Eu não queria abrir os olhos. Meus olhos repousavam num paraíso há muito tempo esquecido. Ou fora queimado por humanos?
Eu não queria tirar o cobertor. Era como se cortasse novamente o meu cordão umbilical e me expulsasse do céu que eu vim. Era como repartir o meu corpo, esvaziando o meu espírito.
Ele estava lá. De olhos lindamente fechados. Seus cílios grandes davam mais beleza ao seu rosto juvenil e atraente. Era um sonho. Eu temia ser expulso do meu sono.
Não queria que aquela noite fosse igual as noites vazias nas quais eu me entregava somente de corpo e libido. Eu estou tentando encontrar a beleza poética de viver e resistir com arte, ao lado de bons artistas.
Ele é um artista. Toca piano como quem quer tocar sua dor que o esmaga e o leva à cova todos os dias. Ele é um guarda chuva preto. Acima de seu corpo, chuvas e tempestades lhe atravessam a alma sem cessar lhe fazendo cair no abismo de sua própria morte. Ele é vida resistente e pertinente ao sacrifício que é viver. Ele é o ar que se sufoca nesse teatro diário. Ele é a performance que odeia. Ele é verdade em meio ao caos produzido pelas mentiras que vendem num mundo incansável e permanentemente doente por consumo de ilusões e fetiches em mercadorias.
Ele precisa da arte viva. As pessoas buscam propagandas para se defender da própria narrativa falsa que fazem de si mesmas. Ele é alma em ferida exposta num inferno, incendiado pelos consumistas. Ele é fogo que arde em chamas de agonia. Ele respira através de suas telas, pintadas a tempero de tristezas em meio às tragédias travestidas de desejos coletivos que para ele são mais desejos de morte ambulante anunciadas pelo capitalismo.
As pessoas não desejam.
Comparecem para encenar os seus medos, os seus vazios e desesperos. Nessa tempestade, todos são suicidas. O artista consome e se consome de sua dor e das dores dos outros. Os pulmões enfraquecem. O ar desaparece. Ele resiste, porque a arte é resistência daquilo que guardamos em segredo (aquele mundo encantado cheio de mistérios em nossa imaginação).
O imaginário foi contaminado. Pessoas deliram preços e produtos. Pessoas se perdem de si mesmas para encontrarem desassossego nas prateleiras. O pintor, o bom músico, o filósofo e o escritor se matam sozinhos em palavras perdidas num silêncio esquecido pela cultura do barulho. Filósofos se esquecem em suas teorias. Pintores se matam em suas telas, com suas próprias mãos. Músicos se entorpecem em suas melodias e melancolias. Os escritores sobrevivem de suas angústias que falam e gritam em gemidos abafados em sua existência esmorecida. Os artistas dançam como Dionísio enquanto bebem do vinho da vida que é o sabor do sangue do seu cantinho escuro num lugar que não cabem seus sentimentos neste prostíbulo intitulado de ‘mundo’. Onde tudo é comércio velado num acordo social e os sonhos são vendidos em troca de uma ditadura estética onde as emoções são plastificadas e os prazeres são saciados através das telas.
As pessoas estão vendo tudo em quadrados e se enquadram na biopolítica de suas existências. Onde a felicidade é embalada e a maturidade das experiências se resumem a cirurgias em rostos exaustos e flácidos. Onde as pessoas se vendem das 8 às 18 horas. Onde o amor se tornou um mero jogo de negócios. Onde a vida é a moral esquecida por todos.

 

 

 

 

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