano cheio de tubarões sedentos por um descuido nosso, uma atitude impensada para que ao cair, ele nos devore tão rapidamente que a gente não tenha tempo de refletir sobre o que de fato aconteceu.
Mas somos obrigados a atravessar esta ilha. Senão apodrecemos na solidão de onde nada demais se espera, a não ser a dor e a autodestruição. Amarra-se alguma ilusão no anzol e numa linha estende-se alguma esperança a este mar que nos engole diariamente. Este é jogo: sobreviver na selva sem afundar. Mas para não afundar, precisamos aprender a nos defender. Mas para nos defender, precisamos saber quem está do outro lado. Talvez seja esta a tarefa mais difícil: como suportar o meu inimigo, se o meu inimigo está ao meu lado?

A nossa distância coletiva é esta. Habita em nossas ideias. As ideias nos aproximam, mas também eliminam. Desejos se manifestam através do que pensamos. E se não pensamos bem, as ideias que temos (ou que achamos que temos) e as ideias que adquirimos nos dominam o tempo inteiro e num ciclo vicioso vamos vivendo no modo automático. Robôs tentando se comportar como humanos.
Mas os robôs não sabem como vivemos. Eles nos imitam.
Então temo que sejamos um objeto buscando identificação aonde não há mais identificação. A própria humanidade anulou o processo de se humanizar ao acreditar que na técnica seríamos mais felizes e eficazes. O projeto não vingou, mas há eficácia em muitas relações. Só não há essa tal de felicidade.
O que há é mais um estado crônico e epidêmico de mal estar na civilização da qual nunca escaparemos.

8:00.

É hora de me preparar para a travestilização do corpo e para a prostituição do ego. Submissão, competência e humilhação são substantivos e verbos imperativos neste jogo de linguagem de poder . Não sei quantos tubarões me esperam. Espero poder alimentá-los de migalhas de ilusões de possíveis fracassos meus para que eu possa respirar livremente nesta asfixia instrumental.
Talvez seja delirar demais. Talvez seja a nossa única saída: a alucinação contemplativa como fuga desta ficção que se chama realidade.
Eu escrevo para espantar estes demônios.
Mas eles já habitavam o espaço antes que eu viesse a fazer parte deste tempo.
Devo-lhes minha humildade e o meu medo.
Uma vez que se encontra com o diabo, abrace-o. O inferno pode parecer caloroso e menos tempestuoso.

 

 

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