São 19 horas de domingo.
O menorzinho de todos já está arrumado. O do ‘meio’ tenta contê-lo para evitar que se suje. A mais velha está alisando o cabelo em frente ao espelho.

A mãe sai do banheiro quase pronta. O pai está dando o nó na gravata enquanto se sente orgulhoso de ser um homem bem visto, bem dito e bem alinhado.

A mãe terminou. O pai pega a chave do carro e pede para que todos entrem, pois não podem chegar atrasados. Uma imagem conquistada com tanta dificuldade pode ser quebrada por qualquer coisa ou pessoa.

Todos entram. O filho pequenino vomita no carro. A mãe grita com ele. O pai fica enfurecido de ódio ao ver o carro novo sendo sujo por aquela criança mimada. O filho do meio acaba se sujando de vômito. A adolescente grita histericamente.

O pai para o carro no escuro. A mãe sai do banco do carona e começa a bater no menino de dois anos. O pai grita com o ‘do meio’ por não ter se desviado da sujeira do irmão mais novo. A adolescente pede para os pais pararem de gritar. O pai dá um soco no rosto da filha de quinze anos, que cai imediatamente. O ‘do meio’ agarra a perna dele e o morde. O pai dá um soco no estômago do menino de sete anos. A mãe não sabe o que fazer, pois está toda descabelada e suja de vômito do filho. Pragueja.
‘Tá vendo? Foi tudo culpa sua!’
‘Está satisfeito agora? Está??’
‘Porra!!’

O casal desiste de ir a igreja, arriscando suas relações estéticas-políticas. Os filhos estão chorando, mas tentam abafar o sons pois têm medo de serem agredidos de novo.

A família volta pra casa e a mãe decide que todos assistam tevê, já que os filhos conseguiram estragar a sua noite. O pai concorda em silêncio ditatorial e arranca o carro de volta pra casa.

No sofá da sala, Carlos se exalta com tamanha violência que tem acontecido em nosso país. ‘Ninguém está seguro’, afirma.
‘E essa vagabunda não faz nada!’ Profere Marta do banheiro enquanto penteia o cabelo e vê o rosto da presidenta do país no telejornal global.

O pequenino ainda está sujo de vômito e adormece no colo do irmão que geme de dor na barriga. Joana sangra pelo nariz.

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