Eu odiava vê-la comendo. Não possuía os dentes debaixo, então brigava com o bife enquanto tentava não deixá-lo cair de suas mãos, cujas unhas eram descuidadas e sujas. Também não tinha modos de falar, nem postura pra sentar, tampouco para nos juntar à mesa e rezar antes das refeições.
Mamãe era porca.
Mal educada.
Grossa.

Eu odiava aquela mãe. Nem há milhares de anos-luz se parecia com aquele ser que eu me agarrava quando era pequeno e sentia medo dos meninos que me chamavam de bicha na rua. Mamãe era a minha deusa protetora.
Agora é só a vergonha e remorso que sinto.
Sinto vergonha e pena de mim por ter me apegado antes a um ser tão desprezível e sem modos.
Mamãe era a caricatura do fracasso.
Eu não quero ser como ela.
Jamais.

Odiava quando ela colocava a tevê na última altura enquanto eu tentava ler um dos meus sagrados livros. Mamãe odiava os meus hábitos. Eu odiava os hábitos dela. Nós nos odiávamos. Era tão intenso e incontrolável que eu desejava no meu mais profundo íntimo, a sua morte repentinamente.
Por que ela não morria?
Tanta gente morrendo à toa, e ela ali, vivinha?
Eu me odiava por sentir tanto ódio.
Ela me odiava por eu odiá-la.
Eu odiava ela porque ela me odiava.
Não sei quem começou primeiro.
Só sei que mamãe não era a mesma que me fazia cafuné durante as tardes que passávamos juntos enquanto assistíamos ‘Os Cavaleiros do Zodíaco’ na tevê.
Mamãe se tornara amarga e dura.
Acho que a separação de papai lhe trouxera à tona todas as amarguras sofridas com vovó durante a infância. Ela então, despejava tudo em mim. Eu que nada tinha a ver com a separação. Eu que nada tinha a ver com a infância infeliz dela nem com anti-educação e autoritarismo de vovó.
Eu não tive culpa dela ter parado de estudar para cuidar de mim e dos meus irmãos. Não tive culpa dela ter se dedicado como esposa e mãe enquanto deveria ter continuado os seus estudos e se tornado independente do meu pai.

Papai era grosso e bebia muito. Até durante a semana. Principalmente durante as quartas-feiras quando tinha os campeonatos de futebol. Chegava bêbado e ficava pelado na sala pedindo mamãe para dar banho nele. Mamãe escondia eu e meus irmãos para que não víssemos papai naquela situação deplorável. Afinal, ele era o homem da casa e devíamos respeito infinito e incondicional a ele, mesmo que ele fizesse tudo ao contrário para obter isso.
Aliás, respeito foi uma coisa que nunca tive pelo meu pai.

Eu, minha mãe e meus irmãos tínhamos medo do meu pai. Respeito é algo voluntário que você dá a alguém que você admira e gosta. Por esta pessoa possuir características que lhe agrada em sua personalidade, ou por ela conter virtudes que te faz querer ser igual a ela. Coisas que eu só tive fora de casa, e raras vezes.
De papai tínhamos medo.

Medo e ódio.

Ficávamos com medo quando ouvíamos os sapatos dele descendo a ladeira que dava para a porta de entrada da casa. Mamãe nos ensinou a tirar os sapatos dele assim que ele pisasse o primeiro azulejo da sala de estar. Minha irmã, que era mais apegada a ele, fazia isso. Eu permanecia quieto. Tinha medo de errar alguma coisa, dar ‘pinta’ de bicha e ele ameaçar a me bater até virar homem, como sempre me dizia em suas horas de fúria.
Dele não tenho e acredito perfeitamente que jamais terei saudades. Ele se foi para o Maranhão foragido depois de bater num carro bêbado nestes dias de jogos de futebol e acabou matando uma família que chegava de viagem da Disney.
Nunca esqueci este dia.
E mamãe nos pedia para respeitar aquele assassino.

