Procuro um canto.
E um bom livro.
Procuro um canto como quem busca socorro.
No barulho da cidade não há espaço para o silêncio. Nem para o pensamento. Outdoors, shoppings centers, lojas, supermercados. Todos te chamam para consumir. Consumir o meu pensamento?
Procuro um canto como quem procura o próprio rosto.
Em meio às prostituições do dia-a-dia, minha identidade se perde e antes de dormir, mal me reconheço no reflexo do espelho. Por isso busco um canto. E um silêncio.
Por isso me desencanto. Está tão difícil encontrar um canto!
Eu só quero ficar sozinho. Ouvindo os meus pensamentos e o barulho das ondas do mar de medos e angústias que me entorpecem. Mas muitas vezes, só encontro desespero.
Desespero de existir.
Desespero de insistir.

A partir do primeiro toque do alarme do despertado de manhã, meu coração sabe: serei eu, um ator. Visto o que me deram, falo o que me pedem, faço o que me mandam. Pura prostituição do ego.
Ordens por todos os lados me vigiam e punem, se eu me desviar da norma.
Eu detesto normas.
E odeio ordens.

Sou convidado a aparecer não parecendo comigo mesmo. Isso é de enlouquecer. Reprimindo o que penso, o que sinto, sou eu mesmo vivendo? Sou eu mesmo o que acho que penso?

Procuro um canto como quem procura a paz dentro do caos de si mesmo. Pois o relógio me diz que eu não me pertenço, que este corpo não foi feito pra mim e que mal percebo que nada sei sobre este mundo. Talvez eu esteja só delirando enquanto acho que estou vivendo. Brincando de morrer.
Pois sei que desde pequeno, imitamos uns aos outros. Que o meu desejo é o desejo do outro. Porém, me vejo solitário desejando a sinceridade, a honestidade num mundo avarento e doente de consumo de mais vazios, de felicidades em telas, de uma existência de plástico, de emoções embaladas para presente sem passado. Nem futuro há por estes lados. É o meu ‘eu’ sozinho no palco. Palco das perversidades diante das diversidades de tantas representações. De tantas maldades.

Eu tento representar, mas caio. Minha máscara desliza diante do choro contido, da histeria abafada pelo riso. Tudo é medido: palavras, gestos, posturas, pensamentos. Tudo é consumo de linguagem num jogo perverso de dominações. Há muitos submissos. Há um rebanho devoto do ódio espalhado como amor de cristo. Cristo está arrependido de ter vindo e chora em sua solidão de deus que falhou mais uma vez.
Tudo aqui na Terra é escuridão.
De volta ao início.

Procuro um canto e um rosto como quem procura a própria vida perdida em prantos. Pois desde que aprendi a andar, vivo calculando os meus passos para não cair mais, nem me machucar. Mas viver parece ser a resistência desta ferida exposta e sem cura. Pura alucinação dos deuses que nos criaram a sua imagem e semelhança. Talvez o tédio divino tenha criado a sua pior espécie: os humanos.

Mas estou sempre em busca do meu canto. Pois desde que aprendi a enxergar, vivo me perdendo entre os escombros dos prédios abandonados, entre as fumaças que poluem a atmosfera. Entre as chuvas ácidas que me queimam o peito. E queimam minha língua.
Eu não falo nada.
E morro em silêncio profundo.

Com um livro aberto, eu me reencontro. A vida através dos livros é sempre linda, divina e poética. O meu céu tem poucos centímetros e pesa pouco. Minha respiração é devolvida na medida em que mergulho nas palavras que leio.
A poesia é a minha espiritualidade.
Não há deus que dê conta da minha tristeza.
Só as palavras curam.
Só a poesia me entorpece de delírio sadio e de loucura perfeita. Na dose certa, me deixa inebriante, como quem revigora-se de vida abundante. A arte é o melhor antídoto da vida.
A arte me devolve pois o mundo me estupra, me assalta e me sequestra. E nessa entrega ao reencontro, eu transo no mistério do universo e gozo na existência. A energia de Eros me domina e me faz descansar dessa insanidade de 24 horas persistente.
Eu sou ninguém diante dos outros.
Eu sou um estranho para muitos, porque não sei mesmo quem age por mim. O meu patrão diz que é assim. Não questione, assim você vai longe. Então eu me calo e recebo o meu salário.
Fruto do medo, do assédio, eu desapareço.
Por isso vivo pelos cantos.
E nado contra tantos e contra mim mesmo.
Eterna guerra entre o mundo e o que desejo.
Luta sem fim pelo que quero e que sei.
Morte sem data prevista, eu vivo percorrendo estradas escuras a fim de desmontar quem somos. Sou visto como bizarro, esquisito.
O estranhamento é o meu lugar. É onde eu pertenço e é de onde eu nasço e morro todos os dias. É de onde eu saio para tentar me adequar e me sufoco.
Por isso leio livros. E livros não combinam com multidão nem barulho. Palavras são remédios contra as doenças do mundo. E o mundo anda tão lotado que as palavras que curam não aparecem nas prateleiras dos mais vendidos.
Tudo não passa de uma grande piada sem graça. Sem graça e sem noção.
Por isto estou só neste canto.
Estou só porque ouço a minha solidão e ela me devolve. As palavras surgem de dentro para fora e de fora para dentro como um vulcão bipolar. Turbilhões de sensações e sentimentos brotam e caem. Transbordam vida e me alimentam. Pois nem só de pão e água viverá o ser humano, mas de toda palavra que ele criar.

Este conto faz parte do livro ‘Contos pela Cidade – Almas aflitas no subterrâneo do concreto’ disponível para venda em download no site Amazon do Brasil. Clique aqui e adquira o seu exemplar por R$ 3,17 apenas : https://www.amazon.com.br/dp/B01K3OEU3A

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