Ela se foi.
Simples assim. Como escrever essa dor em papel. Parece banal. Mas dentro de mim há um vulcão de dor em erupção, fervendo-se com ódio, revolta e remorso.
Mamãe morreu.
Mamãe está abaixo de um metro de terra, sozinha. Calada.
Mamãe não voltará a abrir os olhos para me xingar, me condenar ou me reprimir.
Mamãe era e ainda é assim: um turbilhão de sentimentos em contraste com ela mesma. Ela não se entendia. Eu não a entendia.
Eu também não me entendia.
Eu não tenho outra. Poderia ter tido duas mães. Talvez isso amenizasse essa dor.
Mas a vida sempre foi avarenta comigo. Nunca tive escolha. As circunstâncias estavam sempre ali: dadas, à minha deriva.
Mamãe não era a ‘mãezona’. Aquela que brinca com os nossos amigos, faz bolos para recepcioná-los e está sempre sorrindo. Não.
Mamãe era sempre fechada.
Parecia que estava com medo deles. Medo de todos?
Medo do mundo.

Muitas vezes nós brigamos por causa do jeito dela. Mamãe era autoritária e ao mesmo tempo, ao sentir pena de mim quando eu apanhava de papai, me abraçava e me dava colo. Fazia cafuné.
A dor que eu sentia a tocava. Aliás, era nesses únicos momentos que ela me tocava com bom afeto e me afagava.
A dor que ela sempre carregou durante sua respiração em morte-viva assimilava-se com a dor da violência que eu havia sofrido. Mamãe era violenta. Abusava de sua autoridade como adulta(?) e mãe, e muitas vezes me ameaçava com palavras que me cortavam as artérias e a alma. Dizia que eu ia apanharia até morrer se eu fizesse algo que ela não gostasse ou detestasse. Tinha horror só de imaginar a cena.
Mamãe era sangrenta e mortal em suas palavras.
Centrifugava-se diariamente amor e medo. Muitas vezes o ódio e o terror eram seus signos mais fortes em nossa relação. Ou na minha relação com ela?

Mamãe dizia que apanhava sempre de vovó. Que chegou a perder um bebê quando minha avó descobriu que ela havia engravidado do meu pai. Perdi um irmão sem ao menos ter nascido. Muitas vezes eu me peguei imaginando como seria minha vida com mais irmãos. Teria sido mais fácil? Mais difícil?
Acredito que teria sido mais sofrido. Papai ganhava pouco e ainda ganha como mecânico de automóveis e mamãe, por sua vez, dedicava-se sempre ao lar, pois foi educada para isso.
Resignação e submissão lhe eram ordens de Deus. Jamais questionava isso, até mesmo quando sofria muito em ter que dar conta das traições de papai com a vizinha.
Lavar os uniformes dele com manchas de batons vermelhos era a sua maior humilhação como mulher, esposa e mãe.

Muitas vezes, na adolescência, queria trocar de mãe. Como a gente faz com produtos que compramos e não gostamos. Mas minha mãe não veio com cupom fiscal. Nunca tive direito de troca ou devolução. Nem créditos por sofrer junto o que ela sofria.
Mamãe era dor, e eu, a compaixão.

Mamãe morreu.
Esse sempre foi o meu maior medo desde criança. Às vezes achava que mamãe podia desaparecer a qualquer hora. Papai sempre saia nos finais de semana e voltava bêbado, deixando ela sozinha e sem dinheiro comigo em casa. Tinha medo que ela me abandonasse e fugisse para um lugar onde ela tivesse amor, carinho, afeto bom e colo, o colo que sempre lhe faltou quando também era criança. E eu até desejava muito isso às vezes, pois não suportava vê-la sofrendo, chorando sozinha e escondida no banheiro. Achava que eu era o motivo de ela não partir e buscar sua felicidade em outro lugar, com outra pessoa. Me arrependia de ter nascido e estar atrapalhando sua felicidade em outro lugar.