Desprezo, raiva, ódio e tristeza.

Sentia tudo isso e tinha a obrigação de ficar quieto. Senão apanhava. E mamãe, se ousasse me defender, apanhava junto de sua ‘filha mariquinha’ que gostava de Xuxa e queria ser paquita. Sempre fui sua maior vergonha. Papai denotava um desprezo infinito por mim enquanto me via desenhando quieto e escondido debaixo da mesa da tevê. Nos desenhos eu me livrava daquele hospício de medo e fúria. Ficava calado e fantasiava nos desenhos, a vida que eu sempre quis ter em um mundo que eu imaginava existir.

Mamãe aguentava tudo. Anulava-se e resignava-se. Aprendeu isso de geração para geração. ‘A mulher sábia edifica o seu lar’, ou seja, evita brigas, sofre calada pois deve respeito e submissão a autoridade que era o seu marido. Caso contrário, o padre da igreja do bairro lhe fazia uma visita para saber o que estava acontecendo. Que manias e modos eram esses de responder o marido?

Mamãe fez isso uma só vez para nunca mais esquecer. Papai lhe deu um tapa na nossa frente que ela caiu imediatamente da cadeira em meio a hora do jantar. Eu quis avançar em cima dele e socá-lo, mas saberia que poderia morrer e que mamãe brigaria comigo depois por desacatar o homem da casa. Ele é que nos matem vivos! Ele paga as contas, nos alimenta e nos dá abrigo! Aonde você está com a cabeça meu filho? Disse ela uma vez comigo quando eu dissera que bateria nele se ele a violentasse de novo.
Mamãe era assim.
Eu não era assim.

Eu era só medo e tristeza.

Agora eu pago as contas de todas as injustiças que ela sofreu. Ela me detesta e eu preferia que ela nunca estivesse existido. Muitas vezes delirei imaginando que fui adotado. Que minha família um dia iria me encontrar e me salvar daquele lugar monstruoso. Pensei infinitas vezes em fugir e morar com uma família desconhecida e recomeçar tudo do zero. Mas descobri que a dor é parte da nossa memória e a nossa memória nos constitui como também nos destrói se não soubermos manipulá-la ao nosso favor.

Certa vez, mamãe estava bêbada e avançou para cima de mim e naquele dia eu não hesitei. Puxei ela até o banheiro e lhe dei uma banho para lhe tirar aquele efeito horrível do álcool. Mamãe foi até a delegacia prestar queixa contra mim alegando que eu havia agredido ela.
Eu fui contagiado de ódio e fúria por ela.
Ódio e ressentimento fervendo e numa condensação, toda chuva de remorso, inveja e dor me molhavam como um desgraçado sem dignidade para existir.

Eu queria ter nascido mulher. Seria fácil pra mim. Nunca mais ouviria ‘viadinho’ nas ruas e nem apanharia dos meninos na escola. Inclusive, não seria vítima dos assédios sexuais que Tarcísio e seus colegas machões faziam comigo. Eu não estava mais aguentando aquela situação no recreio e contei pra mamãe e pra papai. Meu pai ordenou que meu irmão se encarregasse de resolver isto pois eu poderia piorar os meus sintomas doentios comportamentais. Eu achava que eu era culpado por Tarcísio me assediar na frente de todos no corredor dos intervalos. Afinal, eu estava imitando uma menina com aquele jeito meigo e delicado.
Tarcísio levou uma bronca do meu irmão e nunca mais encostou em mim. Papai se aliviou acreditando que o seu filho ainda teria salvação, senão o padre iria lá em casa procurar saber o que estava acontecendo naquela casa para eu desejar ser uma menina. Papai achava que o desejo ter uma menina acabou me afetando ainda na barriga, pois quando eu ainda estava sendo gerado, ele imaginava que eu menina. A menina que ele sempre quis ter. Mas para a sua derrota, nasci menino. Menino e gay.

