O despertador toca.
Trinta minutos adiantado.
A depressão me pesa o peito, que me pesa o corpo, que me pesa a mente. Novamente.
O corpo sempre paga o preço da alma. A alma é incansavelmente exigente.
Infantilmente torpe.
Talvez o mundo inteiro ainda não foi capaz de espancar até a morte, a criança que ainda persiste dentro de mim, solitariamente.
A estética do meu corpo é de um rapaz que deveria compor uma estética de um corpo de um homem adulto, mas minha genética me deixou em débito com os formatos adultos de ser e aparecer.
A criança pesa muito.

Eu me levanto como quem se arrasta da cama para ir para o matadouro. E não é?
Desligo o despertador. Vê que há tempo de pensar sobre esta vida. Que mera vida. Quimera vida.
Olho para o meu uniforme: tão inexpressivo quanto ditatorial, os sapatos sociais jogados de forma desleixada, as meias da mesma cor dos sapatos para não soar aparentemente esquizofrênico, a gravata em contraste com a cor da camisa para não parecer que estou na moda dos anos 90.

Olho para o chapéu, que é o único acessório que eu uso para o meu agrado. O resto é travestilização do sistema, do qual você é intimado e intimidado a não ser, a não parecer e nem aparecer fora do consenso do mais do mesmo.
A regra se aplica a todos. Quem foge dela é catalogado como louco, hippie, maconheiro, vagabundo.
Eu sou louco. E adoro maconheiros, hippies e vagabundos.

Eu estou em frente ao espelho. Ajeito o meu chapéu tomando cuidado para não parecer feminino. Ser feminino é assinar sua pena de morte não-oficializada. Eu moro num Estado em que mais se mata mulheres. Tenho que tomar cuidado.
Sou medroso e covarde.

Agarro um livro da estante. O livro me ajudará a suportar a dor do trajeto até a execução. No ambiente de trabalho, campos de concentração são construídos num acordo tácito. Todos torcem pela queda um do outro. Todos se abraçam quando um é eliminado como uma espécie de reality show fascista assustador de tão naturalizado.

Todos são cristãos.

Eu me agarro aos devaneios da leitura. É a ficção que alimenta a obsoleta esperança de que a ilusão é o que restou para nós enquanto não nos autofagamos completamente. É o delírio coletivo entorpecido pela razão tecnicida que nos garante uma auto-salvação enquanto ao mesmo tempo agonizamos de dor e desespero de corpo a corpo em busca de um colo de mãe.

Às vezes o nosso pedido de socorro para um resgate desta vida não passa de um agito a outro, onde a histeria só diz aquilo que a psicanálise sempre disse: estamos nos escondendo de nós mesmos. E fugindo da dor que se é, deixemos que as indústrias deem conta de nos estuprar subjetivamente todos os dias quando acordamos atrasados já devendo parte da vida ao capital que sempre nos cobra altos juros para que possamos sobreviver em dias assim, como esta manhã em que eu acordei com os pensamentos cinzas.

Talvez eu seja cinzas. Puras cinzas e uma faísca de esperança que queimam diariamente sobre o asfalto quente, seco e motorizado. Não posso expressar o que sinto. Finjo que sou mais um deles.
Logo morro.
Logo me esqueço.
Logo me perco.
Logo estou sem caminho.
Estou existencialmente sem lugar novamente.

Este conto faz parte do livro ‘Contos pela Cidade – Almas aflitas no subterrâneo do concreto’ disponível para venda em download no site Amazon do Brasil. Clique aqui e adquira o seu exemplar por R$ 3,17 apenas : https://www.amazon.com.br/dp/B01K3OEU3A

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