Ando pensando no tempo
Enquanto o tempo passa.

Arrasta-se sobre mim,
Restos de tempos
Passados.

Pesa-me o sangrio coração
Lembranças de mortos-vivos de um tempo
Tempo que eu não consigo expulsar
De enterrar de vez por lá.

Esse tempo tatuou-se em minha memória
E obscurece minha visão
Se o tempo presente é a própria visão
Então o presente será sempre escuro
Pois a razão entorpece o espírito doente
De tanto se afundar nesta escuridão.

Angustia-me acreditar que demorará muito tempo
Para que eu me arrebate e voe para me salvar
E se esse tempo chegar,
Sei que não estarei mais aqui
Pois o futuro é só uma imaginação
E eu não tenho tanto tempo assim.

O futuro não me espera
Me escapa
Foge-me das minhas mãos fracas.
Foge de mim,
Lembranças de um bom futuro,
Com muita luz, magia, fadas, versos e sereias.

Fantasias esvaem-se de mim
E se perdem nas muralhas cinzentas do passado
Escorrendo de dor e agonia no concreto
E manchando o chão de lembranças frescas
Num mundo frio repleto de asfaltos.

O presente é um transcorrer constante
Como o meu sangue que escorre numa tentativa de resistência frustrante.
O presente é morrer.

Chronos não se alegra
Abate-se diante do inferno real criado pelos cristãos
Os deuses tinham razão
Os seres humanos são imundícies
Não passam de acúmulo de inveja, ressentimento e potência de destruição.

Sei que morrerei triste
Por não conseguir me libertar do tempo que passou
E que involuntariamente me impregnou as moléculas
Envenenando os meus pensamentos
Entupindo-me as veias
Corroendo minhas artérias.

Triste sou
Pois do calor do meu corpo sujo
Transpiram vapor de sangue de mulheres e crianças
Vendidas para homens brancos.

E dos meus poros
Exalam-se chacinas de gente pobre
Corpos que não consomem devem ser mortos
E não há redenção para os que não seguem a religião do consumo.

Nenhuma loção adstringente limpará a minha consciência
Esta perturbada pelo excesso de presente
Excesso de cadáveres de negros, índios e gays.
Eu carrego toda a sujeira do mundo nas costas
Porque me lembro de tudo.

Triste memória.

Atormentada pela visão do que já viu
Do que vê e do que ainda não viu.
E do que nunca poderá ver.

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