Na medida em que fui crescendo, fui ficando com ódio daquela postura de vítima. Xinguei muitas vezes, ofendi ela com palavras que mais eram tiros no peito do que as porradas que às vezes ela levava de papai.
Mamãe era demasiadamente humana. Tão humana, que era absurdamente miserável em sua existência. Palavra, aliás, que ela nunca entendeu até mesmo quando a leu no livro que eu escrevi.

Minha adolescência foi conturbada. Herdei o autoritarismo dos dois, tanto de papai quanto de mamãe. Exigia dela mais coragem para fugir daquela situação-prisão. Mas para o meu ódio e revolta, ela tinha medo de nada der certo longe de papai. ‘Ruim com ele, pior sem ele’, minha avó sempre dizia isso á ela. Esse ditado foi tatuado em sua alma de ‘mulher’ e cravado em seu coração, a contragosto.
Insistia em fugir de casa. Eu iria trabalhar, pagar as contas e ela poderia trabalhar na casa de alguma pessoa com dinheiro e pronto: seríamos felizes para sempre.
Seríamos felizes sem se humilhar tanto.
Mas para minha amarga surpresa, descubro agora que a humilhação está para os oprimidos como o poder está sempre para os sempre ricos.

Tornei-me feminista e trouxe várias ideias para casa. Falava delas com intenso ardor e paixão. Mamãe sempre me olhava com aquele olhar de quem estava percebendo que o filho havia enlouquecido e que precisava de cuidados.
Delírio.
Eu delirava em estar em paz com ela. É verdade.
Muita ingenuidade.

Mamãe chegou a adoecer. Câncer de pulmão, devido a quantidade de cigarros que fumava por dia e o montante disto em décadas foi devastador. Quando descobriu, o câncer já havia se espalhado pelo sangue todo, pois ela odiava em ir ao médico.
‘Médico só diz que a gente tá doente. A gente nunca tá bom! Então fico em casa mesmo. Já sei que estou morrendo a cada dia. No dia e na hora certa, todos cairão, e não adianta impedir com malhação, dietas e plásticas. A morte tem mandato e não espera.
Às vezes mamãe dizia coisas tão duras que parecia outra. Perguntava se minha mãe havia fugido de si por um instante e se eu poderia buscá-la onde estivesse.
Dor.
Mamãe era amarga e às vezes, muito fria consigo mesma.

Em certo momento da minha adolescência, já não suportava minha mãe. Ela nunca participava de meus conflitos internos e existenciais. Achava que era frescura se doer tanto pelas coisas.
‘Veja eu? Se fosse me doer com tudo isso que te aflige, já estaria morta. Dura no chão!’
Mamãe era dura comigo, porque era dura consigo desde que se machucou muito pela primeira vez. A vida foi lhe roubando a sensibilidade aguda e tornando-a estátua de pedra. Sua alma estava empetrificada como anjos tristes em cima de túmulos de pessoas importantes.

Eu já não queria estar ao seu lado. Me deprimia vê-la desfarelar todas as minhas expectativas de melhorias de vida. Da nossa vida. Cheguei a acreditar que já não gostava mais dela. Que não a desejava mais por perto. Tanto que busquei amor de mãe em outras mães. Mães de amigos. Meu ressentimento era a minha rocha. Tinha que carregá-la aonde estivesse.

Odiava o que havia restado da infância de minha mãe: trauma.
E trauma é ressentimento.
Mamãe ressentia todos os seus medos e angústias de criança quando eu apontava uma saída para aquela prisão em que ela se confortava. Eu tinha desejo de fazê-la desaparecer para sempre muitas vezes, porque já não aguentava vê-la sofrer. Porque ao vê-la sofrer, eu sentia que eu havia fracassado em todas as minhas tentativas como filho que a amava incondicionalmente. Eu me sentia tão impotente em minha existência, que desejava desaparecer em pó junto dela. Mamãe era só dor. Dor e sombra.

