Acordo.
São 3:30 da manhã.
Meu corpo anseia por falar. Quer que eu lhe devolve sua voz. Quer gritar. Ou quer chorar.
Ao contrário do que pensaram a grande maioria dos filósofos, o corpo tem vida e vida que intensamente pulsa. Pulsa porque quer manifestar seus desejos, sua própria vida. E nós somos porta-vozes dele.

Queria ter escrito este texto ontem pela tarde, quando o tinha terminado. Mas ignorei o desejo do meu corpo e fui brincar de viver, sentindo um mal-estar comigo. Meu corpo queria falar. Eu estava calando ele. A dor que me subia ao peito era um sintoma da angústia dele.
Por que só você acha que pode falar?
Por que tenho que falar só quando você me autoriza?
Essas são umas das indagações dele.

Atualmente temos dado atenção ao corpo, mas não do jeito que ele desesperadamente tenta nos dizer. Estamos todos doentes, mesmo quando se tem um corpo belo, definido por musculação ou por esportes. Nossos corpos estão sendo sufocados, torturados por nós mesmos. Estamos calando quem nos dá a própria vida. Estamos sendo autoritário com quem nos faz falar, andar, correr e dançar. Desprezamos terrivelmente os nossos corpos.

Vejo no dia a dia, corpos sendo aviltados por cirurgias, alimentos que os deformam, roupas que os ostentam, e culturalmente, vejo corpos sendo expulsos de circulação. O corpo tornou-se um capital, um grande investimento. A ciência agradece e as indústrias da estética também.
Vejo então, corpos cada vez mais doentes. Corpos carentes de bons afetos, de toque humano, de viva ‘com vida’ e não de plasticidade, marcas e músculos belamente aparentes. O corpo quer falar, mas ninguém deixa. Ele sufoca-se na miséria que os sentenciamos. A cultura agradece.

Ao contrário do que os grandes historiadores da filosofia pregaram, e digo ‘pregaram’ no sentido religioso mesmo, é que os nossos corpos são os nossos maiores inimigos. De certo modo, somos meros animais transitando numa civilização que nunca existiu e que de fato, nunca existirá.

Nos privamos de grandes desejos sexuais em nome da moral, da boa conduta cristã. O corpo sofre por inatividade existencial. Ele não é nosso ‘outro’. Ele é eu, é você e quer respirar, experimentar a vida sem ditaduras discursivas, estas, mera drogas da tradição.

O corpo é uma contradição à tudo que nos é imposto. Ele é revolucionário por natureza. Os seus grandes desejos quando realizados e saciados, nos povoam de imenso prazer, nos levando a um estado quase sagrado com o universo. É como se pudéssemos tocar as estrelas no céu, ou simplesmente penetrar no espaço sideral em pleno gozo. Falo de desejos do corpo, que não são meramente sexuais, mas também intelectuais, sendo ele reprimido intelectualmente e sexualmente desde que nasce, sua maior angústia reside ai, na privação do saber e na privatização dele com as marcas de alimentos, de roupas, de cosméticos ou suplementos.

Vivemos rebaixando os desejos dele. Vivemos esmagando nós mesmos. Nos castrando, nos fantasmagorizando enquanto seres existenciais sedentos por novas experiências, mas experiências reais e não pseudo- experiências.

O corpo trabalha, o corpo estuda, o corpo dança, o corpo se fere, o corpo adoece. Mas pior do que a doença que nos deixa de cama por infecções, inflamações é a doença da carência, da negação de sua vida, e vida que abundantemente quer transbordar mais vidas, nos deleitando de imensos prazeres, e não digo dos prazeres estéticos, mas sim, dos prazeres que ele anseia. E um corpo realizado em seus prazeres é um grande caminho para uma mente mais saudável, visto que sofremos mais mentalmente hoje do que ontem. Porque além de carregamos nos nossos corpos a deriva da velha tradição cristã, carregamos ele com as propaganda ostentadas que compramos fielmente nas TVs, nos outdoors e nos telejornais.

Compramos notícias, verdades e mentiras e compramos política, o que nos faz triunfar enquanto animais selvagens prontos para atacar o oponente e nos faz fracassar enquanto animais sedentos de vida, cheios de pulsões vitais a nossa saude física e mental, implorando que não sejam violentadas, ignoradas, sucumbidas e até torturadas. O corpo está sendo descartado. Ele tem raça, credo, cor, religião e orientação sexual. E prazo de validade, principalmente. E sua linguagem nos revela: somos todos doentes.

Enquanto escrevo, sei que alguém já deve ter tomado um comprimido para dor de cabeça, para o próprio corpo, outro deve estar tomando o seu antidepressivo, outro deve estar se sufocando em álcool.

As drogas são permitidas porque fazem parte da sociedade do controle, para lembrar Michel Foucault, grande personalidade de gênio inquestionável. Nos drogamos, licitamente e ilicitamente por que somos ‘liberados’ a nos drogar, desde que não nos esqueçamos de nos encobrir com as vestimentas da vergonha que a moral traz, da sensatez dos bons e velhos costumes, respeitando sempre os protocolos sociais. Sempre
vigentes, sempre ditatoriais.

Então levanto e obedeço ao meu corpo. Sou escravo dele. Ainda estou aprendendo a domá-lo e a saciá-lo, dando de volta o prazer que lhe foi proibido e dando-lhe a voz que lhe impediram. E não sonhemos, não há equilíbrio nesta guerra contra o corpo. Estaremos sempre em conflitos com os nossos desejos porque a cultura muda e os costumes também. Mas sempre haverá política e discursos de castração dos corpos. Sempre.
Deter o corpo é deixar imperar eficazmente o poder. Mas se nós tomássemos de volta a liberdade que nunca nos foi dada, podemos devolver a vida dos nossos corpos de volta. Quem sabe?

Eu tento respeitá-lo em sua singularidade e especificidade. Dou o prazer que deseja, que também é intelectual. A mente agradece e o corpo fala e discursa em sintonia com que eu sou. Esta batalha é velha, mas tão atual, mortífera e mordaz. Termino o corpo deste texto porque dei voz ao meu corpo. E você, já falou com o seu corpo hoje?

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