Lembro-me da infância com uma magia que todo ser que pode viver esta fase incrível da vida vive. Mas sinto também, bem misto, uma dor insuperável. Desde criança fui exposto aos extremos. Violência doméstica era rotina. Bebidas, brigas, palavrões. Tudo era rotineiro. Talvez resida ai a idéia de eu ser tão intenso. Talvez isto sustente a noção de eu ser 8 ou 80.

Da magia a imperatividade da heterormatividade que dessubjetiva qualquer criança gay, eu fui levado ao extremo da ignorância. Mas ainda guardo boas lembranças. Meus pais, frutos do poder, educaram-me com toda violência que há e que se pode exercer sobre uma criança que busca amparo e aceitação dentro de casa.

Eu lembro de algumas vezes ter me queixado sobre uma colega branca, de olhos azuis e cabelos louros e lisos que me chamava de viadinho durante o recreio, e que eu não sabia fazê-la parar. Minha mãe, sempre outorgava o seu poder para o meu pai, que logo me repreendeu: mostre o piru pra ela. Você não é homem não?
É, mostre o piru pra ela. Meu irmão enfantizou a fala do seu pai herói.
O que ninguém sentia era a minha impotência. Eu pensei: eu estou sozinho nessa.

Eu operei de fimose ainda quando era bem pequeno. Não lembro que idade eu tinha. Lembro que desde que sai do hospital até os dias de hoje, o meu tio paterno, sempre ‘gozador’, brincava comigo: cadê o piruzinho? Sabia que cortaram o piru dele na cirurgia? Só sobrou um restinho.
Isso aconteceu durante toda a minha infância e pré-adolescência. Na adolescência não aconteceu porque eu parei de me socializar com a família, como tenho feito até hoje. Socializo pouco, o bastante para sobreviver.
Sei que tenho dificuldades para mostrar o meu pênis durante uma relação sexual. Tenho dificuldades ao ir ao banheiro público. Sinto-me menos ‘homem’ por isso. Sei que vou ser ridicularizado quando verem. Sei, mas não posso evitar a humilhação.

Minha mãe dissera ao meu pai que eu estava tendo problemas de relacionamento na escola. O problema era o meu jeito. Um jeito que todos que conheciam o meu pai, diziam na minha frente: esse aqui vai dar trabalho.
Sempre fui tímido, retraído. E com muita razão. Minha família me dava medo. Logo, teria medo de todos. Ai talvez resida a razão de eu ser tão antissocial e de até de certo modo, misantropo. Tenho desânimo de conviver, porque tenho em mim, uma irritabilidade e uma preguiça que provém dos absurdos que ouço e vejo e que não consigo conter a postura de tão puto que fico. Acho que fui abusado demais. Por isso não tolero mais.

Meu pai ordenou que minha mãe me colocasse para ver um filme pornô (hetero, claro) com as vizinhas. Nem precisa dizer que até a altura da tarde, todos na vizinhança já sabiam o que estava acontecendo lá em casa e o que iria acontecer comigo naquela tarde.
Foi horrível. Humilhante, repugnante e monstruoso. Me senti como uma ofensa só por ser, existir. Como se existindo eu estivesse infringindo uma grande lei, o que não deixa de ser verdade. Eu estava sendo dessubjetivado. Morto em meus desejos. Passei a ter raiva de mim. Na verdade, ódio. Minha auto-imagem era pura sombra, dor e sangue. Vergonha.
Eu tentei tampar os olhos, mas minha mãe ordenou que eu continuasse olhando, para que virasse ‘homem’. Você quer ser chamado de bichinha?
Não lembro a idade que tinha, antes que se perguntem.

Eu sei que o meu problema era um problema de todos. Das quais as reuniões de domingo em família não deixaria de ter como assunto maior: o meu jeito. Tios e tias me injuriavam. Mas isso era costumeiro. Meus pais me injuriavam. Meus irmãos, meus vizinhos e meus colegas de classe e desconhecidos da escola.

Estranho foi que (não lembro ao certo quando, pois as lembranças surgem não – linearmente) eu fora reprimido por uma vez ter sido pego desenhando um casal hetero fazendo sexo. Não me lembro que idade tinha. Mas com certeza estava sublimando ali o meu desejo sexual, exercendo a minha libido.
Meu irmão viu e contou para a minha mãe, que contou para a vizinhança toda, que me deixou com a sensação de que eu era um monstro. E que outorgando para o meu pai, como sempre, me deixou à beira do pior horror quando era criança: apanhar do meu pai.
Eu não tinha medo típico de criança que tem medo de apanhar. Tinha trauma. Meus pais bebiam muito e sempre brigavam. E minha mãe sempre apanhava dele. E os filhos sempre viam tudo. Meu irmão, que era dois anos mais velho que eu até tentava, mas não conseguia separar. Era por demais pequeno. Eu, por medo de morrer (mesmo morrendo subjetivamente) não intervia, por covardia e rezava pedindo a Deus que salvasse minha mãe. Minha irmã, mais nova que eu, só gritava, histericamente.

Meu pai não me bateu. Mas me ameaçou disso se eu desenhasse aquilo outra vez. Só fui conseguir me masturbar aos 21 anos. Porque não conseguia imaginar o ato sexual na minha cabeça, por mais que eu já tivesse relações sexuais com homens. Estranho né?

Minha mãe me levava a uma benzedeira sempre. Levava meus irmãos também. Uma vez, ouvindo uma pregação de um pastor neopentecostal, ouvi dele que muitos ali que sofriam era por obra de macumba, de benzedeiros. Acreditei que minha mãe me levava naquele lugar tentando me curar da minha homossexualidade e por ter tentado na igreja católica e não tivesse tido sucesso, eu deveria ter sido possuído por algum espírito ruim.

Lembro-me de ter participado fielmente com ‘ofertas especiais’ em campanhas e correntes de fé, que mais se pareciam explicitamente com campanhas publicitárias para vender a esperança aos que sofrem. Passado muito tempo, eu tentei o suicídio por diversas vezes. Quase consegui em alguns. Um terapeuta me curou sem que eu percebesse, da minha homofobia interna.

Hoje eu sou só depressivo, num quadro quase crônico com transtorno de ansiedade generalizada, a famosa ‘síndrome do pânico’. Tenho em mim, desejos que sempre se confrontam com os meus milhares de medos. Queria que eles fossem embora. Queria apagar da minha memória as violências que sofri. Mas não podemos mudar o início da nossa história. Mas podemos tentar recriar um novo fim. Feridas que não cicatrizam se tornam fantasmas. Fantasmas que nos assombram e assombros viram palavras em mim. Viram arte. Que isso sirva para alguma coisa. Ou não terei feito nada além de resistir a minha própria morte prévia e precocemente condenada a viver. Inverter é o jogo da vida que já se encontra perdida. Memória assombrada é consciência perturbada.

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