Eu tomei os comprimidos
E fui velejar
Entre águas turvas
Eu vi o meu espírito se encobrir de sombras
Eu vi minha alma descansar.

Eu dei uma chance pro fim milagrosamente chegar
Mas tudo que encontrei foi o gemido solitário
Dos corvos a pousar nos galhos secos das árvores
Dos lobos à espreita
À me devorar.

Em terra firme (?) de uma lama escura
Eu dei longos e lentos passos em busca dela
Estaria ela me negando?
Me impedindo de partir?
Estaria o destino me negando o visto para a grande passagem?

Eu sinto tudo e sinto muito
Estou a insistir
Eu tento fingir que estou bem
Mas não sei a cor da alegria
Nem sinto o toque da vida
O dia cinzento me persegue em dias claros
Radiantes com o sol
Mas eu estou a cair subitamente
O meu humor muda bruscamente.

A morte física me despreza
Vive a me ignorar.

O reflexo de todos refletiu nisso
Uma sombra embaraçando diante do espelho
Um ser que não é
Nem de longe ele mesmo
E vive a cantar palavras que sangram ao vento
Num rio cheio de lágrimas a nadar contra a maré
Desaguando em nenhum lugar.

A sujeira de todos eles me inundou
De impurezas e incertezas
De toda imundice que há e que sempre se fortalece.

Eu sei que exijo muito
Eu sei que devo parar
Mas o caos que transborda em mim
Quer falar
Quer gritar
Quer chorar
E sabe que não há cura para a dor de viver neste mundo
E que todos estão condenados à existência.

Eu encarei os meus disfarces
Me despi dos medos
E encontrei uma alma solitária
Traumatizada com todos os seus reais pesadelos.

Entre a luz que desejo há uma grande névoa
Que embaraça tudo o que eu vejo diante de mim mesmo.

De repente sinto que sou um rio contido
Seguindo viagens perdidas na escuridão
Percorrendo caminhos sem solução
Gritando em ruas sem saída
Neste eterno labirinto entre a vida e a morte
Um enorme epitáfio sem uma frase reconfortante
Um menino medroso eternamente escondido em sua solidão.

Eu decidi cair e me enfrentar
Vi o meu rosto pálido afundar
Com todos os seus desejos reprimidos
A estampar feridas expostas
Diariamente ocultas a se entregar.

Deito-me entre defuntos que ainda me fazem pensar
Que há tempos tentam me consolar
A primavera desta vez não irá desabrochar flores lindas
Há rosas negras a despetalar gotas de orvalho e sangre negro
Há anjos caindo sobre minha infame fantasia e delírio
Há, sobretudo em mim,
Castigo.

Meus olhos estão sempre a jorrar
As dores do meu peito ferido
Deste coração mal tratado pelos animais frios deste mundo
Eu busco uma resposta
Uma redenção
Uma salvação para essa eterna autodestruição
Não há.

Sonhos e pesadelos dançam em minha mente
Me confundindo o que é real e alucinação
Tudo isso é mesmo real e verdadeiro?
Ou é uma ficção de uma vida espectral?

Nuvens pesam e passam sobre mim
Os corvos cantam suas canções assombrosas de ninar
Eu busco um refúgio para esse luto
Uma beleza perdida no escuro
Uma palavra,
Um gesto
Um ser de outro planeta para conversar.

Desisto.
Não há.

Meus delírios estão a bailar
Entre o sonho de um mundo infantil possível
E a derrota dos que sonham
E o fracasso iminente para os amam demais.

Em algum momento eu alcanço a minha voz
E sinto as dores de todos aqueles que se foram desiludidos
E percebo que estamos eternamente juntos na arte das palavras
Entre parágrafos vazios e apóstrofos invasivos
Então tento encontrar o que aqui ainda me faz sentir vivo
O que me faz tentar resistir nas reticências
Tentando respirar insistentemente entre’linhas.

Por um instante só há eu e o infinito
Uma alma perturbada sob um céu escuro
Com suas estrelas a brilhar solitariamente
E vejo formigas trabalhando evitando sentir muita dor
Vejo moscas-varejeiras se arrastando
Se alimentando de suas imundices
Colhendo aquilo que suas consciências podres lhes gardaram
O triunfo letal do descontentamento sufocado em sorrisos plastificados
Corpos coisificados em sociedades de tantos espetáculos.

Há cheiro de sangue inocente e frescor da maldade dos seres humanos
Nas fumaças tóxicas das chaminés das fábricas
Há tantas armas por trás dos caros paletós que vejo na tevê
E sinto que não pertenço a este lugar
Não desta vez.

E por um sagrado momento me vejo flutuar
Sem nada a me pesar em desgraça astral
A melancolia dá espaço a leveza
E a alma se eleva em chamas de transvaloração.

Eu estou aqui mas não pertenço a ninguém
Sem caos desenfreados nem ressentimento
Sem consciência torturadora nem existência adoecida
Eu sou o meu rei e o meu escravo
Eu sou eternamente rico e miserável
Enquanto eu puder sentir dor.

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