Escrevo porque todo escritor é covarde. E escreve para livrar-se da culpa, do remorso, da depressão. Sou muito covarde e também imensamente mesquinho em minha condição de pessoa existente. Em minha condição de pessoa consciente, em constante contato com a alteridade, eu sou somente um fracasso. Uma tentativa que não deu certo. E não dará mesmo.
Quem não conseguiu salvar sua mãe, salvará si mesmo?

Minhas palavras sangram culpa, fraqueza e fracasso. Acho que passei a vida inteira tentando salvar o mundo. Poucas coisas, mas muito poucas deram certo. Mesmo que temporariamente. A literatura é o consolo dos derrotados.
A literatura torna poética aquilo que mais nos mata: a angústia de ser impotente, pois no ato de escrever, o próprio autor se esquece. Esquece-se de si, de seus traumas e fracassos. Se esquece e viaja em seus delírios que dançam nas sombras de suas já tão fracas fantasias. O escritor é um miserável. Um derrotado.

O escritor adora escrever porque esquece também do mundo em que faz parte sem querer fazer parte. No ato de escrever, o próprio ensurdece e ouve somente suas dores que gritam em contraste com o que se exige de todo os seres: adequação. Porque a demasiada razão enlouquece e entorpece o espírito mais nobre. A consciência adoece e a tragédia na existência se faz iminente e intermitente.
Ouvir somente a razão é de fazer penitência na alucinação. Os jogos de linguagem são armadilhas para a pior prisão: acreditar que nada tem causa ou efeito e viver escravo do que não se sabe, mas que acredita saber. Tudo tem razão de ser e descobrindo isso, morre-se de desprazer e solidão.

A vida não passa de uma travessia entre a agonia e o fim. O que se encontra no meio são jogos, puros jogos. Quem não joga, é excluído do jogo da forca e das forças. É enforcado, apedrejado, queimado em fogueiras santas, enfraquecido de direitos, alijados em seu direito de existir e ser. Todos são condenados à morte por aparecer fora das normas dos jogos mortais sociais.
A ordem é da vertigem.
E a vertigem também é dor.
Dor da inadequação.

Penso no que não dizemos por medo de sofrer. Medo de doer de novo.
Mamãe se foi e eu nunca disse nada disso a ela. Não me sinto à vontade de dizer isso agora enquanto ela dorme o seu sono profundo na escuridão. Eu se fosse ela, voltaria e me assombrasse só para dizer que eu sou fraco. Que fui fraco e que isso é vergonhoso em meu caráter. E que isso não é coisa de adulto bem formado. Isso é coisa de criança atormentada e amedrontada.
E eu dou toda razão a ela.
Talvez mamãe tenha sido mais forte que eu.
Eu que nunca quis ter filhos, porque não sei amar incondicionalmente mais ninguém. Nem a mim mesmo.
Meu maior amor se foi e calou-se para sempre. Em dor e desespero, sendo sufocada por vermes e terras com mau cheiro.

Perdi milhares de chances de dizer todas as minhas angústias diante de tudo que senti e vivi ao lado dela. Mas descobri que para sobreviver, criamos a nossa própria ficção, porque nenhum ser humano suporta a crueldade do peso da dor de todos os fatos. Por isso rastejamos como insetos preguiçosos a fugir do perverso relógio do tempo. Buscando alívio aonde não tem, porque a luz do cordão umbilical nos foi arrancada. O paraíso eterno foi destruído. E choramos ao nascer porque sentimos a escuridão da falta. E falta é vazio. E o vazio é de enlouquecer.
Todos estão condenados à loucura. Por isso muitos morrem de prazer. Procurando em corpos alheios, aquilo que lhes falta: o calor do paraíso perdido.

Por isso não posso parar e nem posso me cansar de escrever: estou sempre de volta ao vazio. Estou sempre sentindo falta. Estou sempre lutando contra mim mesmo.

Este conto faz parte do livro ‘Contos pela Cidade – Almas aflitas no subterrâneo do concreto’ disponível para venda em download no site Amazon do Brasil. Clique aqui e adquira o seu exemplar por R$ 3,17 apenas : https://www.amazon.com.br/dp/B01K3OEU3A

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