Não sei se nasci ou se comecei a morrer. Tenho menos de cinquenta centímetros e peso três quilos e meio. Todos me olham e eu não me sinto confortável. Não vejo a razão de tanta histeria boba. Eu sou um bebê como todos. Não sou bonito demais, nem feio demais.
Eu só quero que todos vão embora e me deixem em paz, em silêncio. Assim eu posso cochilar e descansar. Acho que nasci cansado. Dizem que o meu parto atrasou e que eu demorei a sair, que quase morri sufocado em minhas fezes.
Se eu soubesse que teria tanta gente me tocando, falando alto e dizendo coisas estúpidas, eu teria demorado mais, e morrido sufocado. Seria menos doloroso.

Essa exposição social me irrita muito. O convívio também. Ninguém sabe que minha mãe não gosta de mim. Que me teve forçada, a fim de ‘dar uma menina’ ao meu pai. Então eu vim.
Nasci errado. Nasci sendo rejeitado.
Todos dizem ‘que lindo’, ‘ele é a cara do pai’, ‘ele não tem nada de você, né?’.
‘É, a gente que sofre nove meses e eles nascem parecidos com os pais. Não é fácil não.’ Minha mãe se esforça para demonstrar uma alegria, que de tão falsa, me dói.
Talvez eu até gostasse mais dela se ela me poupasse desse teatro todo. Me livrando de gente patética cheia de etiquetas frias e falsas. Não costumo lidar bem com afetos programados. Me sinto um ninguém nesses momentos, um nada, como se não fosse digno de um afeto verdadeiro.

Minha mãe está sempre sorrindo quando tem visita. Mas o seu humor muda quando o meu pai chega. Quando ele vê que o que nasceu não é a filha que ele tanto esperava, e sim um menino magro e pior, parecido com ele. O que faz ele se odiar ainda mais. Meu pai bebe todo o final de semana para esquecer o quanto ele é fracassado e infeliz. E minha mãe o acompanha em suas trajetórias derrotistas. Uma trajetória cúmplice e mútua.

Meus parentes vêm me visitar. Este é sim um momento mais verdadeiro e agradável. Gosto de ver os meus primos, também pequeninos e frágeis como eu. Meu irmão mais velho me belisca, com ciúmes. Eu choro, só para afastá-lo de mim. Não gosto muito dele. E minha irmã irá nascer logo, logo. Meu pai não se dará por vencido pelo menos nisso. Ele ‘possuía’ uma mulher, então iria fazer filho nela até acertar. Quem sabe assim, ele comece a gostar de mim?

Mamãe não liga de ver o meu irmão me beliscando e em vez de pedir o meu irmão para parar, diz com voz firme e raivosa ‘cala a boca menino’ ‘Eu hein, chora a toa’. Parece uma menina.
Me sinto ainda mais diminuído quando ela diz isso. Eu tento me calar, mas as beliscadas doem. Minha pele é muito fina e sinto qualquer coisa intensamente. Minha mãe não parece saber disso. Ou ignora, simplesmente. Porque eu nasci errado. Porque ela ‘fez errado’ como disse o meu pai. A culpa a envenena e me amarga também. Nossa relação não é boa.
O que mais me indignava era os falsos sorrisos. O protocolo de uma mãe que acaba de ter um filho é de estar feliz, em pleno gozo de sua existência, como se toda mulher se realizasse ou se completasse como ‘humano’ sendo mãe. Minha mãe teve o meu irmão mais velho e não está feliz, nem plena de nada. Só a derrota lhe faz companhia ao teu coração. A vida lhe derrotou, por consentimento também talvez. Ou por conformação. Ou por cansaço de tentar dar certo.

Na hora de me amamentar, é uma tristeza. Eu não consigo abocanhar direito o mamilo para tomar o leite. Daí eu recebo palmadas, que doem muito, por não saber segurar a minha pequena boca em seu peito. Eu sofro a dor calado, por que sei que vou apanhar mais. E me odeio. Odeio ser covarde. Mesmo que por instinto de sobrevivência.
Porque o orgulho ferido é a pior ferida. É a ferida que sempre pede vingança. É a ferida que nunca se esquece e que todos nunca se cansam de lembrar, até que tudo fique quites. Melhor remoer, do que esquecer, disse uma prima minha, que é bem mais velha.

