Estou sem falar há dias. Qualquer som que eu emita pode ser repreendido e castigado. Eu fiz algo horrível. Meus pais estão desapontados comigo. Meu irmão parece contente em me delatar. Minha família parece estar feliz com a punição.

Não sei quantos anos tenho. Só sei que errei. E me sinto imundo como ser, cruel e imoral, um monstro. Estou imundo de pecado. Estou infeliz comigo por entender que possuo desejos horríveis, maldosos e obscenos. Meu pai não me bateu. Mas disse que se eu fizesse de novo, que eu iria me arrepender de ter nascido.

Eu senti tesão. Não lembro como. Lembro-me de estar folheando uma revista de perfumes baratos quando um desejo se apossou de mim. Então desenhei um casal hetero transando. Desenhei porque a imagem ficou gravada em minha memória. Eu e meus amigos costumávamos procurar revistas pornográficas embaixo da cama de nossos pais. E sempre encontrávamos. Era incrível. Descobríamos o que tanto eles evitavam falar em nossa frente, mesmo quando faziam piadas obscenas. Sussurros, semblantes envergonhados de prazer denotavam que aquilo que escondiam era bom, muito bom. A porta do quarto dos pais fechada no dia certo e na hora certa denunciavam que estavam ‘fazendo aquilo’. A censura era imperadora. Não se falava, mas se insinuava, deixava-se vestígios daquilo que eles não queriam que soubéssemos.
Eu e meus irmãos eram colocados para fora de casa. Ficávamos com os vizinhos que conversavam em códigos entre eles. A gente sabia do que estavam falando. Papai e mamãe estavam fazendo aquilo que nos proibiam.

Certa vez tive uma idéia enquanto eu, meus amigos e primos estávamos brincando na casa que estava em construção. Havia uma cama de casal na casa. Está vamos brincando juntos. Ao ouvir os sons da nossa família voltando da feira, decidi com eles, fingirmos que estávamos dormindo.
Foi certeiro.
Uma onda de ódio, repúdio e histeria tomou conta de toda a família. Palavras de horror, terror, violência e punição eram proferidas sem mediação. A castração dos desejos é uma lei sacra. E as crianças não podem ser poupadas. Se possível, torturadas.
Minha mãe ameaçou dizendo que eu e meus irmãos iríamos apanhar assim que meu pai chegasse. Uma onda de pavor se instaurou em mim. Um terror sem dimensão tomava-me conta por completo. Eu riria morrer de tanto apanhar?

Lembro-me de ter rezado a tarde inteira, pedindo a Deus que me protegesse da violência de meu pai. Que eu não fiz nada desejando mal. Eu não era culpado. Ou era? A idéia foi minha.

Meu irmão estava atrás de mim e em silêncio quando me viu desenhando a ‘obscenidade’. Vou contar pra papai, ameaçou de cara com tom de um algoz, um sacerdote da moral e dos bons costumes. Eu estava sendo vigiado e não sabia. Meu irmão tomou a revista de mim, sem me dar uma chance de me explicar. Vou levar pra mamãe!
Medo. Pavor.
Eu seria reprovado e torturado assim que a revista aparecesse nas mãos do meu pai. Conseguia ouvir os sons da fivela do cinto dele sendo retirado de sua cintura poderosa. Sua mãos eram fortes. Eu era pequeno e ele, muito grande e monstruoso. Eu iria morrer, com certeza.

O conflito estava armado. Minha mãe soube, minha irmã também. E logo a vizinhança inteira estava sabendo do mal que eu havia expressado. Do horror que eu havia cometido. Do mal que eu carregava em mim e que de mim, ganhava vida e deixava todos perplexos. Eu era muito mal. Uma péssima criança.
Vou deixar isso aqui para o seu pai ver! E você vai ter o que merece! Vai se arrepender de ter nascido!
Mamãe sabia colocar terror psicológico. Aliás, isso é uma das suas maiores armas até hoje. É aonde ela sabe que pode me controlar.
O tempo começou a se voltar contra mim. Os segundos, as horas pareciam desejar a minha castração, a grande punição. Eu não sabia se iria sobreviver a tanta violência. Meu pai costumava bater muito na minha mãe. Eu sabia que ele era muito forte. E ela só estava viva porque eu rezava muito pedindo a Deus que a salvasse das garras dele várias vezes. A vida dela dependia de mim. Das minhas orações. Mas ela não sabia. Eu nunca dizia. Ela nunca dizia nada no outro dia. Ninguém dizia nada. Os vizinhos sempre apartavam as brigas e nos retirava de lá. Eu sempre sentia que minha mãe ia morrer a qualquer hora. Por isso levava as bandejas com facas e garfos para casa dos primeiros que nos resgatasse daquele incêndio de ódio, raiva, ressentimento, disputa de forças e dor. Muita dor e desespero que disputavam lugar com a angústia de ver e sentir tudo aquilo. Era como se o mundo desabasse em mim e diante de mim.

Mas agora era comigo. E não tinha ninguém para me defender, pois eu desapontei a todos. Eu fiz algo perverso. Eu era um pervertido. Passei a tarde toda quieto, isolado. Eu não queria morrer. Oh Deus me salve disso tudo! Eu gritava em silêncio, chorando sozinho e me sufocando em prantos, num cantinho atrás da casa na qual eu sempre ficava quando me sentia muito ameaçado.

Meu pai parecia o gigante Golias e eu, o medroso e fraco réu Davi. Era como um julgamento. E eu esperava minha sentença. Todos sentados no sofá, ansiosos no tribunal da sala minúscula de estar. Paralisados de prazer e me olhando. A minha desgraça estava sendo assistida por quem eu queria que me salvasse. Eu não fiz por mal. Eu não sou mal. Sou?
Parecia uma novela real. Eu era o vilão. E minha mãe, meu irmão e minha irmã eram os telespectadores.
Eu estou num canto, congelado por meus medos.
O medo que sinto é o próprio medo da morte.
Angústia daquilo que não fiz para agredir ninguém.

Estranho pensar que me orientava sexualmente pelo meu pai. Tinha desejos sexuais que toda criança que começa a se orientar tem. Era pulsão de vida e de morte me aterrorizando. Era a vida me castigando. A morte se aproximando porque estava me aproximando da vida.

Meu pai chega e minha mãe dá a revista a ele apressadamente. Ele logo tira o cinto. Eu vou morrer, eu sei. Meu coração parece pular para fora. Está palpitando demais e eu não consigo manter ele mais calmo.
Perguntas são feitas ao meu irmão. Meu pai fala alto, num tom agressivo e trovejando ódio, raiva de mim. O meu irmão responde com imenso prazer.
Perguntas são feitas a mim e eu mal consigo falar.

A sentença foi dada.
Uma ameaça: eu iria apanhar até ‘virar homem de verdade’ caso repetisse aquilo. Eu não apanhei. Fiquei sob a vigilância de qualquer ato obsceno que sendo delatado novamente, não ia passar como passou.
Você vai se arrepender seu moleque safado!
Estava dito.

Eu agradecia a Deus em minha mente, por ter me ouvido e me salvado. Eu era muito grato por ele me conceder a vida de novo. Mas o terror estava instaurado. E a angústia de ser quem eu era também: uma ameaça a mim mesmo. Eu era a ameaça a minha própria vida. Uma criança que dava seus primeiros passos de vida podia a qualquer momento, antecipar sua própria morte. De agora em diante sei que não sou uma boa criança e que sou sujo, pérfido. Eu nunca serei bom o bastante.
Nasci errando, causando ódio.
Vivo errando, tendo ódio de mim e de todos.
Vivo em silêncio profundo.

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