Eu tento alcançar o real
Minhas mãos não alcançam
Meus pés são curtos demais
Minha voz ecoa num deserto infinito
Perdida entre o vento frio de um inverno
Intenso e febril como o vazio.

Eu sou mandado pro circo
Para encantar sorrisos falsos
Adormecer o que já não se sente
Mas o riso é sempre o riso do outro
A razão desse horror
Mora no ressentimento de cada um
Inveja que vira ódio.

A perversidade como espetáculo
Tem o seu lugar na grande mídia
Os imbecis atuam como lhes demandam
A sorte de toda maldade está na capa das revistas.

Meu mundo de papel se molha
Minhas lágrimas parecem represas
De tristezas presas em minha memória.

E ele cai em pedaços picados
Muitas vezes,
Voam para longe de mim
E quando chegam,
Rasgado e sem força
Eu o abraço
E começo a montá-lo.

Meu mundo de papel
Desmancha sobre mim,
Venenos do ódio gratuito e sádico
Me amarga a visão
Me enlouquece de angústia
Esta grande pedra que colide em meu coração.

Meus delírios de papel
Me paralisam com o sabor do fel
Da insistência em resistir
E poder reencontrar a beleza
Que some dos nossos olhos diante de tanta frieza.

Amarga-me o cheiro do sangue que jorra nas favelas
Eu tento engolir a comida
Mas eu estou carregando uma grande rocha de dor
Que me pesa o corpo e o peito
Me deixando imóvel.

A comida não desce
Volta porque não há espaço para mais nada em mim
No espírito,
Há somente um fardo da grande angústia que reside
Desde que eu nasci.

Tudo é náusea
E náusea é inadequação
E inadequação é dor sem fim e sem cura
Num mundo padronizado
Enquadrado num regime tanático
Onde todos morrem sem saber a razão.

Eu tenho pena dos meus filhos
Que já não conhecerão a sombra das árvores
Nem poderão se aconchegar num canto em paz
Se deleitando com um bom livro.

Eu choro com as minhas flores
O mundo padecerá de um século de frio
As pétalas não conhecerão o calor do sol
As geleiras farão sombra na superfície
De um mundo submerso em sua própria punição.

Enquanto escrevo,
Morro em cada palavra
E palavras sangram sem estanca
Sem chance de uma possível esperança.

A dor dá um nó na garganta
O ar desaparece com as minhas ilusões
Prostrado em minha própria dor de viver
Eu sou esmagado por ainda sentir
Por ainda resistir
E sou sorterrado por demônios que riem de mim.

Minhas palavras surgem de um oceano
Que sustentam minhas emoções submersas
Esperanças que afundam
E ilusões que flutuam na superfície
Na chance de respirar e encontrar alguma luz
Alguma paz.

Só há um peso aqui dentro
Que pesa mais que o meu próprio corpo
Me deixando insone e trêmulo
Gemendo por desejar o que ninguém deseja
Me contorcendo de dor por aquilo que ninguém mais se importa
Há mais de mim relutando contra a loucura do mundo
Do que eu supunha.

A porta está aberta
Mas ninguém entra
O silêncio é fúnebre e letal
A morte vem como uma surpresa
E destila o seu preço naqueles que sonham.

Mas poeta melancólico que sou
Sei que não há beleza sem trevas
A única maneira de suportar as maldades
Que insistem em destruir o meu coração
É escrevendo.

Assim, permaneço são
Então entendo que a dor está para a poesia
Como a poesia está para a minha condição.

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