Entre sóis a andar
Entre areias secas a desbravar
Eu carrego minha tristeza de viver
Por ainda enxergar.

Caminho a esquecer os meus sonhos
Já não consigo mais lembrar
Do tempo bom em que sonhava
E esperava que esse mundo um dia
Fosse finalmente,
Se consertar.

A vender os meus picolés
Eu resisto na dor de prevalecer
Sobre minhas angústias a percorrer
Uma vida que nunca foi minha
Pois o meu destino já estava traçado
Antes mesmo de eu nascer.

O sol me adoece
Mas dói mais ter que esconder
A minha morte nas pegadas que deixo
Entre um mundo movediço
E a vontade de viver.

O meu chapéu esconde minhas lágrimas
O meu semblante só tem que obedecer
O freguês não gosta de gente triste
O fingimento é uma lei estética
Para sobreviver entre pessoas que não se importam com você.

Ao voltar pra casa:
Ônibus lotados de gente sem nome
Sem rg e cpf
Todos estão enquadrados
No grande corredor social da morte
Que sempre sustenta quem está no exercício de cargo de poder.

Eu recupero minha dignidade escrevendo
Parece que nas linhas de um papel em branco
Eu encontro forças para combater a dor
Que em mim já não cessa
E jamais dorme
Jamais me perdoa.

Para sobreviver é necessário esquecer
A dor de ontem
A angústia de existir hoje
E acreditar no delírio da fantasia
E fazer de cada dor
Uma fonte inesgotável de poesia.

 

Homem_caminhando_em_campo_deserto_

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