Quando os vizinhos vêm me visitar e mamãe me chama de seu ‘príncipe’, de propósito eu começo a chorar. Sei que posso apanhar, mas me divirto só de vê-la desesperada em me calar para ostentar seu poder e controle de mãe, tão natural de nossa espécie. Mamãe não sabe me segurar direito, ou quer que eu caia?
Eu fico todo desajeitado em suas mãos, em seu colo de obrigação de mulher casada com um homem honesto e trabalhador.
Se os vizinhos chegassem e dissessem que sou feio, muito magrinho, pequeno demais ou esquizito seria mais divertido. Pois teria que trabalhar com a verdade desde cedo e não com a mentira dita tão mal dita nestas ocasiões. Preferia viver a base da dor das verdades do que da revolta por ser enganado. Por viver uma vida inteira de mentiras.

Eu fico olhando e desejando a porta aberta, que dá para a luz do mundo lá fora. Tenho medo horroroso do mundo. Mas tenho um desejo enorme de me autodestruir nas estradas dele. Tenho vontade de percorrer caminhos escuros e chuvosos em dias de tempestades catastróficas.
Tenho uma vontade insana de fugir daqui, desse colo frio e dizer adeus a todos estes protocolos idiotas, a essas etiquetas falsas que só alimentam a artificialidade nas relações. Sei que sou dependente deles, mas minhas emoções não. Nem meus desejos.
Sei que sou livre e presidiário de todos eles que me visitam e atormentam.
Eu só tenho o silêncio para me defender. E o delírio para me salvar.

Vejo todos como eles realmente são: espectros. Todos representando um papel tão ridículo como a própria natureza do seres ‘humanos’. Deve ser por isso que tenho pavor de teatro, encenação. Me lembra tudo que sempre tive que suportar a base do silêncio mortal, do autoritário poder de mãe. Mas vou ao cinema, porque sei que tudo é falso, mas as pessoas também são projetos de pessoas reais na tela. Me sinto distante delas, e isso me agrada, me conforta. E só vou ao cinema quando não tem muita movimentação. Quando o cinema está quase vazio. Quando eu faço companhia as minhas dores e aos meus demônios.

Tenho nojo de tudo que não é verdadeiro. Tenho nojo, raiva e até ódio de tudo que se representa. Por isso me sinto tão inadequado no mundo. Não sou feliz. Sou triste. E infeliz. Não há vitória aqui. Há conformação de jogos de poder em que o poder, em sua dinâmica e força mega estrutural, sempre vence. Triste é ver que quando vencemos algo, muitos morrem pelo preço de se ganhar. Então me dói. Porque uma vida é muito. É uma história. E uma história não pode deixar de ser exercida nem contada por causa do ódio, dos desafetos. Por isso, eu seja depressivo, ou melancólico.

Minhas perninhas curtas me impedem de correr. Aliás, nem aprendi a engatinhar ainda. Os vizinhos me dizem que vou começar a correr aos dois anos. Desde então, vivo numa ansiedade insana, incontrolável. Quero fazer dois anos logo e fugir daqui. Deste inferno que me prendem e da qual não consigo quebrar as correntes devido a minha fragilidade de recém-nascido. Tenho ódio da minha condição. Desprezo, diria.
Não tenho força, vitalidade.
Mas um dia eu terei.
Terei e serei livre.
Mesmo que na minha ilusão.

 

Este conto faz parte do livro ‘Contos pela Cidade – Almas aflitas no subterrâneo do concreto’ disponível para venda em download no site Amazon do Brasil. Clique aqui e adquira o seu exemplar por R$ 3,17 apenas : https://www.amazon.com.br/dp/B01K3OEU3A

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