Tenho tido insônia.
A insônia é uma perturbação psíquica que nos impede de dormir devido
algumas emoções não resolvidas que não deixam descansar os
pensamentos, justamente por estes estarem perturbados.

Tenho tido medo.
Medo e angústias.
Uma crise política que gera uma crise econômica que gera uma crise
social e que me deixa com medo e cansado.

Viver cansa demais.

Existir parece mais suportar um corte de navalha sem anestesia no ego.
As relações são cada vez mais frágeis. A artificialidade se tornou uma
virtude. A frieza e apatia são morais impostas verticalmente e
inquestionáveis. O mundo, com sua beleza e horror, tem sido alvo de
dominação e destruição sem freios por aqueles que se julgam donos
dele.
Na falta de perspectiva, procuramos amenizar a angústia, que é nada
mais que acúmulo de dores causadas pelas frustrações de nossos
desejos.

Procuramos amar alguém.
Poucos querem amar.

Procuramos algumas frestas em meio a escuridão que nos cegam. Poucos
abrem suas janelas. Poucos querem enxergar.

O amor romântico perdeu o espaço para os ditames estéticos. ‘Ama-se’
hoje o mais bonito, o mais rico, o mais inteligente, o mais sarado, o
‘mais e mais e mais’.
Ninguém quer menos.

A grande maioria quer ao menos um desses. E nessa fissura, escapam-se
possibilidades, chances e quem sabe, futuros amores. E quem quer saber
de amor romântico?
E de que tipo de amor romântico nos cabe neste século de revolução
tecnológica, onde somos quase digitais?

Quanto mais dispositivos, mais desconfiança. Quanto mais liberdade,
mais insegurança. Queremos tudo e discursamos em prol disso, mas não
conseguimos arcar com as contas. O amor romântico clássico, aquele
entre duas pessoas que se completam, acabou. São milagres que
acontecem para poucos. Abrem-se espaços para novas formas de amar. Mas
ainda não estamos maduros para lidar com a liberdade que desejamos
para nós nem com a liberdade que o outro tem. E nessa onda sem freio
de liberdade sem responsabilidade, vamos descartando pessoas como se
fossem embalagens de fast-food.

O amor virou uma performance que se realiza através de um desfile em
que corpos atraentes são exaltados como troféus.
Ninguém quer desfilar com um ‘menos’. Ninguém quer parecer fora da
moral estética. Estamos excluindo a maioria enquanto somos excluídos
sem sequer tenhamos sido incluídos neste jogo perverso.
Quem sabe lidar com a rejeição, sobrevive. Do contrário, o desespero
leva a atitudes insanas. Somos desprezados desde a etiquetas que
usamos até o corte de cabelo mais simples que algum alienígena quiser
fazer.

Somos condenados a pagar um preço da qual nem consumimos o tal produto
na prateleira da vaidade mais torpe dos seres humanos. A condição é da
inadequação. E desta, a vertigem que nos sobe até a garganta,
queimando o nosso paladar com o seu gosto azedo.

É isso.
As pessoas estão azedas.
Futilmente azedas.
O amor com todas formas que há, é coisa de gente brega.

 

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