São cinco horas da manhã e o sol ainda não surgiu. O que me faz pensar que é muito cedo para um cidadão levantar.
Olho para o despertador com ódio. Ódio do tempo. Ódio de estar preso a esta vida que de tão besta, é quase inútil.
Neste momento, entre o desejo de me deitar e continuar dormindo e ter que obedecer as regras impostas pela sociedade do controle, eu morro. Morro extremamente infeliz. De derrota, de cansaço, de sentir mais uma vez o gosto do fracasso. De viver se carregando, se arrastando descontentemente.

Não faço o que quero, nem o que gosto. Mas o que posso dentro das chances que tenho. Se eu fosse somente uma sombra, teria a chance de viver somente sob a dor. Mas sou animal e sinto fome.
Preciso caçar.
E caçar numa civilização da moeda é consensuar com o poder e com a corrupção. E não tenho orgulho disso. Não tenho orgulho de mim.
Não pedi para nascer. Mas nascer é pedir pra pagar e viver é pagar um preço de uma conta que você não fez, mas por causa da natureza, se nasce e não se pode voltar para o ventre novamente.

Neste momento eu caio. Caio em minha impotência. Caio em minha dor que não passa e nem se cura. Pelo menos enquanto for humano e racional. Habita em mim um sono profundo, quase mágico. É um refúgio, quase um cemitério cheio de almas cansadas deste mundo. O sono do corpo mescla-se com o sono que acorda em mim desde que abri pela primeira vez os olhos, e numa fusão difusa, me entorpece o espírito, fazendo-o sangrar. Logo pela manhã.

Vivo cercado de predadores terrestres que me fazem afundar no meu mar de emoções e sentimentos densos e agudamente tristes, me envolvendo numa neblina angustiante enquanto sou mordido pelo cão da depressão. Ou será apenas melancolia?
Não sei.
Tenho sempre comigo, vários frascos.
Um para cada sintoma.
Um para cada doença.
Todos para uma causa: ferida na existência.

Insisto em continuar vivendo. Por que? Se posso apagar minha vida deste descontentamento?
Covardia, ora.
Ou também, ousadia.
Então viver é ambíguo. Só se deseja viver porque há desejo. E o desejo de morrer surge quando vários desejos não se realizam, não são saciados e com isso: a maldita angústia para fazer companhia assombrosa com a existência. Logo, o desejo de morrer é o desejo de viver.

Só tem o desejo de morrer quem quer viver livremente e sabe que jamais será possível. Ao menos se tem consciência do que é ser realmente livre. Não ser insano, ser livre para fazer e viver do jeito que se tem somente prazer, sem muitas negociações e demasiadas concessões. Essa estrada é percorrida por poucos. E para chegar a essa estrada, é preciso ter feito muitas negociatas e várias concessões.

Assim caminho. Contraditório e num paradoxo. Morrendo e sobrevivendo ou sobrevivendo esperando a morte. E viver é isto: um caminho em que ninguém poderá percorrer por você. A estrada é sua porque ela só existe porque existe você, e não dá para fugir da condição de fazer escolhas e ter que acertar as contas depois.

Só de abrir a janela do meu quarto sinto o cheiro da morte. É um cheiro forte e desagradável. Ou é só desagradável porque é da morte? Talvez seja esse o cheiro da vida. Um cheiro contínuo daquilo que não gostamos, mas temos que encarar todos os dias. Um sabor amargo, provado pelas beiradas, mesmo quando tentamos adoçá-la com drogas estéticas ou químicas.

Viver é perder a vida antes de morrer.

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