Um cobertor
Ele há de precisar
Ele está dormindo ali
E ninguém viu ele ao passar.

Um copo de compaixão
Ele está a pedir
Uma dose do amor
Do criador que vocês temem.

Uma almofada para descansar
Ele está a implorar
Um sofá para assistir
Tudo aquilo que ele nunca irá viver
Nem tocar
Nem sentir.

Ele está nas ruas abandonadas dos centros urbanos
Está deitado em tapetes de papelão
Onde se encontra diariamente com o descaso e a solidão.

Uma solicitação de amizade
Ninguém irá lhe enviar
Nem seus filhos
Perdidos pelo mundo afora
Irá o encontrar.

Ele é só mais uma sombra vagando pela cidade
Espalhando a feiura que não desejamos
Pondo a mostra aquilo que ignoramos
Porque somos aquilo que não gostamos.

Um corpo sem identidade
Um rosto que ninguém quer ver
Uma voz que ninguém quer dizer
uma dor que ninguém quer gritar
Nem ouvir.

Ele é só mais Um ‘resto’ sustentado pela humanidade.

Filho do ‘à Deus dará’
Fruto por acaso das circunstâncias
Ele estampa as calçadas das meritocracias aplaudidas.

Folha seca e sem vida
De uma árvore sem cor e sem abrigo
Ele é o preço dos juros do cartão de crédito
Um lixo acumulado pelo crediário.

Ele sobrevive calado.

Uma notícia descartada no jornal diário
De um mundo que surgiu da exploração e da extinção
Ele é só mais um ‘sem noçaõ’e’sem espaço’
Em meio a tantos asfaltos
Cheios de carros transitando a base de anti-depressivos
Gorvenados pela solidão.

Mas a história dos nossos herois são sempre reeditadas
Cheias de mentiras para enaltecer a emoção.

Beleza sem alma
Corpo que não é humano
Ele é o nosso Homo Sacer
Estética da nossa vaidade
O triunfo do grande horror econômico.

Ele é a dor que fingimos não carregar
Ele é apenas um mendigo.

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