O dia acorda cansado
As nuvens se perdem entre si
Pesadas de tanto carregar
Sentimentos que ferem o céu.

O sol sente falta do azul límpido
Brilha num céu púrpuro de tristezas
Que circulam e assolam o planeta.

Os raios solares atingem a nossa pele vergonhosamente
Há uma enorme vertigem da natureza em aquecer
O que em plena luz solar somos capazes de fazer.

As lágrimas demoram a cair
O choque diário congelam os afetos
Paralisam os passos e os pensamentos
Será um prelúdio do fim dos tempos?

As palavras demoram a escorrer
A sensibilidade está em inerte no papel
Diante da guerra que sempre fomentamos
Para construir impérios
Explorando a dor e o sangue do outro
Para se fortalecer.

As flores do jardim estão sem ar
Sufocadas e asfixiadas pelas chaminés das fábricas
Estamos queimando a beleza em nome do religioso poder.

As crianças não correm mais
Não pulam nem brincam de ciranda
Estão presas em condomínios
Controlados por telas smarts
E iludidas pelo cinema e pela tevê.

Um mal pressentimento chega sem avisar
Uma vertigem ataca os pensamentos
Entopem as veias
Corroi as artérias
Envenenam as células.

É o caos implodindo dentro de mim.

O sol descamba mais cedo
Assustado com o que vê
A lua teme perder o seu brilho
Diante do inferno enaltecido e engrandecido
Por aqueles que pela paz que pregam
Se armam de preconceitos e ódio para sobreviver.

Deus sente vergonha e desprezo
Destes filhos que ele desconhece
E que jamais se propôs a ter.

Um aborto divino é pensado
Quem sabe tudo apodreça e vire adubo para os bons afetos?
Auschwitz não foi o suficiente para aprendermos
Que amar requer trabalho
Mas é o afeto capaz de nos mover
Para além de nós mesmos
De nosso egoísmo idolatrado
De nossos obscuros desejos.

O criador desistiu de tentar entender
O que faz destes filhos perversos
Um reflexo pérfido de seus ensinamentos
E decidiu intervir neste apocalipse religioso
Sagrado em fazer sofrer
Mulheres, negros, gays e crianças
Índios só querem viver!

Perdido em seu paraíso solitário
Faz de sua angústia,
Tempestades, vendaval e furacão.

Quem sabe o desespero dos terráqueos os elucidam de sua autodestruição?

A tempestade molha os corações secos
O vendaval arrasta as almas inférteis de amor
Corrompidas pela vaidade e poder.

O ódio em furor é capturado pelo furacão
E os seus súditos são levados para outra dimensão
Por mil anos a Terra irá resplandecer
Por luz, alegria e prazer de viver.

Estamos de volta ao recomeço
A nossa história pode ser escrita sem sangue e medo
Corpos em desalento podem ser abrigados
Podem ser aquecidos de bons cuidados
De bons afetos e longos abraços.

A vida deseja um novo destino
A poesia deseja que sejamos Um-Outro.

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