É como uma chuva alegre
Lágrimas de prazer
De um céu a colorir.

É como respirar no mar
Com um céu escuro a enxergar
Monstros escuros a nadar
Palavras perdidas a se salvarem
É como um grito abafado pelo ar.

Lembranças a naufragar
Fotos exprimem a tristeza do olhar
O cansaço mancha a pele
Marca com linhas o sofrimento
O conhecimento adquirido através da dor
A experiência de viver em intensos conflitos.

É como cair e se achar
É como juntar todas as suas dores órfãs
E num momento de claridade
Dar sua vida em troca de fôlego
Advindo das palavras que buscam a vida perdida
Em um papel vazio e velho
A preencher nossas insanidades
Dar sentido as nossas insatisfações
E possíveis saídas para o nosso vazio.

É como uma chama que me aquece
E não me esquece
É como o calor
Que queima e não me deixa congelar.

É como uma chama que reascende
Expulsando as sombras dos meus sentimentos
Abrindo frestas numa escuridão a me afundar.

É como uma voz angelical
Que me chama para o arrebatamento
E num julgamento final:
A agonia de ser um eterno mortal.

É como uma chama
Que sempre esquecida
Se lembra de sua voz.

Assim eu sou
Chama molhada
A espantar os meus fantasmas
Faíscas de existência adoecida
A encontrar o seu lugar.

As fumaças advindas das fábricas
Não podem sujar e deter meus desejos insanos
De colorir o mundo com poesia
A percorrer a estrada da vida
Sorrindo e debochando da morte
A nossa infeliz e amarga vizinha.

É como tentar encontrar a superfície
Nadando contra si mesmo
E suspirar preso na angústia
E escrever poesias ao luar
Para deter a agonia
De viver e resistir
De existir e tentar.

É como se rastejar
Sabendo que a queda logo virá.

É como aceitar a tragédia
Abraçando a beleza de criar
Dando ao cinza impertinente
Alegria nas manhãs chuvosas
Escrevendo poesias até chorar
Amanhecer amando o som das gotas
Até se esquecer de você.

É como tentar enxergar na escuridão
Das capitais
Um resquício
Uma sombra digna de amor
Uma alma digna de vida.

Minhas lágrimas vermelhas me cegam
E eu não sei mais onde estou
Nem por onde andar.

Preso em meu próprio círculo vicioso
Eu caio diante da minha dor
E deixo a morte me levar
E me elevar.

É como sentir o céu sem tocar
E cantar canções de ninar com as estrelas
E dançar ao embalo das nuvens.

É como sentir o brilho intenso da lua
A iluminar todos os túmulos que criei
É como se Deus chegasse para me salvar
E eu que sempre esperei por uma resposta
Nada irei escutar.

É como suspirar o cheiro da melancolia
Suportar a náusea diária
E ainda ter tempo pra sonhar.

E para todo o sempre que há
Criar dor e beleza no desespero
E ver crianças a aprender
O castigo precoce de crescer.

É como experimentar o veneno poético-diário da morte
Sem perder a vontade de viver.

site270915

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