Eu sempre quis ser uma menina. Gostava das bonecas da Barbye, das casinhas com camas arrumadas e de dar aulas de português na escolinha que eu mesmo improvisava debaixo do barraco onde morávamos. Fiquei sabendo que certa vez papai chorou num almoço de domingo por ver que nada estava adiantando. Nem ameaças, nem as missas individuais, nem os filmes pornôs de homens transando com as mulheres me fazia sentir atração pelas mulheres. Aliás, mulher era símbolo de desejo, talento e para mim, era algo vindo dos céus por sua beleza estonteante. Lógico, me referia as mulheres que apareciam na tevê. Pois mulheres feias eram personagens de novelas e sempre eram domésticas. As mulheres ‘sem modos’. Como mamãe.

Anos de terapia após brigas em que eu agredi minha mãe com um tapa, assim como o meu pai já havia feito e então decidi procurar ajuda. Se eu fosse dali pra frente ser igual a ele, preferia morrer de câncer, em dois dias. Num dia pediria perdão a minha mãe e no outro, partiria livre e leve. Sem culpa. E sem remorso, talvez. Ela colocou fogo em toda a minha discografia de Sandy e Júnior, eu acabei entendendo: eu sentia uma baita inveja da minha mãe porque ela era mulher. Eu não era. Ela sofria por ser mulher. E eu sofria porque queria ser, queria ter aquele corpo para que enfim as pessoas parassem de me julgar pelos meus desejos e identificações femininas. Eu estava cansado de tudo isso. Tão cansado que tentei o suicídio cinco vezes e tive que tomar remédios além de fazer acompanhamento psiquiátrico, da qual faço até hoje além de tomar diariamente estes antidepressivos e ansiolíticos.

Tornei-me uma pessoa fechada para os outros devido essa homofobia interna. Era um recalque tão profundo com a minha mãe que eu tinha intenso desejo e desprezo por ela. Desejo pelo o seu corpo. Desprezo por ela não saber usá-lo aos meus desejos estéticos preferenciais e sexuais. Mamãe perdia todos os dias a oportunidade de ser uma boa mulher. Uma mulher bonita e atraente. Ou até mesmo inteligente, mas descobri que os homens não gostam de mulheres inteligentes. Ele gostam de saber que eles sabem mais e que eles estão no controle de tudo sempre. Tudo é objeto no mundo dos homens, este mundo. Filhos, carros, amantes e profissão. Tudo é estética do regime político de ser homem. Dessa eterna heterossexualidade compulsória.

Papai não mantém mais contato. Até mandou uns cheques depois que foi para o Maranhão, mas depois não mandou mais nada. Mamãe começou a dar faxinas nas casas das patroas das nossas vizinhas. Muitas vezes mamãe bebia e chorava escondida.
Eu sempre lhe perguntava o que havia acontecido e ela sempre me dizia que era nada demais. Que era só cansaço. Mas a Margarete, nossa vizinha mais simpática, chamava ela para conversar num canto e mamãe dizia tudo. Tudo e mais um pouco. Era humilhada constantemente no trabalho pela sua patroa e era assediada ininterruptamente por seu patrão. Ela não estava aguentando mais e queria pedir conta. Margarete lhe dizia que era assim mesmo. Que esse foi o lugar reservado para as mulheres, que era ‘o nosso sacrifício diante de Deus por ter desobedecido Ele no Jardim do Éden’. Eu sentia cada vez mais ódio de Deus e de seus anjos falsos que nunca me protegeram na escola.
Mamãe se matou no dia 5 de Julho de 2006.
O lugar das mulheres é o lugar do silêncio.
E dos gays também.

Este conto faz parte do livro ‘Contos pela Cidade – Almas aflitas no subterrâneo do concreto’ disponível para venda em download no site Amazon do Brasil. Clique aqui e adquira o seu exemplar por R$ 3,17 apenas : https://www.amazon.com.br/dp/B01K3OEU3A

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